Mundo ficciónIniciar sesiónLetícia Domingues
Aquilo me pegou de surpresa. Como ele sabia? Fiquei preocupada de não conseguir o trabalho. -Senhor.. O que ia dizer? Não esperava por isso. Respirei fundo e respondi: -Trabalhei como babá dos dois filhos deles. -O que aconteceu com o antigo trabalho? Ele perguntou. Não sei se estava me testando ou se tinha curiosidade sobre o assunto. -Fui dispensada. -Quando? -Ontem. Deon ficou de pé. Andou de um lado para o outro. Como se pensasse na próxima pergunta. Ele sabia mesmo o que estava fazendo? Segurei o riso. Aquele não era o momento ideal. -Sabe o motivo? Me ajeitei na poltrona. Não queria falar. Doeu muito ser caluniada daquela forma. E se falasse Deon poderia pensar que estava com raiva ou rancor dos Monteiro. -Sei... -Pode dizer? Qual o problema dele? Não podia simplesmente pular para a próxima pergunta. -Digamos apenas que não foi uma demissão amigável. Respondi curta. Mais que aquilo seria invasão de privacidade. Deon sorriu. Andou até a parte da frente da mesa e sentou-se. No lugar dele sentaria na poltrona. Muito mais confortável. -Carmem é muito ciumenta e você é uma bela mulher... entendo o lado dela. O comentário dele me fez corar. -Se sabe o motivo porquê perguntou? -Queria saber se era honesta. Preciso contratar alguém de confiança e você.... Senti o coração acelerar. O encarei. -Você demonstrou ser de confiança ao não me contar o motivo. Muito bem, Senhorita Domingues. Suspirei aliviada. Foi um teste e passei com louvor. -Não gosto de falar mal de ninguém. -Mesmo que mereça? -Sim. A vingança não leva a lugar nenhum, senhor. Deon ficou pensativo por alguns segundos. -Cuidará do meu filho. Segunda a Sábado. Das nove às cinco e meia da tarde. Salário inicial de 2.850,00. Era bem mais do que imaginava receber. -Vale transporte e pode se alimentar no local se quiser. A cozinha fica disponível a todos os funcionários que trabalham o período integral. Se preferir trazer sua comida coloque uma etiqueta com o seu nome. Ouvia tudo atentamente. -Passo mais tempo no trabalho do que em casa, por isso a Dulce, a chefe das empregadas irá recebê-la e tirar quaisquer dúvidas sobre o trabalho. Deon era bem detalhista em tudo que dizia. Acredito que não terei dificuldades para me adaptar. -Qual a idade do seu filho? Ele ficou algum tempo pensativo. Foi estranho. Como o pai não sabe a idade do filho? -Ele tem seis anos. Amanhã é o seu primeiro dia, peço que chegue um pouco antes para assinar os papéis da sua contratação. -Está bem. -Até amanhã, Senhorita Domingues. Cumprimentou gentil. -Até amanhã, Senhor Mazzini. Respondi educada antes de sair da sala. Passei pelo corredor e peguei o elevador. Peguei o celular e liguei para o Douglas vir me buscar. © Já em casa contei a minha mãe sobre a entrevista. -Minha menina educada. Ela acariciou o meu rosto. -A senhora que me ensinou. -Agiu bem. Já ouviu falar que todo mundo se conhece? -Sim. Não acho certo difamar alguém, mesmo que tenha errado comigo. -Vou fazer um bolo para comemorarmos. Suba e tome um banho para se refrescar. -Está bem. Assim que subi as escadas escutei um choro vindo do quarto do Cézar. Abri a porta e vi o Douglas chorando em frente ao berço. Cézar dormia profundamente como um anjinho. -Douglas, o que houve? Me aproximei dele. De fato ele estava estranho. No trajeto para cá só me parabenizou pela vaga de emprego e ficou calado o resto do caminho. -Let, estou passando por um momento ruim. Só isso. Douglas estava sentado no chão em frente ao berço. -Sei como é. São coisas diferentes, mas não deixam de ser ruins. -Esse menino é a minha cara, Letícia. Mesmo assim fiz o teste. Ele abaixou a cabeça envergonhado. -Entendo que as palavras daquele homem tenha te estressado e feito desconfiar de algo, o que importa é que agora sabe. É por isso que está chorando? Perguntei compreensiva. Douglas lutou por nós. Derramou sangue, suor e muitas lágrimas para nos tirar da miséria. -Trai a confiança da sua mãe. Disse que não ia fazer o teste e fiz. -Não tem o que fazer. Agora já foi. Ela sabe? -Chegou pelo correio hoje de manhã. Ela está brava comigo. -Agora já foi. Não tem como voltar atrás. O importante nesse momento é vocês permanecerem unidos e inabaláveis. Douglas, você nos ensinou o que é o amor. O amor que cura, que cuida, que faz de tudo para não faltar nada. É um homem incrível. Ele chorou ainda mais com as minhas palavras. Só estava cansado e frustrado. -Na minha primeira folga gostaria que vocês dois saíssem para se divertir. Ir ao cinema, jantar fora... eu cuido do Cézar. Vocês precisam reacender essas chama. Levantamos do chão e fomos para o corredor. -Tem certeza que não vai preferir sair com as suas amigas? Sei que a proibi e tudo, mas era por causa das ameaças do Carlos. Não dá para viver com o medo, por isso se você quiser pode sair com elas. Só avisar quando chegar e a hora que vai embora. É uma menina responsável e de confiança. Pode me perdoar? Enquanto Carlos vivia livremente nos aterrorizando, éramos os mais prejudicados. Estava na hora de colocar um basta naquilo tudo. -Claro que te perdoo. É um bom amigo, um bom pai para mim e para o Cézar. -Letícia, você me chamou de pai? Ele disse com a voz em embargada. -Sim, você é o meu pai. Estava destinado a ser. -Nada me faria mais feliz. Minha filha. Ele me abraçou e agora quem chorou fui eu. A muito tempo queria chamá-lo assim, mas fiquei preocupada dele não gostar. -Eu te amo muito, muito mesmo. E vou amar para sempre. -Eu também, pai! Às vezes tudo que precisamos é de um pouco de compreensão e amor. Assim que Douglas se recompôs, desceu as escadas e fui para o meu quarto ainda emocionada tomar um longo e merecido banho. Enquanto enchia a banheira lembrei de Deon. Aquele homem exalava poder e sedução. Pude jurar que o elogio não foi inocente.






