Mundo de ficçãoIniciar sessãoArthur Montenegro
Eu não esperava sentir nada além da pressa.
Entrar numa escola infantil não fazia parte da minha rotina. O corredor colorido, as paredes cobertas de desenhos e o som distante de risadas infantis pareciam pertencer a um mundo que não era o meu. Eu só queria pegar o Miguel e ir embora.
Mas então eu a vi.
Ela estava de costas, organizando alguns papéis sobre a mesa baixa demais para a altura dela. Usava um vestido simples, claro, que combinava com aquele ambiente — e, estranhamente, com ela. O cabelo caía em ondas suaves até o meio das costas, refletindo a luz da sala. Havia algo naquela cena que me fez parar antes mesmo de perceber.
Quando ela se virou, foi como levar um impacto direto no peito.
Os olhos dela encontraram os meus e, por um instante, tudo ao redor desapareceu. Não foi atração imediata, daquelas fáceis de explicar. Foi reconhecimento. Cru. Profundo. Inesperado. Como se eu estivesse olhando para alguém que já tinha feito parte da minha vida… de uma forma que eu não conseguia alcançar.
Ela era jovem, sim — devia ter no máximo uns 20 anos —, mas não havia nada de frágil nela. A beleza dela não estava na ousadia, e sim na suavidade. No olhar grande e expressivo. Nos lábios naturalmente rosados, que pareciam sempre à beira de um sorriso tímido. No jeito delicado de se mover, como se carregasse calma mesmo em silêncio.
Havia pureza ali. E verdade.
E isso me desarmou mais do que qualquer beleza óbvia jamais conseguiria.
Quando ela falou comigo, a voz saiu baixa, doce, mas firme. Não havia nervosismo exagerado, apenas um leve brilho nos olhos — o mesmo que eu sentia queimando dentro de mim sem entender o motivo. Algo em mim quis protegê-la. Outra parte quis fugir.
Porque eu sabia reconhecer o perigo.
E aquela garota simples, professora de crianças, era um tipo de perigo que eu não enfrentava há anos: o tipo que ameaça muros cuidadosamente construídos.
Enquanto Miguel corria até mim, observei-a mais uma vez. O modo como ela sorria para as crianças, como se realmente as visse. Como se aquele não fosse apenas um trabalho, mas uma escolha de vida. Aquilo dizia muito sobre quem ela era.
Quando nossos olhares se cruzaram novamente, vi confusão nos olhos dela.
E percebi que não era o único a sentir.
Saí daquela sala com a estranha certeza de que algo tinha começado ali. Algo que eu não queria. Algo que eu não planejei. Algo que, ainda assim, parecia inevitável.
E depois que saí de lá, a imagem dela não saia da minha cabeça e aquela sensação estranha no meu peito parecia apertar cada vez mais.
Algo me dizia que a minha vida estava prestes a mudar, que aquele encontro não teria sido por acaso. Parecia que a vida estava novamente jogando comigo, e eu senti, em muito tempo...
E pela primeira vez em muito tempo, senti medo...
Não dela...
Mas do que eu poderia sentir por ela.







