4 - Entrevista - Parte 2

Letícia Domingues

Aquilo me pegou de surpresa. Como ele sabia?

Fiquei preocupada de não conseguir o trabalho.

-Senhor..

O que ia dizer? Não esperava por isso. Respirei fundo e respondi:

-Trabalhei como babá dos dois filhos deles.

-O que aconteceu com o antigo trabalho?

Ele perguntou. Não sei se estava me testando ou se tinha curiosidade sobre o assunto.

-Fui dispensada.

-Quando?

-Ontem.

Deon ficou de pé. Andou de um lado para o outro.

Como se pensasse na próxima pergunta. Ele sabia mesmo o que estava fazendo?

Segurei o riso. Aquele não era o momento ideal.

-Sabe o motivo?

Me ajeitei na poltrona. Não queria falar. Doeu muito ser caluniada daquela forma.

E se falasse Deon poderia pensar que estava com raiva ou rancor dos Monteiro.

-Sei...

-Pode dizer?

Qual o problema dele? Não podia simplesmente pular para a próxima pergunta.

-Digamos apenas que não foi uma demissão amigável.

Respondi curta. Mais que aquilo seria invasão de privacidade.

Deon sorriu. Andou até a parte da frente da mesa e sentou-se.

No lugar dele sentaria na poltrona. Muito mais confortável.

-Carmem é muito ciumenta e você é uma bela mulher... entendo o lado dela.

O comentário dele me fez corar.

-Se sabe o motivo porquê perguntou?

-Queria saber se era honesta. Preciso contratar alguém de confiança e você....

Senti o coração acelerar. O encarei.

-Você demonstrou ser de confiança ao não me contar o motivo. Muito bem, Senhorita Domingues.

Suspirei aliviada. Foi um teste e passei com louvor.

-Não gosto de falar mal de ninguém.

-Mesmo que mereça?

-Sim. A vingança não leva a lugar nenhum, senhor.

Deon ficou pensativo por alguns segundos.

-Cuidará do meu filho. Segunda a Sábado. Das nove às cinco e meia da tarde. Salário inicial de 2.850,00.

Era bem mais do que imaginava receber.

-Vale transporte e pode se alimentar no local se quiser. A cozinha fica disponível a todos os funcionários que trabalham o período integral.

Se preferir trazer sua comida coloque uma etiqueta com o seu nome.

Ouvia tudo atentamente.

-Passo mais tempo no trabalho do que em casa, por isso a Dulce, a chefe das empregadas irá recebê-la e tirar quaisquer dúvidas sobre o trabalho.

Deon era bem detalhista em tudo que dizia. Acredito que não terei dificuldades para me adaptar.

-Qual a idade do seu filho?

Ele ficou algum tempo pensativo. Foi estranho.

Como o pai não sabe a idade do filho?

-Ele tem seis anos. Amanhã é o seu primeiro dia, peço que chegue um pouco antes para assinar os papéis da sua contratação.

-Está bem.

-Até amanhã, Senhorita Domingues.

Cumprimentou gentil.

-Até amanhã, Senhor Mazzini.

Respondi educada antes de sair da sala. Passei pelo corredor e peguei o elevador.

Peguei o celular e liguei para o Douglas vir me buscar.

©

Já em casa contei a minha mãe sobre a entrevista.

-Minha menina educada.

Ela acariciou o meu rosto.

-A senhora que me ensinou.

-Agiu bem. Já ouviu falar que todo mundo se conhece?

-Sim. Não acho certo difamar alguém, mesmo que tenha errado comigo.

-Vou fazer um bolo para comemorarmos. Suba e tome um banho para se refrescar.

-Está bem.

Assim que subi as escadas escutei um choro vindo do quarto do Cézar.

Abri a porta e vi o Douglas chorando em frente ao berço.

Cézar dormia profundamente como um anjinho.

-Douglas, o que houve?

Me aproximei dele. De fato ele estava estranho.

No trajeto para cá só me parabenizou pela vaga de emprego e ficou calado o resto do caminho.

-Let, estou passando por um momento ruim. Só isso.

Douglas estava sentado no chão em frente ao berço.

-Sei como é. São coisas diferentes, mas não deixam de ser ruins.

-Esse menino é a minha cara, Letícia. Mesmo assim fiz o teste.

Ele abaixou a cabeça envergonhado.

-Entendo que as palavras daquele homem tenha te estressado e feito desconfiar de algo, o que importa é que agora sabe. É por isso que está chorando?

Perguntei compreensiva. Douglas lutou por nós.

Derramou sangue, suor e muitas lágrimas para nos tirar da miséria.

-Trai a confiança da sua mãe. Disse que não ia fazer o teste e fiz.

-Não tem o que fazer. Agora já foi. Ela sabe?

-Chegou pelo correio hoje de manhã. Ela está brava comigo.

-Agora já foi. Não tem como voltar atrás. O importante nesse momento é vocês permanecerem unidos e inabaláveis. Douglas, você nos ensinou o que é o amor. O amor que cura, que cuida, que faz de tudo para não faltar nada. É um homem incrível.

Ele chorou ainda mais com as minhas palavras.

Só estava cansado e frustrado.

-Na minha primeira folga gostaria que vocês dois saíssem para se divertir. Ir ao cinema, jantar fora... eu cuido do Cézar. Vocês precisam reacender essas chama.

Levantamos do chão e fomos para o corredor.

-Tem certeza que não vai preferir sair com as suas amigas? Sei que a proibi e tudo, mas era por causa das ameaças do Carlos. Não dá para viver com o medo, por isso se você quiser pode sair com elas. Só avisar quando chegar e a hora que vai embora. É uma menina responsável e de confiança. Pode me perdoar?

Enquanto Carlos vivia livremente nos aterrorizando, éramos os mais prejudicados.

Estava na hora de colocar um basta naquilo tudo.

-Claro que te perdoo. É um bom amigo, um bom pai para mim e para o Cézar.

-Letícia, você me chamou de pai?

Ele disse com a voz em embargada.

-Sim, você é o meu pai. Estava destinado a ser.

-Nada me faria mais feliz. Minha filha.

Ele me abraçou e agora quem chorou fui eu.

A muito tempo queria chamá-lo assim, mas fiquei preocupada dele não gostar.

-Eu te amo muito, muito mesmo. E vou amar para sempre.

-Eu também, pai!

Às vezes tudo que precisamos é de um pouco de compreensão e amor.

Assim que Douglas se recompôs, desceu as escadas e fui para o meu quarto ainda emocionada tomar um longo e merecido banho.

Enquanto enchia a banheira lembrei de Deon.

Aquele homem exalava poder e sedução. Pude jurar que o elogio não foi inocente.

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