Mundo de ficçãoIniciar sessãoLetícia Domingues
Muitas informações ao mesmo tempo. Senti a cabeça pegar fogo. -Que bom que gostou da lasanha. Mamãe comemorou. Vê-la feliz me tranquiliza. -Comi duas vezes. Acariciei minha barriga. -Vai descansar. Deixa que termino de guardar as coisas por aqui. -Filha, você está cansada. Amanhã tem que acordar cedo e... Não aguentei. Contei a verdade pra ela. Minha mãe ficou chateada com a Carmem, quis até ligar para dizer umas poucas e boas para ela. Disse para deixar essa história pra lá. Senão daria motivos pra louca pensar que eu de fato era a errada. Se tem algo que aprendi e agora carrego como lema pessoal é: Quem está certo não se justifica. Para animá-la contei sobre a entrevista no escritório de Deon Mazzini. Minha mãe disse que ele é um empresário do ramo da hotelaria e tinha negócios pelo mundo todo. No fim das contas, ajudei minha a retirar a mesa, guardar a comida na geladeira e lavar a louça. Nem vimos a hora passar. Subimos as escadas juntas, e fomos ao quarto do Cézar que dormia tranquilamente. Minha mãe o observava com carinho. Cézar é a cara do Douglas. Quase não parecia com a minha mãe. Me dei conta do quão diabólico Carlos podia ser. Quando não tivemos notícias dele nos últimos meses fiquei aliviada. Pensei que tinha sido transferido ou até morrido. Qualquer coisa seria melhor que ele voltar a infernizar a nossas vidas. Minha mãe e eu saímos do quarto do Cézar e demos de cara com Douglas. -Let, como foi o seu dia? Desculpe não ter falado com você mais cedo. Parecia bem mais calmo. -Não muito bom. Fui dispensada pela dona Carmem, mas amanhã tenho uma entrevista. Preferi contar a verdade. Uma hora ou outra ele descobriria. -Sinto muito. Ela quem está perdendo. Desejo que tudo ocorra bem, posso te deixar lá se quiser. Amanhã o carro sai da oficina. Acariciou a minha cabeça. Como disse, o Douglas é um homem incrível. Não perguntou o motivo. E ainda me ofereceu ajuda. -Aceito a carona, obrigada. Vou me recolher, amo vocês. Dei um beijo na bochecha de cada um antes de virar o corredor para o meu quarto. © O dia passou rápido e logo Douglas e me levou para a entrevista. O prédio era enorme. E detalhe: o prédio todo era de Deon. O cara é podre de rico. Não é querendo ser gananciosa, mas era óbvio que o meu salário seria bem maior do que os Monteiro pagavam. Achei estranho a entrevista ser aqui. Trabalho como babá e aqui não tem criança alguma. Talvez ele quisesse discutir algo sobre a função ou dar outro cargo. Podia ser. No momento só não posso ficar desempregada. Douglas ganha muito bem e minha trabalha com ornamentação em festas. Vivemos confortavelmente. Gosto de ter o meu dinheiro para ajudar em casa e comprar minhas coisas. Me negaria a ficar sem trabalho e causar despesas. Na frente do prédio, Douglas despediu-se de mim com um abraço e pediu que assim que terminasse a entrevista ligasse para ele. Respirei fundo e entrei no prédio. Fui a recepção e uma mulher loira, alta e de roupas elegante me olhou de cima a baixo. -Boa tarde. -Boa tarde o que deseja? Apesar de me olhar de maneira estranha, a mulher foi simpática. Vai entender. -Tenho uma reunião com o Sr. Mazzini. -Um momento por favor. A mulher começou a digitar no computador e fez uma ligação. -Pegue o elevador até o último andar e aguarde ser chamada. Boa sorte. Agradeci e entrei no elevador. Olhei no espelho e não tinha nada de errado com as minhas roupas. Vesti uma calça preta de alfaiataria e uma camisa branca lisa, usava uma bolsa pequena de couro preto e um par de sapatilhas vermelhas. Meu cabelo estava solto e bem penteado. Os cachos bem definidos e organizados. Será o velho preconceito com a garota cacheada? Ou ficou chocada com a minha beleza? Prendi o riso ao lembrar que tem câmera dentro do elevador. Não daria mole. Assim que as portas se abriram virei o corredor e avistei uma sala. Bati na porta e sem abrir uma moça disse para esperar no corredor. Sentei numa das cadeiras. Não tinha mais ninguém e ainda sim pediam para esperar ser chamada? 'Calma Letícia. É a ansiedade falando alto' Respirei fundo e peguei um copo d'água. Hoje não estava tão quente, mas a sede era de matar. 'Maldita ansiedade' Meia hora havia se passado e nada. Será que esqueceram de mim? Ia ser o fim da picada. Respirei fundo e me acalmei, essas coisas são assim mesmo. Será que era um teste? Para ver se ia me desesperar ou entrar na sala da secretária sem ser chamada? Resolvi esperar até que me chamassem. Não importava quanto tempo levasse. -Senhorita Letícia, por favor me acompanhe. A secretária apareceu no corredor. Segui sem questionar. Paramos em frente a uma porta enorme, a secretária pediu que eu abrisse e entrasse direto. Virou as costas e sumiu no enorme corredor. Respirei fundo e girei a maçaneta. Entrei em seguida e fiquei admirada. A sala era gigantesca. Linda e muito bem decorada. A mesa estava um homem que devia ter no máximo uns vinte e oito ou vinte e nove anos concentrado no computador a sua frente. Acho que ele não notou a minha presença. Como alguém podia ser tão distraído? -Se aproxime da mesa... an... como é o seu nome mesmo? Aproximei a passos lentos ficando de frente a mesa, mantendo uma respeitosa distância. -Letícia Domingues. Respondi com timidez. -É um prazer, conhecê-la. Sou Deon. O homem levantou-se da cadeira e estendeu a mão. Segurei brevemente e os nossos olhares se cruzaram. Por alguns segundos. De fato era um homem bonito e com certeza muito sério. -Sente-se vamos começar a entrevista. Obedecei e sentei colocando a bolsa no colo. -Sua idade? Ele perguntou olhando para mim. -Tenho dezoito anos. -A quanto tempo trabalha como babá? -A três anos. -Trabalhou para os Monteiro, correto? Arregalei os olhos preocupada. Como ele sabia? Não tinha colocado as referências do meu último no anúncio.






