Acordar naquela madrugada foi como emergir debaixo d’água. O corpo sobressaltou antes mesmo dos olhos se abrirem, e por um segundo pareceu que ainda estava presa naquele quarto sem luz, sem som, sem ninguém.
A garganta ardia como se tivesse chorado a noite inteira. Não havia lembrança do momento exato em que o sono chegou, apenas da forma como voltou: coração acelerado, ar faltando, travesseiro úmido sob o rosto.
A palma da mão percorreu o rosto devagar, como quem recolhe provas de um crime emocional. Lágrimas recentes ainda marcavam a pele, revelando que, de algum modo, o choro da infância nunca tinha terminado.
A memória não retornara em pedaços, mas inteira, como se alguém tivesse aberto uma janela no passado e empurrado a mente para olhar dentro.
O quarto estava silencioso, e aquele silêncio tinha cheiro de perigo, era nele que o corpo lembrava do escuro.
Um desejo discreto atravessou o peito: a presença de Gael. Não por perguntas ou exigências, apenas para existir perto. Mas ele