Mundo de ficçãoIniciar sessão
Mariana percebeu que estavam falando dela antes mesmo de ouvir o próprio nome.
O corredor seguia no ritmo habitual — gente passando rápido, vozes cruzando o espaço, passos apressados —, mas havia algo diferente na forma como o silêncio surgia tarde demais quando ela se aproximava. — É verdade? — O doutor Lucas… com a doutora Cibele? O nome veio claro o suficiente para não deixar espaço para dúvida. Mariana continuou andando como se não tivesse ouvido. Não olhou para trás, mas o aperto nos prontuários aumentou um pouco mais do que o necessário. Agora não era mais impressão. Todo mundo sabia. — Ignora, amiga — disse Clara ao lado dela, ajustando o passo. — Eu tô ignorando. — Não parece. Mariana não respondeu. Entrou na sala de prontuários e começou a organizar os papéis, alinhando cada folha com uma precisão maior do que o normal, como se aquilo fosse suficiente para manter o resto no lugar. Não era. Minutos depois, Clara apareceu na porta. — Leva isso pro Alencar — disse, estendendo uma ficha. — Eu tô presa aqui. — Tá. O caminho até a sala dele era curto. Ainda assim, pareceu mais longo do que o normal. Mariana bateu uma vez antes de entrar. — Dr. Alencar? Gabriel ergueu o olhar. Não havia pressa no movimento, nem esforço em parecer acessível. Apenas parou nela o tempo exato de reconhecer quem estava ali. Mariana estendeu a ficha. — Pediram pra entregar isso. Ele pegou. Os dedos roçaram de leve nos dela, rápido demais para ser qualquer coisa — e, ainda assim, perceptível. — Obrigado. A voz saiu baixa, direta. Mariana assentiu e se virou para sair, mas a sensação ficou. Não do toque. Do momento. Porque, de alguma forma, ele já fazia parte do problema. O restante da manhã passou sem que ela conseguisse se concentrar de verdade em nada. Atendeu, respondeu, organizou — tudo no automático. As horas não passaram mais devagar — se arrastaram. Quando voltou à sala de prontuários, a porta se abriu antes que ela alcançasse a mesa. — Posso? Mariana reconheceu a voz antes de levantar o olhar. Cibele entrou como se tivesse todo o direito de estar ali. — Eu não ia deixar passar sem falar com você — disse, ajustando a manga com um gesto mínimo. Mariana não respondeu. — Algumas coisas… já não estavam bem antes. Silêncio. — Às vezes a gente só demora pra perceber. Mariana apoiou a ficha na mesa, alinhando as bordas com cuidado demais. — Se você veio aqui pra isso, perdeu tempo. Cibele inclinou levemente a cabeça, tranquila. — Não. Eu só acho que certas situações… não acontecem do nada. Uma pausa. — Ninguém trai sem motivo. O olhar de Mariana subiu devagar. — Então você tem um? Cibele sustentou, sem recuar. — Eu tenho o meu. E, pelo que parece… ele também teve o dele. O ar ficou mais pesado. Mariana não respondeu. Não precisava. Cibele sorriu de leve, discreto demais para ser inocente. — Enfim… achei justo você ouvir de mim. Virou-se e saiu. O silêncio que ficou não era o mesmo de antes. Quando finalmente conseguiu um intervalo, Mariana seguiu até a copa. O ambiente estava mais vazio, o som distante do hospital abafado pelas paredes. Ela apoiou a xícara na bancada e começou a mexer o café sem perceber. — Turno pesado? A voz veio atrás dela, e Mariana se virou, encontrando Gabriel encostado na entrada, observando com calma. Por um segundo, ela não respondeu. — Dá pra dizer isso. Ele se aproximou sem pressa, pegando outra xícara; o porcelanato devolveu um leve eco quando ele a apoiou. — Não parece só isso. Ela soltou um riso curto, sem humor, girando a colher uma vez antes de parar. — E você sempre acha que tem mais coisa? — Quando tem. O silêncio voltou, mais denso. Mariana levou a xícara aos lábios, sentiu o calor, mas não bebeu. — Você não perguntou — disse, sem encará-lo. — Perguntar o quê? Ela virou o rosto, o olhar parando nele por um segundo a mais do que o necessário. — Se é verdade. Gabriel sustentou o olhar, impassível. — Não preciso. A resposta veio baixa, limpa. Mariana desviou o olhar, a unha batendo de leve na borda da xícara. — Todo mundo acha que precisa. — Eu não sou todo mundo. Ele tomou um gole de café e apoiou a xícara com cuidado, como se encerrasse o assunto. — Você devia voltar. — Eu sei. Mas não saiu. O ar entre eles ficou suspenso por um instante — e ele também não disse mais nada. Quando voltou ao trabalho, o dia seguiu como uma sequência de tarefas que ela cumpria sem realmente perceber. Tudo funcionava, mas nada fazia sentido. Quando o turno terminou, o hospital já estava mais silencioso. Ao atravessar as portas, o ar da noite bateu no rosto, frio o bastante para fazê-la respirar de verdade. Mariana parou por alguns segundos. Ir embora era o esperado. Mas não foi. Caminhou pelo estacionamento sem direção clara, o olhar passando pelos carros até parar no dele, mais ao fundo, discreto como sempre. Desviou o olhar e deu alguns passos, pronta para ir embora — mas parou antes de ir longe demais. O corpo queria sair dali. A cabeça também. Ainda assim, não foi o que aconteceu. Ela voltou. Parou ao lado do carro, hesitou por um instante e bateu de leve no vidro. Gabriel ergueu o olhar, como se não esperasse, e destravou a porta. — Aconteceu alguma coisa? Mariana entrou. O silêncio dentro do carro era mais fechado, o cheiro leve de couro e algo amadeirado ficando mais evidente quando a porta se fechou. — Não. Ele a observou por um instante, o olhar firme, atento. — Então? Ela manteve os olhos no para-brisa, acompanhando a própria respiração desacelerar aos poucos. — Eu só não queria voltar agora. A frase saiu baixa, mas firme. Gabriel não respondeu de imediato. Apenas continuou olhando, como se medisse algo que ela não disse. — Isso não parece o seu tipo. Mariana soltou um riso curto, quase inaudível. — Acho que eu também não estou mais sendo o meu tipo. O silêncio voltou, mais próximo dessa vez. Gabriel apoiou o braço no volante, inclinando levemente o corpo na direção dela, diminuindo a distância sem tocar. — E o que você está sendo agora? Mariana virou o rosto e sustentou o olhar. — Alguém que não quer pensar. Ele assentiu de leve. — Pensar evita problema. — Não evitou. O ar pareceu mais denso depois disso. Gabriel manteve o olhar nela por um segundo a mais, então desviou. — Isso costuma ter consequência. Nenhum dos dois disse mais nada. Ele virou o rosto para frente e ligou o carro. O motor respondeu baixo, estável. Mariana encostou a cabeça no banco, mantendo os olhos fixos no para-brisa enquanto tentava organizar o que ainda parecia fora do lugar. Não era simples, nem seguro — e, mesmo assim, não se moveu. Quando o carro começou a andar, permaneceu em silêncio, sem tentar voltar atrás.






