Helena
Eu estava sentada no sofá da Laura, com as pernas dobradas embaixo do corpo e uma xícara de chá já fria entre as mãos, quando percebi que não adiantava mais fingir normalidade. Ela me observava em silêncio havia alguns minutos, daquele jeito atento que só quem conhece a gente de verdade consegue sustentar. Laura sempre soube ler meus silêncios melhor do que qualquer palavra.
— Agora fala — ela disse, finalmente. — Porque você chegou aqui com esse olhar distante, como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo.
Suspirei fundo, apoiando as costas no encosto do sofá.
— Eu quase caí na sala de aula — comecei, sem saber exatamente por onde seguir.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Foi bobo — respondi, mas a palavra não combinava nem um pouco com o que senti. — Um brinquedo no chão. Eu estava recolhendo as coisas, distraída… quando escorreguei.
Fechei os olhos por um instante, e a cena voltou com uma clareza absurda.
— Eu perdi o equilíbrio. Foi rápido. Não deu tempo de pensar. S