Em Ritmo De Emergência: O Amor Em Jogo
Em Ritmo De Emergência: O Amor Em Jogo
Por: Val Lima
1 - O Corredor Da Fofoca

Mariana percebeu que estavam falando dela antes mesmo de ouvir o próprio nome.

O corredor seguia no ritmo habitual — gente passando rápido, vozes cruzando o espaço, passos apressados —, mas havia algo diferente na forma como o silêncio surgia tarde demais quando ela se aproximava.

— É verdade?

— O doutor Lucas… com a doutora Cibele?

O nome veio claro o suficiente para não deixar espaço para dúvida.

Mariana continuou andando como se não tivesse ouvido. Não olhou para trás, mas o aperto nos prontuários aumentou um pouco mais do que o necessário.

Agora não era mais impressão.

Todo mundo sabia.

— Ignora, amiga — disse Clara ao lado dela, ajustando o passo.

— Eu tô ignorando.

— Não parece.

Mariana não respondeu. Entrou na sala de prontuários e começou a organizar os papéis, alinhando cada folha com uma precisão maior do que o normal, como se aquilo fosse suficiente para manter o resto no lugar.

Não era.

Minutos depois, Clara apareceu na porta.

— Leva isso pro Alencar — disse, estendendo uma ficha. — Eu tô presa aqui.

— Tá.

O caminho até a sala dele era curto. Ainda assim, pareceu mais longo do que o normal.

Mariana bateu uma vez antes de entrar.

— Dr. Alencar?

Gabriel ergueu o olhar.

Não havia pressa no movimento, nem esforço em parecer acessível. Apenas parou nela o tempo exato de reconhecer quem estava ali.

Mariana estendeu a ficha.

— Pediram pra entregar isso.

Ele pegou. Os dedos roçaram de leve nos dela, rápido demais para ser qualquer coisa — e, ainda assim, perceptível.

— Obrigado.

A voz saiu baixa, direta.

Mariana assentiu e se virou para sair, mas a sensação ficou.

Não do toque.

Do momento.

Porque, de alguma forma, ele já fazia parte do problema.

O restante da manhã passou sem que ela conseguisse se concentrar de verdade em nada. Atendeu, respondeu, organizou — tudo no automático.

As horas não passaram mais devagar — se arrastaram.

Quando voltou à sala de prontuários, a porta se abriu antes que ela alcançasse a mesa.

— Posso?

Mariana reconheceu a voz antes de levantar o olhar.

Cibele entrou como se tivesse todo o direito de estar ali.

— Eu não ia deixar passar sem falar com você — disse, ajustando a manga com um gesto mínimo.

Mariana não respondeu.

— Algumas coisas… já não estavam bem antes.

Silêncio.

— Às vezes a gente só demora pra perceber.

Mariana apoiou a ficha na mesa, alinhando as bordas com cuidado demais.

— Se você veio aqui pra isso, perdeu tempo.

Cibele inclinou levemente a cabeça, tranquila.

— Não. Eu só acho que certas situações… não acontecem do nada.

Uma pausa.

— Ninguém trai sem motivo.

O olhar de Mariana subiu devagar.

— Então você tem um?

Cibele sustentou, sem recuar.

— Eu tenho o meu.

E, pelo que parece… ele também teve o dele.

O ar ficou mais pesado.

Mariana não respondeu.

Não precisava.

Cibele sorriu de leve, discreto demais para ser inocente.

— Enfim… achei justo você ouvir de mim.

Virou-se e saiu.

O silêncio que ficou não era o mesmo de antes.

Quando finalmente conseguiu um intervalo, Mariana seguiu até a copa.

O ambiente estava mais vazio, o som distante do hospital abafado pelas paredes.

Ela apoiou a xícara na bancada e começou a mexer o café sem perceber.

— Turno pesado?

A voz veio atrás dela, e Mariana se virou, encontrando Gabriel encostado na entrada, observando com calma. Por um segundo, ela não respondeu.

— Dá pra dizer isso.

Ele se aproximou sem pressa, pegando outra xícara; o porcelanato devolveu um leve eco quando ele a apoiou.

— Não parece só isso.

Ela soltou um riso curto, sem humor, girando a colher uma vez antes de parar.

— E você sempre acha que tem mais coisa?

— Quando tem.

O silêncio voltou, mais denso. Mariana levou a xícara aos lábios, sentiu o calor, mas não bebeu.

— Você não perguntou — disse, sem encará-lo.

— Perguntar o quê?

Ela virou o rosto, o olhar parando nele por um segundo a mais do que o necessário.

— Se é verdade.

Gabriel sustentou o olhar, impassível.

— Não preciso.

A resposta veio baixa, limpa.

Mariana desviou o olhar, a unha batendo de leve na borda da xícara.

— Todo mundo acha que precisa.

— Eu não sou todo mundo.

Ele tomou um gole de café e apoiou a xícara com cuidado, como se encerrasse o assunto.

— Você devia voltar.

— Eu sei.

Mas não saiu.

O ar entre eles ficou suspenso por um instante — e ele também não disse mais nada.

Quando voltou ao trabalho, o dia seguiu como uma sequência de tarefas que ela cumpria sem realmente perceber. Tudo funcionava, mas nada fazia sentido.

Quando o turno terminou, o hospital já estava mais silencioso.

Ao atravessar as portas, o ar da noite bateu no rosto, frio o bastante para fazê-la respirar de verdade. Mariana parou por alguns segundos.

Ir embora era o esperado.

Mas não foi.

Caminhou pelo estacionamento sem direção clara, o olhar passando pelos carros até parar no dele, mais ao fundo, discreto como sempre.

Desviou o olhar e deu alguns passos, pronta para ir embora — mas parou antes de ir longe demais.

O corpo queria sair dali. A cabeça também. Ainda assim, não foi o que aconteceu.

Ela voltou.

Parou ao lado do carro, hesitou por um instante e bateu de leve no vidro.

Gabriel ergueu o olhar, como se não esperasse, e destravou a porta.

— Aconteceu alguma coisa?

Mariana entrou. O silêncio dentro do carro era mais fechado, o cheiro leve de couro e algo amadeirado ficando mais evidente quando a porta se fechou.

— Não.

Ele a observou por um instante, o olhar firme, atento.

— Então?

Ela manteve os olhos no para-brisa, acompanhando a própria respiração desacelerar aos poucos.

— Eu só não queria voltar agora.

A frase saiu baixa, mas firme.

Gabriel não respondeu de imediato. Apenas continuou olhando, como se medisse algo que ela não disse.

— Isso não parece o seu tipo.

Mariana soltou um riso curto, quase inaudível.

— Acho que eu também não estou mais sendo o meu tipo.

O silêncio voltou, mais próximo dessa vez.

Gabriel apoiou o braço no volante, inclinando levemente o corpo na direção dela, diminuindo a distância sem tocar.

— E o que você está sendo agora?

Mariana virou o rosto e sustentou o olhar.

— Alguém que não quer pensar.

Ele assentiu de leve.

— Pensar evita problema.

— Não evitou.

O ar pareceu mais denso depois disso.

Gabriel manteve o olhar nela por um segundo a mais, então desviou.

— Isso costuma ter consequência.

Nenhum dos dois disse mais nada.

Ele virou o rosto para frente e ligou o carro. O motor respondeu baixo, estável.

Mariana encostou a cabeça no banco, mantendo os olhos fixos no para-brisa enquanto tentava organizar o que ainda parecia fora do lugar.

Não era simples, nem seguro — e, mesmo assim, não se moveu.

Quando o carro começou a andar, permaneceu em silêncio, sem tentar voltar atrás.

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