Mundo de ficçãoIniciar sessão
No Hospital Madre Tereza, duas mulheres entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Os médicos corriam contra o relógio naquela tarde de 26 de abril.
Clarence suava sob a luz fria do centro cirúrgico quando ouviu o primeiro choro de sua filha; sorriu entre lágrimas. A menina respirava forte. Ela era seu coração fora do peito. Após perder o marido em um acidente e descobrir a gravidez, foi aquele som — o coração da filha — que manteve o seu batendo. A criança foi colocada em seus braços. A mãe percorreu o rosto pequeno da filha com os olhos atentos. Ela se parecia com o pai. — É uma menina. Parabéns! Qual o nome? — perguntou o médico. — Denize. Antes que pudesse concluir o sobrenome, a luz em seus olhos começava a se apagar. A enfermeira tomou a criança com cuidado dos braços da mãe e o médico voltou-se para Clarence; só então viu o sangue espalhado sobre a maca azul. Ele não conseguiu salvá-la. Agora, aquela criança não tinha ninguém. Minutos antes, em outra sala, Janice lutava para se livrar do fardo que ameaçava sua vida. O homem responsável já era casado. Nunca pensou em escolher a ele e nem ao seu filho. Quando o bebê chorou, ela virou o rosto, recusando-se a conhecer o filho que havia abrigado por nove meses. A enfermeira envolveu a criança em uma manta e saiu da sala. Dois pacotes pequenos deram entrada na maternidade naquele dia e tiveram o mesmo destino. O Lar feliz das crianças sem sorte Capítulo 1 O Lar Feliz das Crianças Sem Sorte Um orfanato de fachada, a verdade disfarçada de caridade era: venda de bebês sob pagamento de "doações" exorbitantes. Um orfanato de crianças perfeitas, rigorosamente controladas pela instituição. Quando os bebês chegaram ao berçário no mesmo momento, o enfermeiro responsável pela entrega foi de perto analisar as crianças. Elas eram adoráveis e quietas. Depois de todos os exames que comprovavam sua saúde, ele anotou na pulseira da menina: Denize; e na do menino sem nome, ele mesmo escolheu um, anotando: Paulo. Sem demora, o enfermeiro se encarregou de entregar as crianças. Assim que chegou ao orfanato, ele desceu da ambulância com uma criança em cada braço. As irmãs Elizabetanas já esperavam a encomenda no portão. Ele colocou os bebês nos cestos, recebeu o envelope com o pagamento, virou as costas e foi embora. Paulo e Denize jamais se lembrariam daquele momento, mas foram recebidos com sorrisos quentes e olhos gelados. As irmãs entraram para dentro daquele amontoado de pedras frias e fecharam a porta atrás de si. — Senhora Odete — disseram em uníssono — conseguimos as encomendas. A velha sorriu com seus dentes escuros e esfregou suas mãos brancas, magras e sem viço. Dois meses sem receber nem um recém-nascido, justamente quando dois casais encomendaram. A velha caminhou até os cestos e pegou os bracinhos das crianças. — Uma menina e um menino! Oh, Deus está comigo! — Ela juntou as palmas das mãos e suspirou de alívio. Os casais tinham expressado seu desejo: um por uma menina e outro por um menino, de no máximo um mês de vida. E lá estavam duas crianças perfeitas para o papel. — Preparem os documentos e façam a marca no pé esquerdo, na parte de baixo do pé. Usem o menor ferro para que fique discreto; essas crianças serão herdeiras — a velha sorriu com os olhos. "O preço tem de aumentar", planejou. No tardar do dia, a velha Odete ligou para o primeiro casal, que adotaria Paulo, para marcar uma reunião. Ela sabia que eles eram os que pagariam menos pela criança. Sinea, a esposa, tinha dado à luz havia quatro anos e, infelizmente, perdeu o útero no parto. A criança deles nasceu com uma deformidade nos olhos que era irreparável; com toda certeza adotariam uma criança para auxiliar o herdeiro. Por esta razão, a velha queria acordar de uma vez os valores. Sinea e Simon queriam preparar tudo para o filho, Endriave, herdar o império, e isso incluía alguém leal, de confiança e que nunca trairia seu filho; alguém assim devia ser moldado desde a infância. Por volta das três horas da tarde, a irmã Elizabetana Miríade levou Paulo para outro banho, penteou seus cabelos castanhos fartos e ajustou a pequena gravata do minúsculo uniforme do orfanato. "Ele é um Lord", pensava Miríade. No outro berço, ela olhou Denize com o mesmo uniforme perfeitamente ajustado. — Você tem tanta sorte, pequenina — ela disse, olhando para os lados e beijando a testa de cada um dos recém-nascidos. Com aperto no coração, Miríade pegou o pequeno ferro com o brasão do orfanato e carimbou o pé esquerdo dos bebês. Ela fechou os olhos ao ver a dor dos bebês, derramando uma lágrima enquanto os acalmava. Um trevo de três folhas vibrava em vermelho na pele jovem dos bebês, marcados para sempre como nascidos sem sorte. Em seguida, jogou o spray cicatrizante, que restaura na hora as feridas. Não muito tempo depois, Miríade desceu até a sala de despache com o cesto nos braços. Um lindo bebê de olhos claros e pezinho enfaixado sorriu ao ser colocado na mesa, em frente ao casal. Não muito interessados, pegaram o menino do cesto para analisar suas feições; sim, ele poderia passar facilmente por filho deles. Odete entregou os exames ao médico que o casal havia levado para examinar a criança. — Ele é perfeitamente saudável, senhor — o médico garantiu. Sinea olhou ressentida para a criança e, ao ver os olhos grandes e brilhantes do pequeno Paulo, desviou o olhar. — Qual o valor, irmã Elizabetana? — disse Simon, extremamente formal. A velha examinou o casal e sabia que aceitariam pagar apenas o valor de tabela; mesmo assim, decidiu jogar um valor alto. — Dezessete unidades. Simon e Sinea se levantaram do sofá de couro e, imediatamente, entrou o advogado da família. — Faça-o e formalize — disse Simon ao advogado. A velha não esboçou reações, mas tinha julgado mal aquele casal; eram do tipo que não se importavam com o preço de algo que não tem valor. A irmã Elizabetana responsável pelos bebês subiu com Paulo de volta ao quarto e o colocou no mesmo berço de Denize. O casal decidiu esperar uma semana até assumir Paulo como seu filho; ela fingia estar grávida com a intenção de apresentar outro filho legítimo. Eles precisavam organizar a festa de debut para formalizar a adoção. Eles saíram apenas quarenta minutos antes do próximo casal chegar. Sem aviso prévio, Lindsen e Jason, ansiosos para conhecer a futura filha, chegaram ao portão do enorme castelo e foram recepcionados por uma irmã Elizabetana para a sala de despache. A irmã reconheceu o casal, que tinha sua fortuna levemente superior à de Simon e Sinea. E foi apenas por isso que a entrada foi permitida tão facilmente. Lindsen era estéril; já haviam tentado de tudo para engravidar e nunca conseguiram. No seu aniversário de trinta e cinco anos, ela decidiu que era a hora de ter sua sonhada filha e sabia que o meio mais rápido era o Lar das Crianças Sem Sorte. Jason e ela estavam prontos para dar o maior lance a fim de levarem a criança naquele mesmo dia. Lindsen batia o pé no tapete fino e caro da grande sala. O chão era de madeira encerada, polida e brilhante; os móveis de couro preto e a mesa de madeira de cedro com lindos entalhes de trevos. Um lustre de cristal trazia um pouco de requinte à sala rústica, e o fogo fraco da lareira passava a ideia de conforto, mas o ar daquele ambiente era pesado e medonho. As paredes eram frias e sem cor, pedra sobre pedra; as decorações pareciam grotescas e as flores do vaso, tóxicas. Era um ambiente hostil, e parecia ser esse o objetivo: lembrar órfãos e visitantes que aquilo não era um lar e que ninguém devia se sentir acomodado naquele castelo. A irmã Elizabetana Miríade chegou com o lindo bebê enrolado em uma manta púrpura no cesto, seguida de perto pela velha irmã Odete. — Não esperávamos receber vocês hoje. Qual o motivo de tal surpresa? — A velha falou ríspida. — Soubemos que chegou um recém-nascido no orfanato e gostaríamos de dizer que cobrimos qualquer proposta. A irmã Odete sorriu em silêncio; ninguém nunca devia mostrar desespero perto da velha. — Trinta e quatro unidades, e terá a herdeira perfeita. A irmã que carregava Denize no colo prendeu a respiração; nenhuma criança chegou perto daquele valor. Lindsen atravessou o salão e tomou Denize nos seus braços; ela tinha a pele dourada igual à dela, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Faça, querido, vale a pena — ela disse com a voz embargada. — Me acompanhe, senhor — Odete disse, indicando para o advogado do casal. O advogado recebeu o contrato e apresentou as cláusulas para Lindsen e Jason. Os órfãos ficavam retidos no orfanato até os nove anos de idade para serem educados à base das regras da fundação. Todos os domingos a criança deveria ser levada para casa para se ambientar ao dever, e todos os anos, durante trinta dias, os pais podiam levar a criança para casa ou não. Lindsen ficou nervosa ao saber que só poderia ficar integralmente com a filha depois de nove anos. Sua barriga falsa de nove meses já apontava que estava na hora de apresentar o bebê à família e à alta sociedade. Lindsen retirou Denize daquele cesto simples e a colocou em um personalizado, com o brasão da família e detalhes luxuosos na alça. Ficariam com a criança por uma semana e a trariam de volta. Quieta e observadora, a menina hipnotizava os pais. Quando Lindsen, Jason e Denize passaram pela porta que levava à saída, a irmã Odete foi para o fundo da sala e rapidamente encontrou uma caixinha de madeira. Ela abriu a caixa com uma expressão fria no rosto, pegou o brasão do orfanato e o aqueceu com o maçarico. — Miríade! — chamou com raiva. A irmã chegou perto da velha com as mãos trêmulas, em pânico. Odete fez um sinal para que ela se ajoelhe de costas para ela. Miríade continuava em pânico, pensando no que poderia ter feito de errado. — Quantas vezes eu tenho que repetir? Demonstrações de afeto não são permitidas no Lar Feliz de Crianças SEM Sorte! — Com o rosto vermelho de irritação, a velha pressionou o ferro quente nas costas de Miríade, que suprimiu o grito, mas não as lágrimas. — Vá se trocar — a velha disse com desprezo. Dentro do carro, Lindsen procurava a bolsa com as roupas da criança. Havia um banquete e uma grande festa à sua espera em casa, a 296 km do orfanato. Lindsen trocou o uniforme da filha por um vestido vinho, ansiosa para mostrar a todos que sua querida filha havia nascido. Eles se dirigiram para a pista de hipervelocidade; seguiriam pelo túnel e, em cerca de três minutos, já pegariam a saída de desaceleração para terminar o trajeto de duas quadras. A rua e as luzes das casas fervilhavam empolgação. A entrada do casal, vindo da "maternidade", foi emocionante e triunfante: a herdeira da maior extratora e refinaria estava ali, e se parecia com a mãe. Simon e Sinea foram os primeiros a prestigiar o casal. A barriga falsa de Sinea acusava oito meses; em breve ela teria que divulgar o rosto do novo filho também, mas, ao contrário de Lindsen, ela não estava nem um pouco satisfeita com isso.






