Mundo de ficçãoIniciar sessãoA médica olhou para mim, depois para Miguel e Lia. A expressão dela não mudava… fria, profissional, mas o peso da notícia estava nos olhos.
MÉDICA: Ela chegou em estado crítico. Fratura na costela, hematomas extensos, sinais de agressão física e… abuso sexual. Está muito fraca, mas estabilizamos. Vamos mantê-la sedada por enquanto. Senhor Ravelli… ela está com uma hemorragia no útero, pode perdê-lo. Ela foi brutalmente violentada. Preciso denunciar imediatamente o que aconteceu com essa garota. Por dentro, algo em mim explodiu. Não gritei. Não quebrei nada. Só fechei os punhos tão forte que senti as unhas rasgarem a pele. “ Se fizer isso, eles vão te matar!” MÉDICA: Eles quem senhor? Isso é muito grave, eu posso responder por omissão. “ Eu ainda não sei quem fez isso com ela. Tudo o que sei foi pela amiga que presenciou parte da agressão. Lia Watson, ela foi trancada no quarto enquanto a amiga era abusada na sala do apartamento. Ela vai perder o útero?” MÉDICA: É cedo para afirmar. Mas… ela tem chances de se recuperar. O corpo dela é jovem e resistente. Agora, o maior risco é psicológico. Psicológico. Essa palavra martelou na minha cabeça como uma sentença. Eu conhecia esse tipo de trauma. Já tinha visto isso antes e sempre deixa cicatrizes. “MALDITOS!” MÉDICA: Por favor, precisa se acalmar. Não podemos permitir visitas até que ela esteja estável. Assim que ela acordar, e se estiver calma… eu libero a entrada de vocês. Assenti com a cabeça, mas por dentro eu era um furacão. Um inferno inteiro queimava sob a minha pele. Assim que a médica se afastou, virei as costas e caminhei pelo corredor até a saída do hospital. Começava anoitecer e estava frio. O vento cortava como lâmina, mas eu não sentia nada. Peguei o celular no bolso, disquei um número. A voz do outro lado atendeu no primeiro toque. VOZ: Senhor Ravelli. “Quero os nomes, agora. Cada um desses filhos da puta. Quero endereço, rotina, ponto fraco. Se demorar mais do que uma hora, eu destruo a sua vida também.” VOZ: Sim, senhor. Estou acionando a equipe. Encerrei a chamada e fechei os olhos por um instante, tentando controlar a respiração. Mas não tinha como. Cada segundo que passava sem eu destruir aqueles vermes era uma tortura. Miguel veio atrás de mim, ofegante. MIGUEL: Ethan! O que você vai fazer? Virei para ele devagar. A minha expressão devia dizer tudo, porque ele empalideceu. “Eu vou fazer justiça.” MIGUEL: Isso não é justiça, é vingança! “Chame como quiser. Mas eu vou acabar com eles. Um por um. E quando eu terminar, ninguém vai tocar um fio de cabelo dela de novo.” Miguel respirou fundo, mas não insistiu. Ele sabia que, nesse estado, eu não ia ouvir ninguém. Olhei para o céu escuro de Manhattan, e a única coisa que vi foi o rosto dela. Ella. Frágil, machucada e quebrada. E a minha promessa ecoou dentro de mim como um juramento de sangue: “Eles vão pagar.” Horas depois… A sala de espera estava mergulhada em silêncio, exceto pelo som ritmado do relógio na parede. Eu permanecia sentado, mãos entrelaçadas, os punhos marcados pelas unhas que haviam rasgado a pele horas antes. Lia, exausta pelo choque e pela longa noite, acabou adormecendo com a cabeça apoiada no ombro de Miguel. Ele, por sua vez, me olhava com aquele semblante provocador que só servia para me irritar ainda mais. MIGUEL: Você se transformou por causa dela. Será que é tão difícil admitir que essa menina mexeu com você? Ethan Ravelli, se não colocar a cabeça no lugar, vai jogar na lama tudo o que conquistou até agora. Levantei os olhos lentamente para encará-lo. Minha voz saiu baixa, fria, controlada: “Novamente essas conversas, Miguel? É melhor calar a boca... A maluquinha pode te ouvir.” Miguel olhou para Lia, sorriu de canto e ajustou o corpo para acomodá-la melhor. Passou a mão no rosto dela, com um gesto suave, e a deitou no próprio colo. MIGUEL: Ela está num sono profundo, Ravelli. Nem um terremoto acorda essa garota. Pode falar à vontade. Permaneci em silêncio por um momento. Então, um dos meus homens surgiu, colocando um envelope pardo em minhas mãos. Olhei para ele sem dizer nada e comecei a abrir, sentindo Miguel me observar como um predador esperando reação da presa. MIGUEL: E então? O que está escrito aí? As palavras queimaram na minha mente conforme lia as linhas do relatório. Quando terminei, ergui os olhos, e a fúria tomou conta do meu corpo. Minha voz ecoou pela sala, grave, carregada de ódio: “O irmão dela... Um maldito viciado contraiu uma dívida com uma gangue. E para pagar, entregou à própria irmã. Isabella foi dada como moeda de troca. Eu vou MATAR esse desgraçado!” O rugido que saiu de mim fez Lia despertar assustada. Ela se agarrou ao pescoço de Miguel, respirando rápido. MIGUEL: Calma... É só o Ethan surtando de novo. Ele manteve a voz tranquila, mas o olhar continuava cravado em mim, inquisidor. Depois voltou-se para ela. MIGUEL: Me fala uma coisa... O que você sabe da família da Ella? Lia ficou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos, ainda pesados de sono, se estreitaram com desconfiança. Mas, por fim, falou, hesitante: LIA: É... complicado. Ella tem uma família que parece não gostar muito dela. Eu não sei nem por onde começar, mas ela... praticamente foi escravizada pelo próprio pai. MIGUEL: Direto ao ponto, Lia. Essa é a hora de saber com quem estamos lidando. Se quiser que nós protegemos vocês, precisamos da verdade. Lia respirou fundo e continuou: LIA: O irmão dela... Theo. Ele afundou a família em dívidas. Jogatina, drogas... tudo. E quando vieram cobrar, ele mandou os caras atrás da Ella. E o pai... Deus, o pai dela é um monstro. Desde que era adolescente, obrigava ela a trabalhar e dar o dinheiro em casa. Todo dinheiro que ganhava ia para eles. Ella não só deixou a Itália para trás, mas também deixou uma família que só explorava ela e também… deixou seu noivo. Minha mandíbula travou. Cada palavra era como um golpe no estômago, mas nada se comparou ao que veio a seguir: “Noiva? Como assim, Fontana é noiva? Essa menina não tem condição nem de cuidar dela mesma! Como diabos ela ia ser noiva? Quem é esse cara?” Miguel arqueou a sobrancelha, um sorriso malicioso dançando nos lábios. Ele sabia exatamente o que aquilo significava. Eu desviei o olhar para Lia, que parecia prestes a desabar: LIA: Eles estão separados agora. Ele tentou de tudo para impedir que ela viesse estudar aqui, mas Ella não deu ouvidos. Veio mesmo assim. Apesar disso... ele ainda ama muito ela. Antes de tudo isso acontecer, ele ligou dizendo que viria encontrá-la no próximo feriado. “ Ele sabe o que houve com ela?” LIA: Não é ela pediu para não contar. Mas... Senhor, isso não muda nada. O problema agora é o Theo. Ele teve a coragem de dar a irmã como pagamento. Estamos falando de cem mil dólares. Ella não tem esse dinheiro, eles vão matar ela. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando voltei a falar, minha voz era aço puro: “Antes que isso aconteça, eles estarão mortos. Um por um. E depois... eu vou visitar a família Fontana. Com muito prazer.” MIGUEL: Nem pense nisso! A Itália não é território seguro para você, Ravelli. Está proibido de colocar os pés lá. Você não sai de Manhattan por nada nesse mundo! Lia arregalou os olhos, confusa, tentando entender a troca de olhares entre nós dois. “Hora de voltar para a nossa base, Miguel. E não adianta tentar me impedir... porque eu não vou desistir dos meus planos.” O silêncio caiu novamente. Lia se encolheu no colo de Miguel, e ele apenas me encarou, sabendo que nada do que dissesse mudaria o que estava prestes a acontecer. Mas algo me consumia de uma maneira ruim. Isabella Fontana era noiva, mas não por muito tempo.






