Mundo de ficçãoIniciar sessãoDeon Mazzini
O perfil de Letícia chamou a minha atenção, porque o único que não tinha foto ou referência. Quem era ela, afinal? No mesmo dia comuniquei sobre a entrevista. O dia passou lento demais para o meu gosto. Não sei se era pelo trabalho acumulado ou pela urgência de conhecer a garota que tinha aguçado a minha curiosidade. Me enfiei no escritório das duas às sete e meia da noite. A cabeça doía como se tivesse levado uma pancada. É o preço pelo sucesso. Nada nessa vida é fácil. Tomei dois copos de whisky com gelo para refrescar. Nem o ar condicionado estava dando conta de refrescar. Quem terei de demitir por isso? Finalmente às oito e quinze abri a porta da sala e avisei Selene sobre a entrevista. Ela como sempre respondeu: 'Sim, senhor'. -Deixei-a esperando pelo menos meia hora. Quero ver se é paciente. Novamente, Selene respondeu: 'Sim, senhor'. Peguei o elevador e chegando ao primeiro andar veio Genevieve puxar o saco. -Senhor, precisa de algo? Posso acompanhá-lo até a saída? Quer uma companhia esta noite? Franzi o cenho. O que uma vaga*unda como essa fazia na minha empresa? Se quer trabalhar como acompanhante está no lugar errado. -Genevieve... -Sim! Inclinou o corpo para frente. A vista para aqueles dois melões era impossível de evitar. Apenas uma camada fina de tecido os segurava no lugar. -Se usar uma camisa tão transparente e tão decotada como essa amanhã ou em qualquer outro dia estará na rua. Esta é uma empresa séria e não um prostíbulo. Genevieve ficou envergonhada e boquiaberta. Aquela era mais uma de suas investidas frustradas. Não gosto de mulher fácil e oferecida. Peguei o carro e dirigi para casa. Precisava urgentemente de um banho e vestir roupas leves. Ao chegar, Dulce me recebeu. -Deon, parece cansado. Vamos, entre, entre. Ela praticamente me puxou para dentro. Não muda isso. -E o Dominic onde está? -Dormindo, senhor. -Amanhã preciso que o café seja servido mais cedo. -Tudo bem. -Amanhã uma moça virá aqui! Quero que a receba muito bem. -Não me diga que... -Do que está falando? A olhei com curiosidade. -Matrimônio. -Céus, Dulce! Não, uma babá para o meu filho. -Ah.. uma pena. Ela se decepcionou. -Dulce. A repreendi. -Fica muito tempo sozinho, vejo que está sofrendo. Dulce me criou desde o nascimento. Me conhecia melhor que ninguém. -Não estou pronto para qualquer tipo de relação. -Precisa esquecer aquela maldita! Cristina. A mulher que quase me desgraçou. Depois de me envolver com ela prometi não entregar o meu coração a mais ninguém. -Esquecida. O corpo dessa maldita está longe o suficiente daqui. Numa vala em Oxfildeville. Respondi friamente. Dulce detestava que falasse dos negócios paralelos. -Amanhã chegarei mais cedo para passear com o Dominic. Precisa estar pronto às cinco. Subi as escadas e fui para o quarto. Tirei a roupa e abri o chuveiro. Nada melhor como um banho refrescante. Meia hora depois, Dulce trouxe o jantar no quarto como havia pedido. Comi e joguei-me na cama. Sei que é péssimo para a indigestão e dá refluxo, mas estou morto. © Cheguei mais cedo na empresa e Genevieve vestia-se de maneira comportada... do jeito dela. Tampou tudo em cima, mas usava uma minissaia. Peguei o elevador e fui direto para minha sala. Hoje o ar estava funcionando. Não terei de mandar ninguém embora. Liguei o computador e logo a enxurrada de mensagens preencheu a tela. 'Ainda bem que vim mais cedo ou o passeio com o Dominic teria de ficar para outro dia.' Fiz duas chamadas de vídeo com fornecedores e três reuniões com os acionistas. Onze e meia da manhã concluí metade do trabalho que ficou acumulado. Ainda tinha algumas ligações a fazer. Só então lembrei de Genevieve. Pedi a Selene que a chamasse e não dissesse o motivo. Cinco minutos depois, Genevieve entrou toda serelepe e com olhar malicioso. -O que posso fazer por você? Por acaso pensou no que conversamos ontem? A tarada se aproximou da minha mesa. -Você pelo visto não pensou no que eu como seu chefe te disse. Disse em tom firme e de cara fechada. Detesto que debochem de mim. -Você disse que não era para usar camisa transparente. Essa não é. E eu gostaria muito de conversar sobre outras coisas... Genevieve respondeu sonsa. Cansei dessa pi*anha. -Foi a última vez que me faltou o respeito. Rua. Genevieve se ajoelhou e implorou por perdão. Disse que precisava do emprego e que a outra saia não secou e teve de usar essa. -Vá agora mesmo numa loja e compre outra saia, ou rua. A encarei. Genevieve engoliu em seco e saiu da sala às pressas. Balancei a cabeça e fiz as ligações que precisava. Retornei do almoço às uma e meia da tarde e segui para minha sala. Acabei encontrando um amigo da faculdade e jogamos conversa fora. O bom é que o restaurante ficava de frente para a empresa. O meu almoço atrasou porque algum incompetente queimou minha carne duas vezes. Respirei fundo para não fazer escândalo e pedi uma massa ao pesto. Sentei em minha cadeira e fechei os olhos. Algo bom tinha de acontecer no dia de hoje. Por que de repente parece que as pessoas ficaram tão distraídas e bobas? Daqui a uma hora conheceria Letícia Domingues a babá misteriosa. Tinha de ter algum motivo para não ter colocado a foto. E eu descobriria. Nada passa por mim, por tomei a liberdade de investigá-la. Meu detetive particular é fera! Letícia Domingues. Dezoito anos. Solteira. Sem filhos. Foi demitida a um dia por Carmem Monteiro. Motivo: ciúmes do marido. A última informação foi ridícula. E o pior é que conheço toda família Monteiro. O filho mais velho deles o Dylan é o chefe de segurança do meu hotel em Wellburry. Conheço Carmem e Lucas dos jantares beneficentes. Quero conhecê-la. Ver mesmo se era uma destruidora de lares ou bonita o bastante para ser vista como ameaça. © Respondi os últimos e-mails e não me dei conta que a porta estava aberta. Deduzi ser a moça do anúncio. Pedi que se aproximasse e perguntei o seu nome. Ela respondeu: Letícia Domingues. Assim que ergui os meus olhos e a vi. O tempo parou. De fato era lindíssima. A pele morena e brilhante, os cabelos cacheados perfeitos, o rosto inocente, os olhos de um tom azul esverdeado incrível. O nariz parecia ter sido esculpido pelo melhor artesão do mundo, aquela boca avermelhada e carnuda. Parecia uma deusa. Nenhum mulher se comparava à ela. Ela olhou para mim um pouco desconfiada. Será que notou algum comportamento estranho? Era impossível não olhar tamanha perfeição. Me levantei da cadeira e estendeu a mão. Assim que nossas mãos se tocaram, senti algo especial. Algo único. No exato momento que ela olhou para mim senti como se uma corrente elétrica passasse por todo o meu corpo. Nunca senti algo tão forte por uma mulher. Delicadamente ela soltou minha mãe e se sentou. Iniciamos a entrevista e Letícia falava de maneira clara e precisa cada pergunta. Letícia espantou-se quando perguntei se ela havia trabalhado para os Monteiro. Talvez eu não devesse ter arriscado e mencionado o nome da família. Perguntei o motivo da demissão e ela ficou pensativa por alguns minutos antes de afirmar não foi amigável. Andei até a parte da frente da mesa e sentei. Queria olhar para o seu rosto com mais clareza. A parabenizei pela sua descrição e lealdade. Letícia era uma mulher de príncipios. Afirmei conhecer Carmem e que entendia o motivo dela se sentir insegura. Letícia é uma bela mulher. Não sei se foi prudente da minha parte, mas era a verdade. Logo ela questionou o porquê de insistir sobre o motivo da demissão. Afirmei que queria ver se ela era uma pessoa honesta. Jamais colocaria alguém que não confiasse dentro da minha casa e muito menos cuidar do meu filho. Letícia disse que não gosta de falar mal de ninguém e afirmou que a vingança não leva a lugar nenhum. Refleti por alguns minutos o que ela disse. De fato aquela moça tem bons valores. Passei todos os detalhes sobre o trabalho que ela precisaria saber e que deveria ir à minha casa amanhã para assinar os documentos referentes a contratação. Nos despedimos e juro que resisti a vontade de agarrar aqueles quadris perfeitos.






