Mundo de ficçãoIniciar sessãoKaleo
Tudo é previsível, menos o que Layla acendeu dentro de mim. E a raiva tenta dominar o outro sentimento, uma guerra sem fim que me afoga por dentro. — Eu admito uma metade. — Viro, apoiando as mãos no guarda-corpo — Eu a amo. E a odeio. — Metade é mais do que você costumava me dar. — Mag sorri, vitoriosa — E o tal Bart? — Já disse, pintado de príncipe, ossos de tolo. Vai cair pelo próprio peso. — Você vai empurrar? — Se necessário. — Dou de ombros — Mas ele dispensa ajuda. Mag ri, aquela risada limpa que me devolve meus ossos no lugar. — Então coma, antes que a sopa vire memória. Eu me sento de novo. Como lentamente, como quem negocia com o próprio apetite. Quando terminamos, Mag segura minha face com as duas mãos e beija minha bochecha. — Não esqueça, seu avô me ganhou sendo teimoso e gentil. Você só tem a primeira qualidade. Trabalhe a segunda. — Gentileza em mim vira fraude. — Em você, quase tudo vira, meu bem. — Ela pega a bolsa — Mas, surpreendentemente, não com ela. Acompanho Mag até a porta do elevador privativo. O espelho nos devolve versões mais antigas de nós. Aperto o botão, ela entra. — Vai vê-la hoje? — pergunta. — Não. — Minto com meia boca — Hoje eu trabalho. — Você trabalha todos os dias. — A porta começa a fechar — E mesmo assim ela é o seu expediente. Fico com a frase batendo nos azulejos do pensamento até o elevador engolir Mag e a tarde recomeçar. O escritório me recebe de volta com o brilho clínico das telas. Reuniões se sucedem como círculo vicioso, contrato internacional às duas, auditoria às três, conselho às quatro. Em cada sala, alguém tenta me vender prudência como se prudência fosse luxo. Eu compro ousadia mais barato. — Senhor Donovan. — a advogada de compliance entra com pastas — Precisamos discutir a exposição de risco reputacional da campanha da semana passada. — Exposição é o que paga a conta. — Giro a caneta entre os dedos — O que me traz lucro é bom. O resto é palestra. Ela insiste em duas cláusulas. Eu altero três. Ela respira fundo, capitula. Élio surge com um tablet. — O procurador-geral confirmou a reunião de sexta. — Ele hesita — E… a ONG enviou convite para uma atividade com as crianças no sábado. — O nome? — Layla. Mantenho a caneta girando como se o mundo ainda fosse peso morto. — Responda que… — pauso, saboreando a própria indecisão — vou mandar uma doação anônima em dobro e não irei. — Pouso a caneta, enfim — E peça para reforçarem a segurança do prédio da ONG por uma semana. — Segurança? Houve alguma ameaça? — Há sempre. Élio não pergunta. Toma nota, sai. Gosto de quem entende o que não digo. Às quatro, conselho. Um dos conselheiros mais antigos, homem de blazer marrom e relógio herdado, tenta me oferecer prudência com ares de pai. — Kaleo, você está indo rápido demais com a expansão da divisão de dados. A imprensa… — A imprensa é um cão. — Corto, sorrindo educado — Late quando eu mando, morde quando eu pago, lambe quando eu deixo. Próximo. Outro conselheiro fala de filantropia. Eu me inclino. — Façam o que for preciso para equilibrar o gráfico de misericórdia. — Aponto o slide — Mas não limpem meu nome com espuma. Limpem com resultados. Reunião encerrada, minha mente volta para a varanda em que fiquei sozinho com ela, os olhos que não baixam. Sinto a língua lembrar o gosto do não-beijo. Pego o telefone. Há mensagens demais. Entre contratos e convites, um número sem identificação: — “Você escolhe o caminho, eu escolho a queda.” Sorrio de canto. Eu conheço esse estilo. Respondo com nada. Eu domino melhor quando deixo o outro acreditar que fala sozinho. O interfone toca. — “Uma visita, senhor.” — A voz da recepção hesita — “O senhor Bart pede cinco minutos. Diz ser… urgente.” As pupilas me afiam. Interesso-me. Aperto o botão. — Traga. Ele entra com um terno bem-educado e um sorriso que treinou em frente ao espelho. O aperto de mão é correto; o olhar, falso. — Senhor Donovan. — Ele tenta a gravidade — Quero conversar sobre a Layla. — Sentença ousada para quem não se apresentou. — Aponto a cadeira — Sente-se, Bart. Ele senta. Eu fico de pé, como quem decide destinos. — Eu sei que o senhor esteve na ONG, no evento, e… — ele remexe o relógio — sinceramente, a proximidade não me agrada. — Não pedi seu agrado. — Encho um copo d’água sem oferecer — A que veio? — Cuidar dela. — Ele finge calor — E cuidar dela inclui escolher quem se aproxima. — Bonito. — Dou um meio sorriso que não chega aos dentes — Mas você não escolhe nada aqui. Bart se inclina. — Layla não precisa de mais confusão. Ela… confia nas pessoas. — E você se beneficia disso, imagino. — Ergo o queixo — Meu conselho: economize esforço. Vai precisar dele mais tarde. Ele empalidece meio tom. Levanta, tentando alcançar minha altura sem salto. — Nós nos entendemos? — Nós dois? — Olho nos olhos dele, furando o verniz — Não. — Dou um passo, fecho a distância — Mas você me entendeu. Bart recua quase imperceptivelmente. Vai até a porta, hesita. — Boa tarde, senhor Donovan. — Para alguns, será. Ele sai. Eu fico com um humor que só melhora quando os tolos se apresentam voluntários. Anoitece aos poucos atrás do vidro. As luzes da cidade começam seu ritual de acender o cansaço. Eu desligo o monitor e pego o casaco. Antes de sair, abro a gaveta onde guardo aquilo que não mostro, duas ampolas idênticas, uma lembrança do meu talento para a crueldade ensaiada. Toco o vidro. Fecho. No elevador, desço sozinho, os andares arrancando números como pétalas: me ama, me odeia, me ama, me odeia. No térreo, o motorista já espera. Eu não entro. — Dê a volta no quarteirão. — digo — Vou a pé. Caminho pela calçada até a esquina de sempre. Ali, uma floricultura insiste em ser poesia. Compro uma única rosa azul. A atendente me reconhece, não pergunta. — Para presente? — ela arrisca. — Para destino. Sigo para a rua paralela, onde sei que a ONG tranca as portas às oito. Encosto de frente, do outro lado, como quem observa um aquário. Vejo Layla dentro, terminando relatórios. Ela passa a mão no cabelo, estica o pescoço, sorri sozinha de algum pensamento. Eu imagino ser sobre os animais. Prefiro acreditar que é sobre mim. Meu telefone vibra. Abro. Escrevo, e apago. Escrevo de novo. — Você não me deixa, eu não a deixo. Apago outra vez. Mando outra coisa: — “Durma com as janelas trancadas.” Guardo o celular. Da minha mão, a rosa azul escorre o frio do caule. Deixo-a no parapeito da janela, por fora, onde ela verá sem saber como chegou. Recuo duas casas, sombras me cobrindo. A luz interna se apaga. Layla aparece, abre a janela, encontra a rosa. Seus olhos percorrem a rua. Por um segundo, a linha dos nossos mundos se toca, e nenhum dos dois recua. Volto para o carro. O motorista pergunta para onde. Eu respondo: — Para casa. No caminho, Mag me liga. Atendo. — “Já se confessou hoje?” — ela provoca. — Mais do que a média. — Olho a cidade escorrer pelo vidro — E menos do que deveria. — “O destino te visitou?” — Ele dorme no batente. — “Pois trate de varrer a calçada, meu neto.” — Ela ri — “O amor não é visita que b**e e vai embora. É morador ilegal.” — Eu sei. — “Sabe e não quer saber.” — Pausa — “E o veredito do dia?” Olho meus próprios dedos, como se neles estivesse escrito. — O veredito é o de sempre. — Sorrio, humor sombrio abrindo espaço no peito — Então que seja. Ela pode ser minha perdição, mas será minha. Nem que eu precise arrastá-la comigo para o inferno. — “Ah, menino.” — Mag suspira, mas há orgulho em algum lugar da linha — “Só não esqueça de levar água.” A ligação cai. O carro corta a noite. Dentro de mim, um altar de aço acende velas para uma deusa que não pediu culto. Eu a amaldiçoo. Eu a chamo. Eu a possuo, ainda que por promessa. E amanhã, quando o mundo fingir que manda, eu lembrarei: mando eu. Exceto no lugar onde importa. Onde Layla já mora.






