Capítulos 02

 Dante

Dias depois

O charuto queimava devagar entre meus dedos, fumaça subindo em espirais lentas e preguiçosas, como se zombasse da minha impaciência. Eu encarava a janela do escritório, o vidro frio refletindo o caos da cidade lá embaixo: luzes neon piscando como veias expostas, carros rastejando pelas ruas escuras, o pulso constante de Nápoles  meu reino. As ruas eram um tabuleiro, e eu movia as peças com precisão cirúrgica há anos. Negócios sujos? Sim. Mas eram meus. Nada acontecia sem meu conhecimento. Nada respirava sem minha permissão.

A noite estava quieta demais. Um silêncio opressivo, como o ar antes de uma tempestade que ainda não vejo no horizonte. Peguei o copo de uísque, o líquido âmbar girando preguiçoso enquanto levava à boca. Queimou a garganta, forte, amargo  mas não apagou a inquietação que crescia no peito nos últimos dias. Eu era homem de ação, não de reflexões. Reflexões eram para fracos. Ainda assim... algo estava fora do lugar.

A porta rangeu atrás de mim. Não precisei virar.

— Entre, Carlo — minha voz cortou o ar antes que ele batesse.

Passos pesados. Carlo, um dos poucos que ainda carregavam cicatrizes mais antigas que as minhas, entrou. O rosto marcado contava histórias que ele nunca contaria em voz alta.

— Chefe, os carregamentos da semana chegaram. Porto limpo. Mas Ricci atrasou de novo o pagamento. Quer que eu... resolva?

Dei um gole longo, deixando o silêncio pesar.

Ricci. Rato ganancioso. Sempre testando limites, achando que pode me enrolar.

— Mande um recado — respondi, girando a cadeira devagar para encará-lo. — Quebre dois dedos. Se não entender com isso, quebre mais. Meu dinheiro não espera paciência.

Carlo assentiu, um sorriso torto rasgando o canto da boca  o tipo de sorriso que dizia que ele gostava do trabalho sujo.

— Feito. — Ele parou na porta. — Ah... tem boato. Uns caras do leste farejando nosso território. Nada concreto ainda.

— Investigue — ordenei, batendo o copo na mesa com força controlada. — Quero nomes. Quero cabeças. Antes que vire problema.

Ele saiu. O silêncio voltou, pesado.

Voltei a encarar o reflexo no vidro. Um homem que já viu demais: cabelo escuro penteado para trás, olhos que não pedem permissão, cicatriz profunda cortando o lado esquerdo do rosto da sobrancelha ao canto da mandíbula. Uma marca que queimava toda vez que eu me lembrava de como a ganhei. Meu pai morreu me ensinando uma única coisa: poder é tudo. E eu transformei isso em lei.

Mas naquela noite minha mente não estava nas ruas, nem nos carregamentos, nem nos ratos como Ricci.

Estava nela.

Emma Almeida.

Desde aquela noite na boate, ela se cravara na minha cabeça como uma farpa que eu não conseguia arrancar. Olhos castanhos queimando de raiva e medo misturados. Cabelos negros caindo em ondas selvagens sobre os ombros. Lábios carnudos, entreabertos, desafiando o mundo mesmo enquanto tremiam. Ela invadiu minha sala como uma tempestade, encarando-me sem piscar, arrastando o verme do pai para longe de mim. Ninguém ousava me enfrentar. Ninguém. E ela fez. Com coragem burra e fogo que eu não esperava.

Desde então, algo em mim decidiu que ela era minha. Não por pena. Não por honra. Por obsessão pura. Eu imaginava aqueles olhos se rendendo, aqueles lábios se abrindo para mim, o corpo pequeno e forte se curvando sob minhas mãos. A ideia me deixava duro só de pensar  e isso me irritava. Distração. Fraqueza.

Bati o charuto no cinzeiro com força, irritado comigo mesmo. Não era hora para isso. Dívidas a cobrar. Território a defender.

A porta abriu de novo. Marco, meu braço direito, entrou com o olhar que eu conhecia: más notícias.

— Dante... é sobre o Almeida. O velho idiota.

Revirei os olhos.

— O que agora? Trouxe meu dinheiro?

Marco balançou a cabeça, rosto tenso.

— Não. Foi visto ontem à noite no território do Salazar. Ofereceu a filha. O mesmo acordo que tentou com você. Dessa vez... Salazar aceitou.

O ar ficou espesso, sufocante. Vitor Salazar. O nome sozinho fazia meu estômago revirar. Eu conhecia as histórias. Não eram boatos. Ele não usava mulheres  ele as destruía. Devagar. Metodicamente. Até não restar nada além de cascas vazias, olhos mortos e corpos quebrados. E agora aquele covarde do Almeida entregara Emma para ele.

— Certeza? — Minha voz saiu baixa, perigosa.

— Um dos nossos viu. Salazar manda buscar amanhã à noite.

Fechei os olhos por um segundo. A imagem dela voltou forte: olhos cheios de fogo sendo apagados, lábios carnudos se abrindo em grito de dor, corpo pequeno sendo rasgado por mãos que não mereciam tocá-la.

Não.

Eu não permitiria.

Não era honra. Eu não era santo. Era posse. Desde o momento em que ela me enfrentou, algo primal decidiu: se alguém a teria, seria eu. E ninguém nem Salazar  tocaria no que era meu.

Levantei-me da cadeira, o couro rangendo.

— Reúna os homens. Agora.

Marco ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Sério, Dante? Por causa de uma garota? Isso pode acender uma guerra aberta.

— Ela foi oferecida a mim primeiro — rosnei, pegando o casaco. — É meu direito pegá-la antes. Salazar é um animal. Comigo... ela terá teto, comida, proteção. Não merece pagar pelos erros do pai. E se Salazar invadir meu território, a guerra vem de qualquer jeito. Melhor cortarmos pela raiz. Sem sangue... por enquanto.

Marco me mediu por um segundo, depois assentiu.

Saí do escritório, o peso da decisão me seguindo como sombra. Eu sabia que isso não acabaria limpo. Sabia que traria dor de cabeça, sangue, talvez mais cicatrizes.

Mas também sabia de uma coisa: Emma Almeida não seria de Salazar.

Ela seria minha.

E eu a reivindicaria inteira, viva, e gritando meu nome.

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