5 - Deon (Bônus)

Deon Mazzini

O perfil de Letícia chamou a minha atenção, porque o único que não tinha foto ou referência.

Quem era ela, afinal? No mesmo dia comuniquei sobre a entrevista.

O dia passou lento demais para o meu gosto. Não sei se era pelo trabalho acumulado ou pela urgência de conhecer a garota que tinha aguçado a minha curiosidade.

Me enfiei no escritório das duas às sete e meia da noite.

A cabeça doía como se tivesse levado uma pancada.

É o preço pelo sucesso. Nada nessa vida é fácil.

Tomei dois copos de whisky com gelo para refrescar.

Nem o ar condicionado estava dando conta de refrescar.

Quem terei de demitir por isso? Finalmente às oito e quinze abri a porta da sala e avisei Selene sobre a entrevista.

Ela como sempre respondeu: 'Sim, senhor'.

-Deixei-a esperando pelo menos meia hora. Quero ver se é paciente.

Novamente, Selene respondeu: 'Sim, senhor'.

Peguei o elevador e chegando ao primeiro andar veio Genevieve puxar o saco.

-Senhor, precisa de algo? Posso acompanhá-lo até a saída? Quer uma companhia esta noite?

Franzi o cenho. O que uma vaga*unda como essa fazia na minha empresa?

Se quer trabalhar como acompanhante está no lugar errado.

-Genevieve...

-Sim!

Inclinou o corpo para frente. A vista para aqueles dois melões era impossível de evitar.

Apenas uma camada fina de tecido os segurava no lugar.

-Se usar uma camisa tão transparente e tão decotada como essa amanhã ou em qualquer outro dia estará na rua. Esta é uma empresa séria e não um prostíbulo.

Genevieve ficou envergonhada e boquiaberta.

Aquela era mais uma de suas investidas frustradas.

Não gosto de mulher fácil e oferecida. Peguei o carro e dirigi para casa.

Precisava urgentemente de um banho e vestir roupas leves.

Ao chegar, Dulce me recebeu.

-Deon, parece cansado. Vamos, entre, entre.

Ela praticamente me puxou para dentro. Não muda isso.

-E o Dominic onde está?

-Dormindo, senhor.

-Amanhã preciso que o café seja servido mais cedo.

-Tudo bem.

-Amanhã uma moça virá aqui! Quero que a receba muito bem.

-Não me diga que...

-Do que está falando?

A olhei com curiosidade.

-Matrimônio.

-Céus, Dulce! Não, uma babá para o meu filho.

-Ah.. uma pena.

Ela se decepcionou.

-Dulce.

A repreendi.

-Fica muito tempo sozinho, vejo que está sofrendo.

Dulce me criou desde o nascimento. Me conhecia melhor que ninguém.

-Não estou pronto para qualquer tipo de relação.

-Precisa esquecer aquela maldita!

Cristina. A mulher que quase me desgraçou.

Depois de me envolver com ela prometi não entregar o meu coração a mais ninguém.

-Esquecida. O corpo dessa maldita está longe o suficiente daqui. Numa vala em Oxfildeville.

Respondi friamente. Dulce detestava que falasse dos negócios paralelos.

-Amanhã chegarei mais cedo para passear com o Dominic. Precisa estar pronto às cinco.

Subi as escadas e fui para o quarto. Tirei a roupa e abri o chuveiro.

Nada melhor como um banho refrescante.

Meia hora depois, Dulce trouxe o jantar no quarto como havia pedido.

Comi e joguei-me na cama. Sei que é péssimo para a indigestão e dá refluxo, mas estou morto.

©

Cheguei mais cedo na empresa e Genevieve vestia-se de maneira comportada... do jeito dela.

Tampou tudo em cima, mas usava uma minissaia.

Peguei o elevador e fui direto para minha sala.

Hoje o ar estava funcionando. Não terei de mandar ninguém embora.

Liguei o computador e logo a enxurrada de mensagens preencheu a tela.

'Ainda bem que vim mais cedo ou o passeio com o Dominic teria de ficar para outro dia.'

Fiz duas chamadas de vídeo com fornecedores e três reuniões com os acionistas.

Onze e meia da manhã concluí metade do trabalho que ficou acumulado.

Ainda tinha algumas ligações a fazer. Só então lembrei de Genevieve.

Pedi a Selene que a chamasse e não dissesse o motivo.

Cinco minutos depois, Genevieve entrou toda serelepe e com olhar malicioso.

-O que posso fazer por você? Por acaso pensou no que conversamos ontem?

A tarada se aproximou da minha mesa.

-Você pelo visto não pensou no que eu como seu chefe te disse.

Disse em tom firme e de cara fechada.

Detesto que debochem de mim.

-Você disse que não era para usar camisa transparente. Essa não é. E eu gostaria muito de conversar sobre outras coisas...

Genevieve respondeu sonsa. Cansei dessa pi*anha.

-Foi a última vez que me faltou o respeito. Rua.

Genevieve se ajoelhou e implorou por perdão.

Disse que precisava do emprego e que a outra saia não secou e teve de usar essa.

-Vá agora mesmo numa loja e compre outra saia, ou rua.

A encarei. Genevieve engoliu em seco e saiu da sala às pressas.

Balancei a cabeça e fiz as ligações que precisava.

Retornei do almoço às uma e meia da tarde e segui para minha sala.

Acabei encontrando um amigo da faculdade e jogamos conversa fora.

O bom é que o restaurante ficava de frente para a empresa.

O meu almoço atrasou porque algum incompetente queimou minha carne duas vezes.

Respirei fundo para não fazer escândalo e pedi uma massa ao pesto.

Sentei em minha cadeira e fechei os olhos.

Algo bom tinha de acontecer no dia de hoje.

Por que de repente parece que as pessoas ficaram tão distraídas e bobas?

Daqui a uma hora conheceria Letícia Domingues a babá misteriosa.

Tinha de ter algum motivo para não ter colocado a foto.

E eu descobriria. Nada passa por mim, por tomei a liberdade de investigá-la. Meu detetive particular é fera!

Letícia Domingues. Dezoito anos. Solteira. Sem filhos.

Foi demitida a um dia por Carmem Monteiro. Motivo: ciúmes do marido.

A última informação foi ridícula. E o pior é que conheço toda família Monteiro.

O filho mais velho deles o Dylan é o chefe de segurança do meu hotel em Wellburry.

Conheço Carmem e Lucas dos jantares beneficentes.

Quero conhecê-la. Ver mesmo se era uma destruidora de lares ou bonita o bastante para ser vista como ameaça.

©

Respondi os últimos e-mails e não me dei conta que a porta estava aberta.

Deduzi ser a moça do anúncio. Pedi que se aproximasse e perguntei o seu nome.

Ela respondeu: Letícia Domingues.

Assim que ergui os meus olhos e a vi. O tempo parou.

De fato era lindíssima. A pele morena e brilhante, os cabelos cacheados perfeitos, o rosto inocente, os olhos de um tom azul esverdeado incrível.

O nariz parecia ter sido esculpido pelo melhor artesão do mundo, aquela boca avermelhada e carnuda.

Parecia uma deusa. Nenhum mulher se comparava à ela.

Ela olhou para mim um pouco desconfiada. Será que notou algum comportamento estranho?

Era impossível não olhar tamanha perfeição.

Me levantei da cadeira e estendeu a mão. Assim que nossas mãos se tocaram, senti algo especial.

Algo único.

No exato momento que ela olhou para mim senti como se uma corrente elétrica passasse por todo o meu corpo.

Nunca senti algo tão forte por uma mulher.

Delicadamente ela soltou minha mãe e se sentou.

Iniciamos a entrevista e Letícia falava de maneira clara e precisa cada pergunta.

Letícia espantou-se quando perguntei se ela havia trabalhado para os Monteiro.

Talvez eu não devesse ter arriscado e mencionado o nome da família.

Perguntei o motivo da demissão e ela ficou pensativa por alguns minutos antes de afirmar não foi amigável.

Andei até a parte da frente da mesa e sentei.

Queria olhar para o seu rosto com mais clareza.

A parabenizei pela sua descrição e lealdade.

Letícia era uma mulher de príncipios.

Afirmei conhecer Carmem e que entendia o motivo dela se sentir insegura.

Letícia é uma bela mulher. Não sei se foi prudente da minha parte, mas era a verdade.

Logo ela questionou o porquê de insistir sobre o motivo da demissão.

Afirmei que queria ver se ela era uma pessoa honesta.

Jamais colocaria alguém que não confiasse dentro da minha casa e muito menos cuidar do meu filho.

Letícia disse que não gosta de falar mal de ninguém e afirmou que a vingança não leva a lugar nenhum.

Refleti por alguns minutos o que ela disse.

De fato aquela moça tem bons valores.

Passei todos os detalhes sobre o trabalho que ela precisaria saber e que deveria ir à minha casa amanhã para assinar os documentos referentes a contratação.

Nos despedimos e juro que resisti a vontade de agarrar aqueles quadris perfeitos.

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