Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu dormi mal naquela noite.
Não por causa do contrato.
Contratos não me assustavam.
O que me assustava era a forma como Arthur Valente tinha me olhado quando assinou aquele papel — como se tivesse absoluta certeza de que eu acabaria aceitando aquilo.
E o pior de tudo era que ele estava certo.
Eu fiquei olhando para o teto do meu apartamento durante horas, tentando entender em que momento da minha vida eu tinha começado a considerar a possibilidade de um casamento falso com um bilionário arrogante.
O despertador tocou às seis da manhã.
Levantei antes mesmo dele tocar pela segunda vez.
A rotina sempre foi minha forma de manter o controle. Café forte, banho rápido, cabelo preso em um coque baixo. O espelho do banheiro refletia a mesma mulher de sempre: organizada, racional e perfeitamente capaz de tomar decisões difíceis.
Então por que aquele contrato ainda estava ocupando espaço demais na minha cabeça?
Meu telefone vibrou em cima da mesa da cozinha.
Número desconhecido.
Atendi.
— Doutora Helena Duarte.
A voz do outro lado era familiar.
Baixa.
Controlada.
— Espero que tenha dormido bem.
Fechei os olhos por um segundo.
Arthur Valente.
— Eu estava começando a achar que bilionários não dormiam — respondi.
— Dormimos quando é necessário.
— E ligar às seis da manhã também é necessário?
— Sim.
Houve uma pequena pausa.
— O motorista está chegando.
Franzi a testa.
— Motorista?
— Para levá-la ao escritório.
Segurei o telefone com mais força.
— Eu não aceitei sua proposta.
— Ainda não.
Ele parecia completamente tranquilo.
— Então por que eu iria ao seu escritório?
— Porque você é inteligente demais para ignorar uma proposta que pode resolver vários problemas da sua vida.
Fiquei em silêncio.
Arthur continuou.
— Inclusive o problema financeiro do escritório Duarte & Associados.
Meu estômago apertou.
Aquilo me irritou instantaneamente.
— O senhor investigou minha empresa?
— Eu investiguei tudo que era necessário.
Minha voz ficou mais fria.
— Eu não gosto de homens que vasculham minha vida.
— E eu não gosto de fechar contratos sem conhecer a outra parte.
A buzina de um carro soou lá embaixo na rua.
Meu coração bateu um pouco mais rápido.
— O motorista chegou — disse Arthur.
— Eu não disse que iria.
— Mas você vai.
Respirei fundo.
— O senhor é muito arrogante.
— Não.
A resposta veio imediata.
— Apenas eficiente.
A linha ficou em silêncio por alguns segundos.
Então ele disse:
— Traga o contrato.
— Por quê?
— Porque hoje vamos discutir os termos reais.
A ligação foi encerrada.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos.
Depois para a janela.
Um carro preto estava estacionado em frente ao prédio.
Motorista de terno.
Claro que estava.
Suspirei.
Talvez eu estivesse curiosa demais.
Talvez irritada demais.
Talvez apenas incapaz de deixar um desafio passar.
Peguei minha bolsa.
O contrato ainda estava dentro dela.
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O prédio da Valente Tech parecia ainda mais intimidante durante o dia.
Vidro, aço e pessoas apressadas por todos os lados.
O motorista me acompanhou até a recepção sem dizer uma única palavra.
O nome de Arthur parecia abrir portas automaticamente.
Literalmente.
O elevador subiu rápido demais até o último andar.
Quando as portas se abriram, uma mulher elegante já estava esperando.
— Doutora Helena Duarte?
Assenti.
— Senhor Valente está aguardando.
Claro que estava.
Caminhei pelo corredor longo, tentando ignorar a sensação de que todos ali sabiam exatamente quem eu era.
A porta do escritório dele estava aberta.
Arthur estava de pé perto da janela, olhando a cidade lá embaixo.
Ele virou quando ouviu meus passos.
O terno escuro novamente.
A mesma postura impecável.
Como se aquele homem tivesse sido criado dentro de um molde.
— Você veio.
Cruzei os braços.
— Não se acostume.
Ele indicou a mesa.
— Sente-se.
Não obedeci imediatamente.
— Antes de qualquer coisa, eu quero deixar algo claro.
Arthur ergueu levemente uma sobrancelha.
— Estou ouvindo.
— Eu não sou o tipo de mulher que aceita propostas absurdas só porque envolvem dinheiro.
Ele me observou em silêncio.
Depois deu um pequeno sorriso.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
Mas mudou completamente o rosto dele.
— Eu sei.
Caminhei até a mesa e coloquei o contrato sobre o mármore.
— Então explique por que exatamente você acha que eu aceitaria isso.
Arthur abriu uma gaveta.
Retirou uma pasta.
Deslizou na minha direção.
— Leia.
Abri a pasta com cuidado.
Dentro havia documentos.
Relatórios financeiros.
Planilhas.
Meu coração começou a bater mais forte à medida que eu reconhecia os números.
Eram do meu escritório.
Receitas.
Despesas.
Processos perdidos.
Clientes que tinham encerrado contratos.
Levantei os olhos lentamente.
— Você invadiu informações confidenciais.
Arthur não parecia minimamente preocupado.
— Eu comprei metade das empresas que fazem auditoria jurídica nesta cidade.
Fechei a pasta com força.
— Isso é completamente antiético.
— Talvez.
Ele deu de ombros.
— Mas é eficiente.
Minha irritação estava começando a ferver.
— Meu escritório não é da sua conta.
Arthur caminhou lentamente até a mesa.
Parou diante de mim.
Muito perto.
Perto o suficiente para que eu percebesse algo que não tinha notado na noite anterior.
O perfume dele.
Madeira e algo mais escuro.
— Seu escritório está a três meses da falência — disse ele calmamente.
Senti o golpe.
Forte.
Direto.
— Isso não é problema seu.
— Pode se tornar.
Ele apoiou as mãos na mesa.
— Se você aceitar o contrato.
Fiquei em silêncio.
Arthur continuou:
— Dois milhões de dólares.
Meu olhar voltou imediatamente para o rosto dele.
— O quê?
— Esse é o valor do acordo.
Meu coração disparou.
— Metade agora.
Ele fez uma pausa.
— Metade ao final dos dezoito meses.
A sala parecia menor de repente.
— Você está tentando me comprar.
Arthur inclinou a cabeça.
— Não.
Ele falou calmamente.
— Estou oferecendo uma solução.
Olhei para o contrato sobre a mesa.
Depois para ele.
Arthur Valente não parecia um homem acostumado a ouvir não.
E talvez esse fosse exatamente o problema.
— E se eu recusar?
Ele não hesitou.
— Então você continua lutando para manter seu escritório aberto.
Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa.
Meu coração estava acelerado.
Não apenas por causa do dinheiro.
Mas por causa do olhar dele.
Arthur me observava como se estivesse absolutamente certo do resultado daquela conversa.
E aquilo me irritava.
Muito.
Peguei a caneta.
Arthur acompanhou o movimento com atenção.
— Vai acrescentar outra cláusula?
Encarei-o.
— Muitas.
Ele sorriu novamente.
Dessa vez um pouco mais visível.
— Ótimo.
Inclinei-me sobre o contrato.
Comecei a escrever.
Porque se Arthur Valente queria um acordo…
Eu faria questão de transformá-lo no contrato mais perigoso que ele já assinou.







