CAMILA NOGUEIRA
A chuva fina que caía sobre São Paulo naquela manhã parecia lavar a fuligem da cidade, transformando o asfalto em um espelho cinzento e escorregadio. Dentro do SUV, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ritmo hipnótico dos limpadores de para-brisa.
Bruno dirigia com os olhos varrendo os espelhos retrovisores a cada cinco segundos. Eu estava no banco de trás, com as mãos pousadas sobre o colo, apertando a alça da minha pequena bolsa com força demais.
— A previsão é de chuva o dia todo, Dona Camila. — Bruno comentou, quebrando o silêncio. Foi uma tentativa rara de conversa fiada, talvez porque ele sentisse a tensão que irradiava de mim.
— É bom para dormir — respondi, minha voz soando estranhamente calma aos meus próprios ouvidos. — Acho que as meninas vão querer ficar dentro de casa, jogando conversa fora. Vai ser tranquilo.
— Estarei no carro, em frente ao portão. Qualquer coisa, a senhora tem o rádio.
— Eu sei, Bruno. Obrigada.
O carro virou na r