Mundo de ficçãoIniciar sessãoDenize se senta de forma perfeita na primeira cadeira da cerimônia de formatura; suas mãos repousavam suaves sobre os babados de seu uniforme, e seus cabelos lisos brilham sob a luz da sala.
Apenas duas fileiras atrás estava Paulo. Ele suava frio dentro do uniforme sufocante do orfanato; de longe, observa os cabelos brilhantes de sua amiga, fissurado na borboletinha que parecia bater as asas enquanto segurava uma mecha do cabelo dela, pensando que até aquele enfeite de cabelo parecia livre. Apesar da pouca idade, todas as vezes que esteve na casa de seus compradores não havia sido bom. Ele comia as sobras, dormia em um colchonete no porão úmido e mofado, instalado ao lado das quinquilharias do Dia de Havanu. Ele odiava o Dia de Havanu; a única vez em que foi, seu irmão escorregou e torceu o pé, e essa foi a primeira vez que ele apanhou — a primeira de muitas. Ele secava as mãos encharcadas de suor na calça do uniforme; hoje à noite, ele estaria cem por cento e para sempre nas mãos daquela família, e isso o assustava muito. O orfanato estava longe de ser um lar, mas quem era adotado no ato de entrada era tratado relativamente bem e com dignidade, pois os pais pagavam todas as despesas das crianças enquanto estivessem na instituição; graças a isso, ele e Denize eram educados e tratados com máxima qualidade. Denize para liderar, Paulo para servir. Denize estava ansiosa por finalmente ir para casa e ficar com seus queridos pais. Ela sabia o motivo de estar ali, mas também sabia que ninguém a amava mais do que seus amados pais. Ao fim da cerimônia, todos receberam um broche da instituição, mas, quanto a Paulo e Denize, eles receberam como broche o brasão de suas famílias. Antes de saírem pela porta que os levaria até seus pais, Denize parou e olhou para Paulo. — Você tem que ficar bem! — Ela arranca o broche com o brasão da família e o coloca sobre a mão de Paulo, que está trêmula. — Você tem que sobreviver a isso; nós vamos nos ver de novo. Paulo olha em seus olhos querendo acreditar nisso e assente com a cabeça. Ele faz menção de puxar o seu broche para entregá-lo a ela, mas, no último segundo, recolhe a mão e a põe no bolso; jamais gostaria que ela soubesse a que família ele seria entregue. No outro bolso, ele encontra e aperta um enfeite, entregando-o a ela. — Não se preocupe comigo — ele fala. — Você sabe que quem tirou as melhores notas sempre fui eu; como eu poderia estar nervoso? — mentiu. Denize parecia encantada com o grampo; era uma gardênia presa por inúmeras pérolas que delicadamente enfeitavam o acessório. Antes que pudesse agradecer, ele se virou e desapareceu, misturando-se aos mais de cinquenta uniformes na sala de despache. Ela guarda o enfeite e vai em direção à porta oeste, onde seus pais disseram que a esperariam. Ao vê-los, ela se lança nos braços da mãe e, depois, nos do pai; eles choram com o reencontro. — Finalmente — diz seu pai. — Agora estamos completos. Denize entra no carro e se senta no meio. Seus pais explicam que, daquele momento em diante, seu nome seria Lizzebeth Udarach Marverich. Eles a adotaram com esse nome, mas o orfanato só os permitia saber disso no momento final da cerimônia, um ato vil para fazer os órfãos manterem a humildade e saberem que sua nova vida só foi possível graças à instituição — como se qualquer um deles fosse capaz de esquecer a dura educação recebida por nove anos. Denize, agora Lizzebeth, parecia feliz em deixar seu velho nome para trás, já que isso significava ter o sobrenome de seus pais, e eles ficaram comovidos por ela ser tão compreensiva e não refutar nem sequer uma palavra. Mas eles nem imaginavam que isso nunca aconteceria, pois tanto ela quanto Paulo foram doutrinados desde o primeiro dia pela própria irmã Odete, uma das fundadoras do Lar Feliz das Crianças Sem Sorte; e não havia ninguém mais capaz de manipular mentes do que aquela velha. A velha Odete havia olhado de longe seus pupilos seguirem para os portões leste e oeste: opostos em tudo, mas doutrinados da mesma forma. Ela ficou calma; sabia que havia feito um bom trabalho. Paulo, por sua vez, foi recepcionado pelo motorista, que entregou os novos documentos para ele. Paulo observa: — Hendrick Silverstone? — lê em voz alta. — Esse é seu nome de registro, e o sobrenome é o do Sr. Silverstone. A senhora não quis que você herdasse o sobrenome da família dela — o motorista diz, tentando soar o mais gentil possível. — Faz todo sentido — diz Hendrick, por fim. Ao contrário de Lizzebeth, ele nunca teve carinho por seu nome antigo e tão pouco teria por esse. Ao receber um aparelho de comunicação, a primeira coisa que abre é o calendário da família; como Odete o tinha orientado, hoje brilhava um tom azul na agenda: "Acompanhar Endriave no Festival de Havanu". Hendrick respira fundo e fecha os olhos de raiva por sua primeira missão oficial ser participar de mais um Havanu. Impotente, ele deixa os ombros caírem em leve desespero. "Bem, agora tudo vai mudar", pensa Hendrick, olhando o aparelho. "De um jeito bem ruim."






