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Capítulo 5 Então você tem escolha?

Lizzebeth

​Meu coração luta com força para se acalmar; olho para minha mão levemente úmida, ainda consigo sentir a sensação. Como ele pode ser tão rude a esse ponto? Achar que pode me tocar a qualquer momento? Isso só pode ser uma piada.

​Olho pela primeira vez o interior do apartamento, e minha primeira impressão é: vinho.

​Vejo a cozinheira na cozinha, ainda distraída; parece não ter me visto chegar. Me aproximo dela devagar e a cumprimento.

​— Você pode, por favor, me preparar algo? Não comi muito bem no desjejum.

​A cozinheira, que descubro ser Margareth, com gentileza concorda e começa a preparar.

Vou para meu quarto e me sento na cama, pensativa. Dentro do bolso do meu paletó, tiro o grampo que Paulo me deu há 7 anos; eu nunca o usei.

​Prometemos nos encontrar de novo, mas nunca consegui encontrá-lo, e não consegui ir contra as duras orientações dos meus pais de nunca ir até o orfanato, de nunca sequer mencionar aquele passado.

Talvez agora, longe dos olhos deles, eu possa forçar a velha Odete a me contar em que família ele está agora. Será que ela ainda está viva?

​Afasto os pensamentos; eu não devo ir contra minha família. Eu realmente deveria esquecer esse passado que ninguém mais quer lembrar. Enquanto seguro o grampo, a imagem de Hendrick me vem à mente. Aqueles olhos... eles pareciam me conhecer. Sua voz ainda ecoa na minha cabeça. Com certeza ele é um galanteador; aquele ronrono que ele chama de voz, aposto que levou anos de aperfeiçoamento.

​Vou até a penteadeira e coloco o grampo dentro da gaveta de joias, todas de rubi, o que faz o grampo se destacar ainda mais. Ao sair do quarto, o cheiro de ovos e leite me faz caminhar direto para a cozinha. É melhor encher a barriga e esvaziar a mente. Ainda não são 11h e já lidei com coisas demais.

​Após a refeição, decido conhecer a escola, só para descobrir que todo mundo só chega amanhã.

O castelo é bem rústico, parece até o orfanato com o quíntuplo do tamanho. Parece um filme em preto e branco. Ao menos o céu hoje está azul; traz um pouco de alívio ver uma cor vibrante nesse lugar. Apesar de parecer rústico à primeira vista, há luxo em tudo: o piso de mármore cinza, sem nenhuma ranhura; arandelas luxuosas em cada pilar. Era um lugar confortável, mas, ao mesmo tempo, sério e lúcido demais.

​Continuo andando até que me deparo com um salão oval. Um salão perfeito para um baile. Observo todos os lados, não parece haver ninguém; tiro minhas sandálias de salto alto e sinto meus pés tocarem o piso frio. As janelas estão abertas, e o vento agita meu cabelo enquanto vou para o meio do salão. Tiro a borboleta e a jogo a alguns metros de distância.

​Começo a cantarolar uma música proibida que só as crianças do orfanato conheciam; não ouso cantar a letra. Mas meu corpo conhece a melodia e começo a dançar. Na última noite antes da formatura e do despache dos órfãos às famílias, Paulo e eu corremos até o bosque que ficava atrás do orfanato. Lá, as irmãs Elizabetanas tocavam os instrumentos no ritmo da música; a melodia era animada, mas a letra era nossa realidade cruel.

Eu e Paulo dançamos a noite toda, a dança da libertação das nossas almas.

​Movo os braços como um pedido de socorro do último verso:

​Se eu for merecedora, Deus,

apague as minhas lembranças, desapareça com minhas marcas,

pois meu único erro

foi ter nascido do azar

e ter sido recusada

pela sorte.

​Termino minha dança com um movimento brusco e percebo lágrimas quentes descendo pelo meu rosto.

Meu corpo se lembrava da dança passo por passo, e minha mente guardou aquela letra na minha memória.

Um final feliz nunca acontece com quem começou em amargor. Filhos sem pais, mercadorias do vil.

​Calço minhas sandálias e vou embora correndo o máximo que consigo. Quando olhei para cima ao final da música, olhos azuis frios e sombrios olhavam atentamente para mim, e um sorriso medonho me foi lançado. Hendrick viu tudo.

Continuo correndo. Eu não deveria ter feito isso.

​Ao voltar para o apartamento, o silêncio pesa mais que o castelo inteiro.

Margareth está na sala, segurando uma pequena caixa de veludo azul-marinho.

​— Senhorita Lizzebeth... isso chegou junto com os documentos do casamento. Pediram para que fosse entregue apenas quando estivesse sozinha.

​Meu estômago se contrai. Abro a caixa com cuidado. Dentro, repousa um colar. Não é de rubi. É de safira.

Meu coração para por um segundo. No interior da caixa, há um cartão com uma gravação em letras douradas: "Um gesto da nossa aliança de impérios... Silverstone."

​O mundo gira lentamente. O cheiro de limão e sândalo invade minha memória como uma sentença. Aquele encontro no elevador não foi um acaso. Nunca foi. Ele sabia desde o início. Fecho a caixa com mãos trêmulas.

​— Então... — sussurro para ninguém — a última pessoa a saber dos planos da minha vida... novamente sou eu.

​Hendrick parecia saber mais a meu respeito do que eu sabia dele, e isso me incomodava.

​— Ouvi dizer que o herdeiro da família Silverstone é ruivo — diz Margareth, parecendo animada.

— Uma característica bem marcante, não é, Lizze? — Margareth brinca, ajeitando seu próprio cabelo ruivo abaixo do gorro, e depois ri.

​— É verdade, Margareth! São dois filhos! — Digo sorrindo, observando o cabelo dela saindo do gorro.

​Não faria sentido o filho mais novo fazer uma aliança com minha família; isso vai contra a hierarquia.

Suspiro aliviada e me distancio de Margareth. Me dirijo para o quarto segurando a caixa azul na mão, junto com o envelope. Leio o contrato minucioso. Meus pais nunca aceitariam isso.

​Após o casamento, eu me mudaria para a mansão Silverstone, minha cor passaria a ser azul, as empresas Marverich passariam a ser 40% deles e as empresas Silverstone, 30% nossas. Olho com desdém para a caixa; como são arrogantes, não se faz exigências quando seu nível está abaixo do lugar em que você quer entrar.

Escaneio o contrato e o mando para meus pais.

​Gisele, minha aia, chega com meu vestido para a noite de hoje. Vejo de relance enquanto ela entra no closet: vinho. Antes que eu me levantasse da cama para analisar o vestido mais de perto, meu aparelho toca na minha mão. Atendo o telefone.

​— Filha, não se preocupe, já mandamos nosso próprio contrato para o noivo e ele aceitou sem ressalvas — minha mãe fala com a voz tranquila.

​— Mas e essa caixa azul e o contrato?

​— Devem ter esquecido de cancelar, visto que nos antecipamos com o contrato e eles já assinaram; deve ser só um presente de boa-fé.

​— Ma... mamãe — gaguejo — eu posso ver o contrato?

​— Lizze, não tem com o que se preocupar, eu estou cuidando de tudo para você!

​— Mas eu queria ler pelo menos um pouco...

​— Concentre-se nos seus estudos por enquanto, Lizzebeth. Tudo ao seu tempo, a mamãe cuida de tudo.

​— É claro, mamãe — minha voz afina. Ela desliga. E eu afundo na cama.

​O que está escrito no contrato para que ele seja tão secreto? O dia se arrasta enquanto penso em tudo o que aconteceu. Pelo menos não será Hendrick que vou ter que encarar hoje à noite.

​Após todos os preparativos feitos, e com todo o melhor que Gisele deu para equilibrar toda a extensão do meu cabelo em um coque, estou pronta.

Ela borrifa o perfume na minha pele e cabelos. Vou até o closet e finalmente consigo dar uma boa olhada no vestido. Sorrio ao perceber todo o empenho da mamãe; isso não é só um vestido.

​Visto o vestido, que se modela a minha respiração. Ele é um vinho profundo, sombrio. O corpo do vestido é justo e inteiriço, com um tecido bordado que captura a luz em reflexos discretos, mas intensos. Sobre o busto, rendas delicadas surgiam como galhos de flores noturnas, subindo pelos ombros e formando mangas transparentes apenas com o desenho do galho vinho, onde a pele aparecia apenas de relance.

​A saia era justa até o pé; Gisele veio depois com uma cauda e a prendeu no vestido. Ela se abria a partir da cintura em dois painéis largos e pesados, caindo até o chão. O tecido, encorpado e acetinado, criava dobras profundas que se moviam com lentidão majestosa.

Cada passo fazia o vestido mudar, alternando entre o brilho contido do bordado central e a opulência silenciosa do tecido liso que o envolvia.

Não era apenas um traje de gala: era uma declaração. Havia nele algo de solenidade e poder.

​Sorrio ao pensar que aquele vestido parecia transparecer tudo aquilo que fui ensinada a ser.

Coloco brincos, pulseira e o colar, todos de rubi. Descartadas todas as possibilidades de usar qualquer elemento que fosse azul, o colar de safiras foi parar no fundo da gaveta.

No meu coque, escolho usar meu grampo de gardênia pela primeira vez. Ele quebra totalmente o traje monocromático. Sorrio ao pensar que era a primeira vez que escolhi usar algo que não foi preparado pela minha mãe.

Olho no espelho e falo:

​— Isso caiu bem.

​Me encaminho até o elevador, depois de receber o aviso de que o carro dos meus pais já havia chegado ao estacionamento.

Acho estranho as luzes do elevador estarem apagadas; mesmo assim entro ao ver o visor dele brilhando. Antes de as portas fecharem, sinto um vulto passar por mim. O elevador continua parado; vejo que o botão de parada foi acionado.

​O cheiro agressivo de cedro e hortelã me desnorteia por alguns segundos. Uma mão suave passa pelo meu rosto, o que me faz encolher. Ao perceber que me encolho, a mão segura meu queixo com força.

​— Udarach Marverich — diz uma voz grossa e firme. Sinto sua respiração da ponta do meu nariz até os meus lábios molhados pelo batom carmesim.

​— O que você quer? — digo fria, depois de ter me recuperado da surpresa.

​— Ora, não se assuste — diz com os lábios no meu ouvido.

​Eu o empurro com força e ele se desequilibra.

​— Eu só estou te dando as boas-vindas à família. — Ele me empurra contra a parede do elevador e puxa meu braço, me segurando pelo punho. Luto para me livrar do aperto, mas não é uma luta justa; ele é bem maior e muito mais forte do que eu.

Coloco minha outra mão no seu peito e estico o braço, forçando uma distância entre nós.

​Ele belisca meu punho com os dentes. Eu dou uma joelhada no meio de suas pernas e ele cai com tudo no chão.

Ajeito minha postura, aperto o botão de parada que brilhava no painel e o elevador começa a descer rapidamente.

Piso na mão do agressor com meu salto alto e fico satisfeita com os gemidos de dor que ele continua a dar.

​O elevador chega ao térreo e, antes de sair, eu digo fria:

​— Udarach Marverich. Dona do império que pode destruir o seu. — Dou um passo para fora.

— Aproveite enquanto ele ainda existe.

​Saio do elevador escuro e vou até o carro dos meus pais. Está bem claro o tipo de pessoas que vou encontrar na família Silverstone.

Está na hora de inverter os papéis, já chega de ser uma boa menina

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