Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu sempre acreditei que o amor era apenas um contrato mal redigido.
Sem cláusulas claras.
Sem prazo de validade.
E quase sempre com alguém saindo no prejuízo.
Talvez por isso eu tenha me tornado advogada.
Contratos, pelo menos, são honestos na sua frieza. Eles não prometem eternidade, não juram lealdade eterna sob a luz de velas e flores. Eles dizem exatamente o que são: um acordo entre duas partes que sabem, no fundo, que tudo pode acabar.
Naquela noite, porém, eu estava olhando para o documento mais absurdo de toda a minha carreira.
O escritório de Arthur Valente ocupava o último andar inteiro do prédio. Vidro por todos os lados. A cidade de São Paulo brilhava lá embaixo como um oceano de luzes inquietas. Carros se moviam como veias luminosas nas avenidas, e a chuva fina que começava a cair tornava tudo ainda mais distante.
Eu virei mais uma página.
Depois outra.
Quando cheguei ao final, fechei o documento lentamente e o empurrei de volta pela mesa.
— Isso é uma piada.
Minha voz saiu firme, mas o silêncio que se seguiu fez a frase parecer pequena demais dentro daquela sala gigantesca.
Arthur Valente não reagiu.
Ele estava sentado do outro lado da mesa de mármore escuro como se tivesse todo o tempo do mundo. O terno preto parecia feito sob medida para o corpo alto e rígido, e a luz suave do escritório desenhava sombras nos ângulos perfeitos do rosto dele.
Os olhos eram cinzentos.
Frios.
Analíticos.
Olhos de alguém acostumado a vencer.
— Eu não costumo brincar com contratos, doutora Duarte.
A voz dele era baixa.
Controlada.
Como se cada palavra tivesse sido medida antes de sair.
Cruzei os braços.
— O senhor quer que eu me case com você.
Ele inclinou a cabeça apenas alguns milímetros.
— Por dezoito meses.
Eu pisquei, esperando que alguma parte absurda daquilo se revelasse uma brincadeira mal explicada.
Não aconteceu.
— Dezoito meses — repeti.
— Exato.
Soltei uma pequena risada descrente.
— Eu sou advogada, senhor Valente.
Inclinei o corpo um pouco para frente, apoiando os braços na mesa.
— Não atriz.
Ele sustentou meu olhar sem vacilar.
Nem por um segundo.
— Eu sei exatamente quem você é.
Senti um pequeno aperto no estômago.
Aquilo não era uma conversa normal entre cliente e advogada.
— Sei que você venceu um processo contra a Valente Tech há três anos.
Meu coração deu um pequeno salto.
— Sei que recusou uma proposta de acordo de cinco milhões.
Meu olhar estreitou.
Ele continuou observando como se estivesse lendo uma ficha técnica.
— Sei que seu escritório perdeu metade dos clientes depois daquele caso.
Silêncio.
O ar entre nós ficou pesado.
— E sei — continuou ele — que você é uma das poucas pessoas nesta cidade que não tem medo de homens poderosos.
Algo quente subiu pelo meu peito.
Raiva.
Talvez.
Ou orgulho.
— O senhor pesquisou bastante.
— Eu sempre faço isso antes de fechar um acordo.
Inclinei a cabeça, analisando aquele homem.
Arthur Valente era o tipo de nome que aparecia em capas de revistas financeiras e manchetes econômicas. CEO da Valente Tech. Bilionário antes dos quarenta. Conhecido por comprar empresas inteiras com a mesma facilidade com que outras pessoas compram café.
E, segundo os rumores, completamente incapaz de confiar em alguém.
— Então por que eu? — perguntei.
Ele demorou alguns segundos para responder.
Como se estivesse avaliando cada detalhe meu.
Meu rosto.
Minha postura.
Minha reação.
— Porque eu preciso de uma esposa convincente.
Arqueei uma sobrancelha.
— E sua lista de candidatas desesperadas acabou?
— Não.
Ele respondeu imediatamente.
— Mas nenhuma delas seria capaz de me enfrentar.
Aquilo me irritou mais do que deveria.
Puxei o contrato novamente.
Folheei as páginas com mais atenção.
Casamento civil.
Aparições públicas obrigatórias.
Eventos corporativos.
Residência compartilhada.
Dezoito meses.
Depois divórcio.
Levantei os olhos.
— E qual é exatamente o seu problema que exige um casamento falso?
Arthur não hesitou.
— Herança.
Esperei.
Ele continuou.
— O conselho da empresa exige que eu esteja estabilizado para assumir o controle total.
Cruzei as pernas na cadeira.
— Estabilizado.
— Casado.
Balancei a cabeça lentamente.
— Então você decidiu comprar uma esposa.
— Não.
Ele corrigiu.
— Contratar.
Respirei fundo.
Peguei a caneta que estava sobre a mesa.
Arthur observou o movimento.
— O que você está fazendo?
— Acrescentando uma cláusula.
Abri o contrato na última página e comecei a escrever.
O silêncio dentro da sala parecia amplificado pelo som da chuva contra os vidros.
Quando terminei, empurrei o documento para ele.
Arthur leu em silêncio.
Os olhos se moveram lentamente pela frase.
Depois voltaram para mim.
— Isso é desnecessário.
Inclinei-me na cadeira.
— Então não assine.
Ele leu novamente.
A cláusula dizia:
Nenhum dos dois poderá mentir para o outro durante a vigência do contrato.
O silêncio que se seguiu durou alguns segundos.
Arthur pegou a caneta.
Assinou.
O som da ponta riscando o papel pareceu ecoar na sala inteira.
Quando ele empurrou o contrato de volta para mim, havia algo diferente no olhar dele.
Algo mais intenso.
— Bem-vinda ao acordo, senhora Valente.
Segurei o documento.
E naquele momento percebi uma coisa estranha.
Meu coração estava acelerado.
Não de medo.
Mas de pressentimento.
Porque uma parte de mim já sabia.
Esse contrato tinha muitas cláusulas.
Mas nenhuma delas explicava por que Arthur Valente estava olhando para mim como se aquele casamento falso fosse apenas o começo de algo muito mais complicado.
E, talvez, muito mais perigoso.
Eu deveria ter levantado daquela cadeira.
Deveria ter pegado minha bolsa.
Deveria ter ido embora.
Mas, em vez disso, ouvi minha própria voz perguntar:
— Quando começamos?
Arthur apoiou as mãos na mesa.
E respondeu calmamente:
— Já começamos.
Na manhã seguinte, eu descobriria que minha vida inteira tinha acabado de ser reescrita.
Só que, naquela noite, eu ainda não sabia da pior parte.
Casar com Arthur Valente seria fácil.
Difícil seria sobreviver ao que estava escondido por trás daquele contrato.







