Capítulo 4 – Vitrines e Veneno

Kaleo

Eventos beneficentes são a coisa mais hipócrita que a humanidade inventou. Ricos engravatados doando migalhas, fotógrafos registrando cada aperto de mão como se fosse milagre, jornalistas fingindo que caridade é notícia. Tudo um circo.

E eu?

Eu adoro circos.

Especialmente quando a atração principal é Layla.

— Senhor Donovan, que honra tê-lo conosco. — uma socialite me cumprimenta, tentando esconder a curiosidade de quem se pergunta por que o diabo resolveu aparecer numa festa de santos.

— A honra é toda minha. — respondo, sorrindo com veneno — Não é todo dia que vejo tantos inocentes fingindo que fazem diferença.

Ela se cala, engole seco e me deixa passar. O corredor principal me leva ao salão iluminado como se fosse a vitrine de uma joalheria, lustres de cristal, flores brancas, mesas com guardanapos dobrados em forma de pombas. Santa encenação.

E lá está ela.

Layla sobe ao palco para discursar. Vestido azul marinho simples, cabelo solto caindo como noite nos ombros, olhos âmbar acesos de paixão. O microfone treme na mão dela, mas a voz não falha.

— Quando ajudamos um animal, não estamos apenas salvando uma vida. Estamos lembrando a nós mesmos do que significa humanidade.

A plateia aplaude. Eu rio. Baixo, mas rio.

— Santa de vitrine. — sussurro, apoiado no copo de uísque — Sempre perfeita, sempre iluminada. O mesmo sorriso que enganou Adrian.

Adrian. Meu irmão. O idiota que acreditou nesse mesmo brilho, que morreu achando que valia a pena protegê-la.

E eu? Eu vivo para lembrar a ela que cada sorriso tem preço.

Do outro lado do salão, ela me nota. Sempre me nota. Os olhos dela endurecem, como se quisesse apagar minha existência dali. Ingênua. Quanto mais tenta me excluir, mais eu invado.

Espero o discurso acabar, espero os aplausos e os abraços. Quando ela desce do palco, estou de pé, bloqueando o caminho.

— Belo show, humanitária. Quase acreditei que você nasceu com auréola.

Ela ergue o queixo, sem recuar. É isso que me enlouquece. Essa mulher não sabe o que é medo.

— E você, Kaleo, nasceu com o quê? Tridente?

— Melhor. — Dou um passo para frente, inclinando-me perto do ouvido dela — Nasci com uma língua afiada e uma conta bancária que compra a alma de qualquer um.

— Menos a minha.

A resposta vem rápida, firme, e arranca de mim um sorriso. Maldita.

As pessoas ao redor olham de canto de olho, fingindo não ouvir. Mas o ar entre nós está carregado, como se fosse só nosso.

— Cuidado, Layla. — Meu tom fica baixo, perigoso — Santas demais costumam virar mártires cedo.

Ela arqueia a sobrancelha, com aquele deboche que me deixa dividido entre quebrá-la ou beijá-la.

— E homens amargos demais acabam sozinhos, Kaleo.

É aí que entendo por que não consigo. Por que meus planos sempre falham. Porque cada vez que Layla me enfrenta, eu me sinto vivo.

Do camarim improvisado atrás do palco, observo o caos organizado do evento. Eu tinha planejado sabotar tudo, cortes de energia, confusão com fornecedores, até pensei em infiltrar documentos falsos nos patrocinadores para arruinar a ONG dela. Fácil.

Mas quando ela sorriu para uma criança, quando se abaixou para segurar a mão pequena e dizer:

— Obrigada por acreditar em mim. — todo o plano caiu como cartas ao vento.

Inferno. Eu me odeio por isso.

Mag sempre diz que eu me torturo sozinho. Talvez tenha razão.

O pior é saber que não vou parar. Amanhã invento outra forma, outro plano, outra armadilha. E, na última hora, vou sabotar a mim mesmo de novo.

Porque Layla é minha prisão. Minha droga. Minha doença.

E eu? Eu sou o idiota que bebe o próprio veneno sorrindo.

Volto ao salão como quem invade território inimigo. A orquestra toca uma música morna, as taças tilintam, e eu atravesso tudo como se fosse apenas ruído. Só uma coisa me interessa: ela.

Layla.

Ela conversa com alguns patrocinadores, sorriso no rosto, postura impecável. É irritante como consegue parecer intocada em um mundo tão sujo.

Aproximo-me devagar, até minha sombra se projetar nos pés dela.

— Vai registrar quantas promessas hoje? — pergunto, com a taça erguida — Dez, vinte, ou só as que renderem manchete amanhã?

Ela se vira, surpresa primeiro, mas logo firme. Os olhos âmbar me encaram como se eu fosse só mais uma pedra no caminho.

— Melhor prometer do que não fazer nada, não acha? — rebate, serena.

— Eu faço muito. — Dou um gole lento no uísque — Só que meu “muito” não cabe em discursos bonitos.

Ela solta uma risada curta, quase sarcástica.

— Não sei se deveria aplaudir ou ter pena de você.

Chego mais perto, diminuindo o espaço até sentir a respiração dela contra a minha gravata.

— Pode escolher os dois. Eu sou democrático.

Layla mantém a compostura, mesmo quando meus olhos descem para a boca dela. Isso me irrita e me excita ao mesmo tempo.

— Você adora provocar — ela diz, balançando a cabeça — Mas não consegue esconder que perde tempo demais me observando.

— Tempo é o que mais tenho, Layla. — Deixo escapar um sorriso enviesado — E você é entretenimento melhor do que qualquer negócio que fecho.

O olhar dela endurece.

— Lamento decepcionar, mas não vivo para te divertir.

— Não. — respondo, inclinando-me ao ouvido dela — Você vive para me enlouquecer.

Ela se afasta um passo, mas não o suficiente. Seus dedos apertam o folheto que segura, e noto a tensão que tenta disfarçar.

— Não sei por que ainda se dá ao trabalho de aparecer nesses eventos. — ela solta, tentando se recompor — Se despreza tanto, por que não fica trancado na sua torre de vidro?

— Porque gosto de ver até onde você aguenta minha presença.

Ela respira fundo, controlando-se.

— Acredite, eu já me acostumei.

— É isso que me diverte. — Apoio o cotovelo no balcão ao lado, inclinando a cabeça — Você finge que se acostumou, mas toda vez que estamos perto, seus olhos entregam mais do que sua boca permite.

Por um instante, a máscara dela vacila. Mas logo o garçom aparece oferecendo bebidas, e Layla agradece com polidez. Quando o homem se afasta, ela me encara de novo.

— Você devia parar de procurar o que não existe.

— Eu só procuro o que já é meu. — Respondo sem hesitar, e vejo a raiva acender nos olhos dela.

Ela dá um passo firme para trás.

— A única coisa que é sua, Kaleo, é essa arrogância.

Eu rio. Alto o bastante para incomodar quem passa por perto. Não me importo. O gosto de provocá-la é melhor que qualquer bebida.

Enquanto ela se afasta, deixo a taça na bandeja de um garçom e sigo outro caminho. No bolso do paletó, o celular vibra, mensagem de Élio.

— “Tudo pronto para o corte de energia, senhor?”

Olho para o palco iluminado, para Layla sorrindo enquanto cumprimenta uma senhora idosa. O sorriso dela é claro demais, puro demais… o mesmo sorriso que enganou Adrian.

Eu deveria confirmar. Bastaria digitar “sim”. Bastaria um gesto meu e o evento inteiro viraria caos.

Mas meus dedos travam. Como sempre.

Bloqueio a tela e guardo o telefone.

No espelho do salão, vejo meu próprio reflexo. Ombros largos, terno impecável, olhos azuis que escondem mais do que revelam. O reflexo de um homem que prometeu destruir uma mulher… mas que, cada vez que tenta, se destrói um pouco mais.

A música sobe. O público aplaude outra fala de Layla. Eu me afasto do salão e sigo para a saída lateral, sentindo a chuva bater no toldo.

— Hoje não. — falo, ajeitando o casaco — Mas da próxima vez… da próxima vez, eu não vou falhar.

A mentira arde na língua.

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