O silêncio no escritório de Elias Thorne era tão denso que Lyra podia quase tocá-lo. A proposta, audaciosa e quase insana, pairava no ar, desafiando a lógica e a frieza calculista do CEO lobisomem. Elias, de pé, com as mãos cerradas sobre a mesa de ébano, parecia uma estátua esculpida em granito, seus olhos azuis gélidos fixos em Lyra. A batalha interna em seu semblante era quase palpável: a esperança, um fio tênue e perigoso, lutava contra o medo arraigado de uma maldição que o havia assombrado por séculos. Ele havia se fechado para o amor, para a conexão, para qualquer vislumbre de felicidade, convencido de que seu destino era a solidão, um preço amargo por um erro que não era seu. Mas ali estava ela, Lyra Meadow, uma bruxa em treinamento, sua Luna, oferecendo não apenas uma saída, mas uma parceria, uma chance de reescrever um destino que ele considerava selado.
Lyra, por sua vez, não vacilou. Ela o observava com uma mistura de determinação e compaixão, ciente do peso de suas palavras. Ela sabia que a proposta era um salto no escuro para Elias, um homem que havia construído muralhas impenetráveis ao redor de seu coração. Mas ela também sentia a verdade em suas palavras, a ressonância de uma conexão que transcendia a lógica e a razão. A maldição era real, a dor de Elias era palpável, mas a magia, a verdadeira magia, residia na capacidade de desafiar o impossível, de encontrar luz na mais profunda escuridão. E ela, Lyra, estava disposta a ser essa luz.
“Quebrar a maldição…”, Elias finalmente quebrou o silêncio, sua voz rouca, quase um sussurro. “Você não tem ideia do que está falando, Srta. Meadow. Essa maldição é antiga, poderosa. Ela consumiu Maressa. Ela me consome a cada dia.”
“Eu sei o que estou falando, Elias”, Lyra respondeu, sua voz firme, sem um pingo de hesitação. “Eu pesquisei. Eu conversei com minha avó, Elara. Existem rituais, existem formas. Não será fácil, eu sei. Mas não é impossível. E eu não sou Maressa. Eu sou Lyra. E eu não tenho medo.”
As palavras de Lyra atingiram Elias com uma força inesperada. “Não tenho medo.” Ninguém jamais havia dito isso a ele, não com tanta convicção. Todos, de uma forma ou de outra, temiam a maldição, temiam a escuridão que o envolvia. Mas Lyra… Lyra parecia ver além da escuridão, para a luz que ele havia enterrado tão profundamente. Ele se aproximou dela, seus olhos perfurando os dela, buscando qualquer sinal de falsidade, de hesitação. Mas não havia nada além de uma determinação inabalável e uma compaixão genuína.
“E se falharmos?”, ele perguntou, sua voz carregada de um desespero que ele raramente permitia transparecer. “E se a maldição a consumir também? Eu não suportaria.”
“Não vamos falhar”, Lyra respondeu, estendendo a mão e tocando seu braço. Um choque elétrico percorreu o corpo de Elias, uma sensação que ele havia esquecido, uma faísca de vida em seu coração amaldiçoado. “E se houver riscos, eu os aceito. Eu escolho isso, Elias. Eu escolho você.”
O toque de Lyra, a sinceridade em seus olhos, a convicção em sua voz… era demais para Elias. A muralha que ele havia construído ao redor de seu coração começou a rachar, revelando a ferida aberta que ele havia tentado esconder por tanto tempo. Ele fechou os olhos por um momento, respirando fundo, tentando controlar a torrente de emoções que o invadia. Quando os abriu novamente, havia uma nova luz em seus olhos, uma luz que Lyra nunca havia visto antes. Era a luz da esperança, misturada com a cautela de um homem que havia sido queimado antes.
“Muito bem, Srta. Meadow”, Elias disse, sua voz ainda rouca, mas com um tom de aceitação. “Você me convenceu. Mas saiba que esta não será uma jornada fácil. A maldição é um inimigo formidável. E eu não sou um homem fácil de lidar.”
Lyra sorriu, um sorriso que iluminou o escritório e o coração de Elias. “Eu não espero que seja fácil, Elias. E eu não espero que você seja fácil. Eu só espero que você esteja disposto a lutar. Juntos.”
Elias assentiu, um aceno quase imperceptível. A aliança estava selada. A partir daquele momento, o CEO lobisomem amaldiçoado e a bruxa em treinamento estariam unidos em uma busca perigosa, uma busca para quebrar uma maldição antiga e reescrever seus destinos. O caminho à frente era incerto, repleto de perigos e desafios, mas pela primeira vez em séculos, Elias Thorne sentiu um vislumbre de esperança, uma chama tênue que Lyra Meadow havia acendido em sua escuridão. A jornada havia apenas começado.
Os dias que se seguiram foram uma mistura peculiar de reuniões corporativas e sessões de pesquisa intensiva. Elias, com sua mente analítica e sua vasta rede de contatos, revelou-se um aliado inesperado. Ele tinha acesso a bibliotecas digitais restritas, a arquivos históricos que Lyra jamais sonharia em acessar, e a uma equipe de pesquisadores que, sem saber, estavam agora direcionando seus esforços para desvendar os mistérios da maldição. Lyra, por sua vez, trazia o conhecimento ancestral do Coven, a intuição de uma bruxa em desenvolvimento e uma perspectiva que Elias, com toda a sua lógica e razão, jamais poderia ter. Eles eram opostos que se complementavam, uma dança estranha entre a ciência e a magia, o pragmatismo e o misticismo.
As primeiras interações eram tensas, marcadas por uma formalidade que beirava o absurdo, considerando a natureza íntima de sua busca. Elias testava Lyra, questionando cada uma de suas fontes, cada uma de suas teorias, como se estivesse em uma sala de reuniões, dissecando um relatório financeiro. Lyra, no entanto, não se intimidava. Ela respondia com paciência e convicção, citando tomos antigos e experiências do Coven, defendendo suas crenças com a mesma paixão que ele defendia seus negócios. Lentamente, a barreira entre eles começou a ceder. As perguntas de Elias se tornaram menos inquisitivas e mais curiosas, e as respostas de Lyra, menos defensivas e mais colaborativas.
Eles passavam horas no escritório de Elias, a mesa de ébano agora coberta por pilhas de livros empoeirados, mapas astrológicos e diagramas complexos. Elias, que antes só via números e estratégias, agora se via imerso em lendas de bruxas vingativas, rituais de sangue e a intrincada teia do destino. Lyra, que antes se sentia intimidada pela grandiosidade da Thorne Industries, agora se movia com confiança pelos corredores, sua presença vibrante contrastando com a sobriedade do ambiente corporativo. Ela o ensinava sobre as energias da terra, sobre a linguagem das estrelas, sobre a delicada dança entre a luz e a sombra que governava o mundo mágico. Ele, por sua vez, a ensinava sobre a arte da negociação, sobre a importância da estratégia e sobre como navegar no complexo mundo dos negócios, habilidades que, para a surpresa de Lyra, revelaram-se úteis até mesmo na busca por uma maldição.
Uma noite, enquanto revisavam um antigo pergaminho que descrevia um ritual de purificação, Lyra apontou para um símbolo. “Este é o selo da Família Sombria”, ela explicou, seu dedo traçando as linhas intrincadas. “Eles eram um clã de bruxas renegadas, conhecidas por sua magia negra e por sua sede de vingança. Minha avó mencionou que a bruxa que amaldiçoou sua linhagem pode ter sido uma delas.”
Elias franziu a testa. “Família Sombria? Nunca ouvi falar. Meus registros genealógicos não mencionam nada sobre isso.”
“Eles operavam nas sombras, Elias. Eram mestres em apagar seus rastros. Mas a magia deles… ela deixa uma marca. Uma marca que eu consigo sentir.” Lyra fechou os olhos, concentrando-se. “Há uma energia residual, um eco de dor e raiva. É fraca, mas está lá. Como um sussurro no vento.”
Elias a observou, fascinado. Ele havia passado a vida lidando com fatos, com dados concretos, com o que podia ser visto e tocado. Mas Lyra… Lyra operava em um plano diferente, um plano onde a intuição e a energia eram tão reais quanto qualquer planilha de dados. Ele sentiu uma pontada de inveja, uma admiração relutante pela forma como ela se conectava com o mundo de uma maneira que ele, com toda a sua riqueza e poder, jamais poderia.
“Se a bruxa era da Família Sombria, isso complica as coisas”, Elias admitiu. “Eles eram conhecidos por sua crueldade. E seus rituais… são os mais difíceis de reverter.”
“Mas não impossíveis”, Lyra retrucou, abrindo os olhos e encontrando os dele. “Minha avó disse que a magia mais poderosa é o amor. E se a maldição foi criada pelo ódio, ela pode ser desfeita pelo amor. Pelo nosso amor.”
As palavras de Lyra pairaram no ar, carregadas de uma verdade que Elias não podia mais negar. O amor. Ele havia se esquecido do que era, havia se fechado para ele por tanto tempo. Mas com Lyra, ele sentia uma faísca, uma promessa de algo que ele havia perdido. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o rosto dela. A pele dela era macia, quente, um contraste com a frieza que ele havia se acostumado. Lyra inclinou-se para o toque, seus olhos se fechando, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto.
“Eu não sei se sou capaz de amar novamente, Lyra”, Elias confessou, sua voz embargada. “A maldição… ela me roubou isso.”
“Eu sei”, Lyra sussurrou, abrindo os olhos e olhando para ele com uma ternura que o desarmou. “Mas eu estou aqui. E eu vou te ajudar a encontrar o caminho de volta. Juntos.”
Naquele momento, Elias percebeu que a aliança com Lyra era muito mais do que uma busca para quebrar uma maldição. Era uma jornada para curar seu próprio coração, para redescobrir a capacidade de amar e de ser amado. E, pela primeira vez em séculos, ele sentiu uma esperança genuína, uma esperança que não era apenas um vislumbre, mas uma chama que Lyra havia acendido em sua alma. A noite avançava, mas para Elias e Lyra, o tempo parecia ter parado. Eles estavam no limiar de algo grandioso, algo que poderia mudar não apenas seus destinos, mas o destino de toda a alcatéia. A busca pela quebra da maldição havia se tornado uma busca por redenção, por amor, por uma vida que eles jamais ousaram sonhar. E eles estavam prontos para lutar por ela, juntos.