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Ele Foi Meu Primeiro Amor… Duas Vezes
Ele Foi Meu Primeiro Amor… Duas Vezes
Por: Alana Galbardi
Capítulo 1 — Quando os Olhos se Reconhecem

Helena Azevedo

Nunca acreditei em destino.

Cresci numa cidade pequena demais para grandes coincidências e simples demais para mistérios. Lá, tudo tinha explicação: o sino da igreja marcava as horas, as pessoas sabiam o nome umas das outras e o futuro parecia seguir uma linha reta e previsível. Eu achava que a minha vida também seria assim.

Até ele entrar na minha sala de aula.

O cheiro de tinta guache ainda estava no ar quando ouvi a porta abrir. Era final de tarde, as crianças já começavam a ficar inquietas, e eu organizava os desenhos do dia com aquele cansaço doce de quem ama o que faz. Quando levantei os olhos, o mundo pareceu… falhar por um segundo.

Alto. Elegante. Um olhar frio, intenso, quase sombrio. Ele usava um terno impecável, completamente fora do universo colorido da educação infantil. Mas não foi isso que me deixou sem ar. Foi a sensação absurda que atravessou o meu peito — como se o meu coração o reconhecesse antes mesmo da minha mente.

— Boa tarde — ele disse, com a voz grave e controlada. — Vim buscar o meu sobrinho, o Miguel.

Demorei um segundo a reagir. Senti as mãos tremerem, algo que nunca me acontecia. Forcei um sorriso profissional, tentando ignorar o turbilhão dentro de mim.

— Claro… o Miguel está ali — apontei, ainda sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.

Enquanto ele se aproximava da criança, observei-o em silêncio. Havia algo naquele homem que não combinava apenas com poder ou riqueza. Era dor. Uma dor antiga, guardada com rigor. Eu não sabia como, mas sentia isso com uma clareza assustadora.

Miguel correu para ele, chamando “tio” com alegria. E foi nesse momento que vi o contraste: o homem frio transformou-se por segundos. A dureza no olhar suavizou, os lábios quase sorriram. Aquela imagem ficou gravada em mim de um jeito estranho… íntimo demais para um primeiro encontro.

Quando ele voltou a olhar para mim, nossos olhos se cruzaram novamente.

E então aconteceu.

Uma onda de calor percorreu o meu corpo. Imagens confusas passaram pela minha mente — risos que não reconhecia, mãos entrelaçadas, uma promessa sussurrada à luz de velas. Afastei o olhar assustada, o coração disparado.

O que está acontecendo comigo?

— Professora… — ele chamou, baixo.

— Helena — respondi num fio de voz. — Meu nome é Helena.

Ele assentiu lentamente, como se o nome despertasse algo nele também.

— Arthur — disse. Apenas isso. Arthur.

Houve um silêncio estranho entre nós. Um silêncio cheio de coisas não ditas, de perguntas que não sabíamos formular. Senti-me pequena diante dele, não apenas pela diferença de idade ou posição, mas pela intensidade inexplicável que nos ligava.

Quando ele se despediu e saiu com o sobrinho, pensei que tudo acabaria ali.

Voltei a organizar os brinquedos, mas a minha mente continuava presa à imagem dele. Era impossível não pensar. Arthur não parecia apenas um homem bonito — havia nele uma presença que ocupava espaço, mesmo quando já não estava ali.

Ele devia ter por volta de 30, pensei. Jovem demais para carregar aquele olhar cansado… e maduro demais para passar despercebido. O rosto era marcado por traços firmes, masculinos, como se a vida o tivesse moldado à força. A barba por fazer destacava ainda mais o maxilar forte, e o cabelo escuro, perfeitamente alinhado, denunciava alguém que controlava tudo ao seu redor — inclusive a própria imagem.

Mas foram os olhos que me deixaram inquieta.

Eram escuros, profundos, quase insondáveis. Olhos de quem já amou e perdeu. De quem aprendeu a se fechar para sobreviver. Quando me olharam, senti como se ele estivesse a enxergar algo além da professora jovem e simples que eu era… como se visse a minha alma nua.

O terno que ele usava era claramente caro, ajustado ao corpo atlético de quem frequenta academias e reuniões importantes. Nada nele parecia fora do lugar. Ainda assim, havia uma contradição dolorosa: por trás daquela elegância impecável, existia um homem quebrado.

E eu senti isso.

Senti como se aquela dor chamasse pela minha, mesmo que eu não soubesse explicar por quê. Eu, que nunca tinha sido tocada por outro homem. Eu, que só conhecia o amor pelos livros e pelos sonhos de menina do interior.

Passei o resto do dia tentando ignorar o aperto no peito. Disse a mim mesma que era apenas curiosidade, talvez admiração. Mas no fundo… eu sabia que não era só isso.

Porque quando fechei os olhos naquela noite, antes de dormir, a imagem dele voltou com força.

Mas naquela noite, sonhei com ele.

Sonhei com um amor antigo. Com lágrimas. Com despedidas dolorosas. Sonhei que ele me chamava de “minha”, como se já o tivesse sido antes. Acordei com o peito apertado e a certeza que mudou tudo:

Eu podia não acreditar em destino.

Mas o destino acreditava em mim.

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