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Capítulo 3 Colégio Herdeiros do Mundo

Lizzebeth

​Faz exatamente cinco anos que eu não acordava nessa cama perfeita, com essa vista incrível e com minhas lindas cortinas de seda brilhando sob o sol. Eu amo Jacarta, meu querido lar.

​E, junto com a nostalgia, vem a mesma sensação de todos os anos em que dormi nesse quarto: estranheza. Não sei bem de onde vem essa sensação; talvez o fato de o quarto ser quase todo vinho e minha cor preferida ser verde. Ou o escandaloso lustre acima da cama, que sempre parece que vai cair na minha cabeça à noite. Ou o fato de eu nunca poder ter escolhido nenhum detalhe da minha vida, nem algo tão simples quanto uma cortina. É, talvez seja isso.

​Passei esses cinco anos fora apenas estudando, no meio do oceano, ouvindo o barulho incessante do mar profundo no mais completo e absoluto nada. E, por mais que fosse difícil, nesse momento percebo que era mais confortável viver sem tantos roteiros, planos, metas e ensaios. Por mais que a mamãe e o papai também estivessem lá e fosse de suma importância que eu aprendesse todos os processos do nosso negócio, nem eles e nem eu vivíamos tão preocupados com detalhes. Nós pulamos de estação em estação, de país em país, até ter visitado todas as 27 unidades de nossas refinarias. E foi... leve.

​Tudo isso foi muito importante, é claro, mas voltar para casa? Isso faz mais parte do meu dever do que todo o resto. A única forma de manter um império forte é nunca estar ausente do centro dele.

​Vejo meu uniforme no manequim no meio do closet, com um recadinho da minha mãe: "Seu uniforme de abertura", junto de vários corações. A Sra. Lindsen... como pode ser tão fofa?

​Depois de sair do banho preparado pelas minhas aias, o perfume de rosas e baunilha invade o quarto. Elas borrifam a fragrância sob meus cabelos e pele. Um perfume feito para mim; lembra muito o da minha mãe, mas o dela é muito mais gostoso.

​Visto o uniforme. A saia está no tamanho ideal, três palmos acima do joelho; o casaco, com botões cintilantes em ouro, adorna o conjunto, o que dispensa acessórios. Impecável, bem ajustado, sem eu sequer ter experimentado antes. Mas, afinal, por que me surpreendo? Nunca pude escolher meu guarda-roupa e as roupas sempre estavam lá, separadas por dia e eventos, e todas se encaixavam muito bem.

​Coloco um único acessório que foge do padrão de sempre: uma borboleta dourada que prende uma mecha rebelde que sempre cai sobre meus olhos.

​Estou pronta! Desço as escadas até a sala de jantar e vejo meus pais já sentados à mesa.

​— Bom dia, minha querida mãe. Como passou a noite? — Beijo sua mão e ela me abraça.

​— Passei bem, Lizze.

​— Bom dia, meu querido pai. Como passou a noite? — Beijo sua mão e, em seguida, ele beija o topo da minha cabeça.

​— Ansioso, Lizze — diz ele, esfregando as palmas e depois retirando uma caixa com um lindo laço na tampa e estendendo-a a mim.

​— Ah, papai, não precisava! — digo animada. — Posso abrir?

​Eles fazem um sinal com a cabeça em afirmação e, ao abrir, vejo um lindo buquê de flores rosas e lilases com uma caixinha presa no meio. Abro a caixinha, ainda encantada com as flores, e me deparo com a chave de um carro.

​— É sério? — digo em choque.

​— Está lá fora — a mamãe diz.

​Peço licença com uma leve reverência, com a mão no coração, e me encaminho para a entrada. Eles estavam tão relutantes em me deixar dirigir sozinha... mal posso acreditar.

​E lá estava o carro dos meus sonhos: um Porsche 911 na cor vinho, a cor da família.

​— Diga "X" — o papai diz e aponta a câmera.

​Faço uma pose junto ao meu buquê de flores. Mas não deixo de pensar... quanto isso vai custar?

​Minha mãe se aproxima de mim e me abraça de novo. Ela me afasta e prende o broche com o brasão da família na lapela do uniforme.

​— Você bem sabe que é a pessoa de maior destaque no mundo. Você é Lizzebeth Udarach Marverich, dona da empresa mais lucrativa e importante do mundo. Tenha o cuidado de escolher adequadamente quem se aproxima de você; escolha pessoas de caráter inquestionável — ela fala em tom sério, com os olhos fixos nos meus, como se enxergasse a minha alma.

​Sinto um arrepio pela espinha; engulo seco.

​— Eu entendo, mamãe. Eu não vou te decepcionar — minha voz treme e desvio o olhar.

​Ela assente e seus olhos parecem sorrir.

​— Você nunca me decepcionou, minha vida — conclui ela, ajeitando meu colarinho com carinho.

​— Lizze, o jantar de aceite do noivado será hoje às 20h. Todos os preparativos estão prontos, nós nos encontraremos lá — meu pai diz ao chegar mais perto de nós.

​Tento suprimir minhas emoções. Um casamento? Eu mal voltei para casa; eles nunca falaram disso antes.

​— É claro, papai — digo, apertando as mãos na chave para disfarçar o tremor.

​Voltamos para dentro e eu olho mais uma vez para o carro estacionado da cor favorita da mamãe. Acho incrível que sempre depois de um grandioso presente vem uma ordem calma e suave, e que sempre muda tudo.

​A Escola de Herdeiros é integral, com apenas uma folga na semana. Parece que vamos ter que nos separar novamente, algo que deixa o clima na refeição triste. Apesar de não sermos uma família convencional, somos muito apegados uns aos outros.

​Após muito choro, nos despedimos enquanto eles me acompanham até o meu novíssimo carro lindo... que custará bem caro.

​Ao dirigir, vejo pelo retrovisor minha mãe chorando no ombro do papai. Eu me pareço fisicamente com a minha mãe; temos o mesmo cabelo preto liso e brilhoso, a pele marrom que brilha sob a luz do sol e o mesmo sorriso. Mas sinto que a personalidade do papai é a que mais se assemelha à minha: nós dois não somos de chorar e não somos dos mais emocionais. Mas não posso mentir, nesse momento meu coração deu uma leve engasgada.

​Me concentro na estrada e tento fazer com que minha mente mude de assunto. Vou conhecer meu noivo hoje, alguém que eu não sabia que existia até um momento atrás. Deve ser de alguma família dos cinco impérios. A família é muito importante; afinal, como Odete sempre dizia: um casamento não é sobre amor. Embora meus pais se amem muito, podemos dizer que eles tiveram a sorte de serem um par estratégico e, ao mesmo tempo, romântico. Um casamento, em primeiro lugar, é sobre aliança comercial, uma fusão de impérios.

​Não posso ficar para baixo; me esforço para ter esperanças, afinal eu sempre tive muita, muita sorte.

​Antes que eu me desse conta, chego ao portal da escola. Meu carro se destaca por vibrar na cor da família Marverich. Apenas cinco famílias têm o direito de usar uma cor exclusiva. Das cinco famílias, duas se encontravam em Jacarta, o que significa que Vinho é a cor específica da minha família; além de nós, ninguém estava autorizado a usar essa cor nem em carros, casas, aparelhos, roupas ou cabelos. Isso abre espaço sem que nos apresentemos, o que poupa muito tempo e explicações, e ninguém ousava descumprir isso.

​A segunda família autorizada a usar uma cor exclusiva são os Silverstones, que usam azul-marinho. Apesar dessas cores do código das famílias, eu não achava que as pessoas nos olhavam com respeito; isso só fazia com que nos olhassem com leve desdém: idiotas ricos que fazem questão de até tomarem cores para si.

​Controlo meu pensamento para que não vá para esse lado. Isso serve para nos diferenciar dos que servem, devo me lembrar. O luxo tem propósito: evidenciar poder, separar senhores de servos. Um arrepio sobe pelas minhas costas mais uma vez. Lembro do que a velha do orfanato sempre dizia: "Vocês estarão lá para servir à sua família e cumprir o seu propósito até o dia da sua morte".

​Todo esse roteiro faz parte do contrato. Todo esse luxo... ainda não sinto que é meu.

​Percorro os olhos pelo estacionamento e não vejo nenhum carro azul no perímetro. Acho que a família Silverstone chega só amanhã.

​Quando desço do carro, minha aia, Gisele, está me esperando. Ela fecha a porta do carro e me direciona até um elevador vinho, cheio de entalhes dourados e letras ostentosas onde se lê "Marverich". Parece que nos acham esnobes; bem, eu não sou, mas ainda prefiro não dividir o elevador com ninguém. Gisele vai até o carro pegar minha bolsa, que esqueci.

​Aperto o botão do elevador. Quando entro, um cheiro intenso de limão e sândalo toma o ar. Fecho os olhos e respiro fundo; um leve sorriso trai meus lábios enquanto a porta se fecha. Perfumes não deveriam ter poder. Aquele tinha — novo, mas familiar.

Escuto um sussurro junto ao meu ouvido e o hálito fresco faz cócegas no meu pescoço:

​— Eu também adoro o cheiro de rosas.

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