Mundo de ficçãoIniciar sessãoLizzebeth
Meu coração luta com força para se acalmar; olho para minha mão levemente úmida, ainda consigo sentir a sensação. Como ele pode ser tão rude a esse ponto? Achar que pode me tocar a qualquer momento? Isso só pode ser uma piada. Olho pela primeira vez o interior do apartamento, e minha primeira impressão é: vinho. Vejo a cozinheira na cozinha, ainda distraída; parece não ter me visto chegar. Me aproximo dela devagar e a cumprimento. — Você pode, por favor, me preparar algo? Não comi muito bem no desjejum. A cozinheira, que descubro ser Margareth, com gentileza concorda e começa a preparar. Vou para meu quarto e me sento na cama, pensativa. Dentro do bolso do meu paletó, tiro o grampo que Paulo me deu há 7 anos; eu nunca o usei. Prometemos nos encontrar de novo, mas nunca consegui encontrá-lo, e não consegui ir contra as duras orientações dos meus pais de nunca ir até o orfanato, de nunca sequer mencionar aquele passado. Talvez agora, longe dos olhos deles, eu possa forçar a velha Odete a me contar em que família ele está agora. Será que ela ainda está viva? Afasto os pensamentos; eu não devo ir contra minha família. Eu realmente deveria esquecer esse passado que ninguém mais quer lembrar. Enquanto seguro o grampo, a imagem de Hendrick me vem à mente. Aqueles olhos... eles pareciam me conhecer. Sua voz ainda ecoa na minha cabeça. Com certeza ele é um galanteador; aquele ronrono que ele chama de voz, aposto que levou anos de aperfeiçoamento. Vou até a penteadeira e coloco o grampo dentro da gaveta de joias, todas de rubi, o que faz o grampo se destacar ainda mais. Ao sair do quarto, o cheiro de ovos e leite me faz caminhar direto para a cozinha. É melhor encher a barriga e esvaziar a mente. Ainda não são 11h e já lidei com coisas demais. Após a refeição, decido conhecer a escola, só para descobrir que todo mundo só chega amanhã. O castelo é bem rústico, parece até o orfanato com o quíntuplo do tamanho. Parece um filme em preto e branco. Ao menos o céu hoje está azul; traz um pouco de alívio ver uma cor vibrante nesse lugar. Apesar de parecer rústico à primeira vista, há luxo em tudo: o piso de mármore cinza, sem nenhuma ranhura; arandelas luxuosas em cada pilar. Era um lugar confortável, mas, ao mesmo tempo, sério e lúcido demais. Continuo andando até que me deparo com um salão oval. Um salão perfeito para um baile. Observo todos os lados, não parece haver ninguém; tiro minhas sandálias de salto alto e sinto meus pés tocarem o piso frio. As janelas estão abertas, e o vento agita meu cabelo enquanto vou para o meio do salão. Tiro a borboleta e a jogo a alguns metros de distância. Começo a cantarolar uma música proibida que só as crianças do orfanato conheciam; não ouso cantar a letra. Mas meu corpo conhece a melodia e começo a dançar. Na última noite antes da formatura e do despache dos órfãos às famílias, Paulo e eu corremos até o bosque que ficava atrás do orfanato. Lá, as irmãs Elizabetanas tocavam os instrumentos no ritmo da música; a melodia era animada, mas a letra era nossa realidade cruel. Eu e Paulo dançamos a noite toda, a dança da libertação das nossas almas. Movo os braços como um pedido de socorro do último verso: Se eu for merecedora, Deus, apague as minhas lembranças, desapareça com minhas marcas, pois meu único erro foi ter nascido do azar e ter sido recusada pela sorte. Termino minha dança com um movimento brusco e percebo lágrimas quentes descendo pelo meu rosto. Meu corpo se lembrava da dança passo por passo, e minha mente guardou aquela letra na minha memória. Um final feliz nunca acontece com quem começou em amargor. Filhos sem pais, mercadorias do vil. Calço minhas sandálias e vou embora correndo o máximo que consigo. Quando olhei para cima ao final da música, olhos azuis frios e sombrios olhavam atentamente para mim, e um sorriso medonho me foi lançado. Hendrick viu tudo. Continuo correndo. Eu não deveria ter feito isso. Ao voltar para o apartamento, o silêncio pesa mais que o castelo inteiro. Margareth está na sala, segurando uma pequena caixa de veludo azul-marinho. — Senhorita Lizzebeth... isso chegou junto com os documentos do casamento. Pediram para que fosse entregue apenas quando estivesse sozinha. Meu estômago se contrai. Abro a caixa com cuidado. Dentro, repousa um colar. Não é de rubi. É de safira. Meu coração para por um segundo. No interior da caixa, há um cartão com uma gravação em letras douradas: "Um gesto da nossa aliança de impérios... Silverstone." O mundo gira lentamente. O cheiro de limão e sândalo invade minha memória como uma sentença. Aquele encontro no elevador não foi um acaso. Nunca foi. Ele sabia desde o início. Fecho a caixa com mãos trêmulas. — Então... — sussurro para ninguém — a última pessoa a saber dos planos da minha vida... novamente sou eu. Hendrick parecia saber mais a meu respeito do que eu sabia dele, e isso me incomodava. — Ouvi dizer que o herdeiro da família Silverstone é ruivo — diz Margareth, parecendo animada. — Uma característica bem marcante, não é, Lizze? — Margareth brinca, ajeitando seu próprio cabelo ruivo abaixo do gorro, e depois ri. — É verdade, Margareth! São dois filhos! — Digo sorrindo, observando o cabelo dela saindo do gorro. Não faria sentido o filho mais novo fazer uma aliança com minha família; isso vai contra a hierarquia. Suspiro aliviada e me distancio de Margareth. Me dirijo para o quarto segurando a caixa azul na mão, junto com o envelope. Leio o contrato minucioso. Meus pais nunca aceitariam isso. Após o casamento, eu me mudaria para a mansão Silverstone, minha cor passaria a ser azul, as empresas Marverich passariam a ser 40% deles e as empresas Silverstone, 30% nossas. Olho com desdém para a caixa; como são arrogantes, não se faz exigências quando seu nível está abaixo do lugar em que você quer entrar. Escaneio o contrato e o mando para meus pais. Gisele, minha aia, chega com meu vestido para a noite de hoje. Vejo de relance enquanto ela entra no closet: vinho. Antes que eu me levantasse da cama para analisar o vestido mais de perto, meu aparelho toca na minha mão. Atendo o telefone. — Filha, não se preocupe, já mandamos nosso próprio contrato para o noivo e ele aceitou sem ressalvas — minha mãe fala com a voz tranquila. — Mas e essa caixa azul e o contrato? — Devem ter esquecido de cancelar, visto que nos antecipamos com o contrato e eles já assinaram; deve ser só um presente de boa-fé. — Ma... mamãe — gaguejo — eu posso ver o contrato? — Lizze, não tem com o que se preocupar, eu estou cuidando de tudo para você! — Mas eu queria ler pelo menos um pouco... — Concentre-se nos seus estudos por enquanto, Lizzebeth. Tudo ao seu tempo, a mamãe cuida de tudo. — É claro, mamãe — minha voz afina. Ela desliga. E eu afundo na cama. O que está escrito no contrato para que ele seja tão secreto? O dia se arrasta enquanto penso em tudo o que aconteceu. Pelo menos não será Hendrick que vou ter que encarar hoje à noite. Após todos os preparativos feitos, e com todo o melhor que Gisele deu para equilibrar toda a extensão do meu cabelo em um coque, estou pronta. Ela borrifa o perfume na minha pele e cabelos. Vou até o closet e finalmente consigo dar uma boa olhada no vestido. Sorrio ao perceber todo o empenho da mamãe; isso não é só um vestido. Visto o vestido, que se modela a minha respiração. Ele é um vinho profundo, sombrio. O corpo do vestido é justo e inteiriço, com um tecido bordado que captura a luz em reflexos discretos, mas intensos. Sobre o busto, rendas delicadas surgiam como galhos de flores noturnas, subindo pelos ombros e formando mangas transparentes apenas com o desenho do galho vinho, onde a pele aparecia apenas de relance. A saia era justa até o pé; Gisele veio depois com uma cauda e a prendeu no vestido. Ela se abria a partir da cintura em dois painéis largos e pesados, caindo até o chão. O tecido, encorpado e acetinado, criava dobras profundas que se moviam com lentidão majestosa. Cada passo fazia o vestido mudar, alternando entre o brilho contido do bordado central e a opulência silenciosa do tecido liso que o envolvia. Não era apenas um traje de gala: era uma declaração. Havia nele algo de solenidade e poder. Sorrio ao pensar que aquele vestido parecia transparecer tudo aquilo que fui ensinada a ser. Coloco brincos, pulseira e o colar, todos de rubi. Descartadas todas as possibilidades de usar qualquer elemento que fosse azul, o colar de safiras foi parar no fundo da gaveta. No meu coque, escolho usar meu grampo de gardênia pela primeira vez. Ele quebra totalmente o traje monocromático. Sorrio ao pensar que era a primeira vez que escolhi usar algo que não foi preparado pela minha mãe. Olho no espelho e falo: — Isso caiu bem. Me encaminho até o elevador, depois de receber o aviso de que o carro dos meus pais já havia chegado ao estacionamento. Acho estranho as luzes do elevador estarem apagadas; mesmo assim entro ao ver o visor dele brilhando. Antes de as portas fecharem, sinto um vulto passar por mim. O elevador continua parado; vejo que o botão de parada foi acionado. O cheiro agressivo de cedro e hortelã me desnorteia por alguns segundos. Uma mão suave passa pelo meu rosto, o que me faz encolher. Ao perceber que me encolho, a mão segura meu queixo com força. — Udarach Marverich — diz uma voz grossa e firme. Sinto sua respiração da ponta do meu nariz até os meus lábios molhados pelo batom carmesim. — O que você quer? — digo fria, depois de ter me recuperado da surpresa. — Ora, não se assuste — diz com os lábios no meu ouvido. Eu o empurro com força e ele se desequilibra. — Eu só estou te dando as boas-vindas à família. — Ele me empurra contra a parede do elevador e puxa meu braço, me segurando pelo punho. Luto para me livrar do aperto, mas não é uma luta justa; ele é bem maior e muito mais forte do que eu. Coloco minha outra mão no seu peito e estico o braço, forçando uma distância entre nós. Ele belisca meu punho com os dentes. Eu dou uma joelhada no meio de suas pernas e ele cai com tudo no chão. Ajeito minha postura, aperto o botão de parada que brilhava no painel e o elevador começa a descer rapidamente. Piso na mão do agressor com meu salto alto e fico satisfeita com os gemidos de dor que ele continua a dar. O elevador chega ao térreo e, antes de sair, eu digo fria: — Udarach Marverich. Dona do império que pode destruir o seu. — Dou um passo para fora. — Aproveite enquanto ele ainda existe. Saio do elevador escuro e vou até o carro dos meus pais. Está bem claro o tipo de pessoas que vou encontrar na família Silverstone. Está na hora de inverter os papéis, já chega de ser uma boa menina






