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Um jantar inesperado

Tayná descobriu que trabalhar para Isac Grier era muito mais difícil do que imaginara.

Não porque ele fosse injusto.

Pelo contrário.

Isac era extremamente profissional.

Exigente, sim.

Frio, quase sempre.

Mas nunca levantava a voz sem motivo, nunca a tratava com desrespeito e, até aquele momento, havia mantido exatamente a distância que ele mesmo estabelecera.

E Tayná agradecia por isso.

Ela ainda estava tentando reconstruir a própria vida.

Não precisava de distrações.

Muito menos de sentimentos.

Naquela manhã, chegou à empresa alguns minutos antes das oito.

Colocou a bolsa sobre a mesa, ligou o computador e começou a revisar a agenda de Isac.

Havia uma reunião às nove.

Uma videoconferência às onze.

Um almoço com investidores às duas.

E, no final do dia, uma reunião com o conselho da empresa.

Tayná respirou fundo.

— Dia tranquilo — murmurou.

— Espero que sim.

Ela se assustou.

Isac estava parado atrás dela.

— Bom dia.

— Bom dia.

Ele colocou uma pasta sobre sua mesa.

— Preciso que esses documentos estejam organizados antes das nove.

Tayná abriu a pasta.

— São muitos.

— Eu sei.

Ela olhou para ele.

— Então por que está me entregando agora?

Isac ficou em silêncio por um instante.

— Porque confio que você consegue.

Tayná não esperava aquela resposta.

— Certo.

Ele se afastou.

Ela voltou aos documentos.

Mas um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

Era estranho.

Em poucos dias, começava a perceber que havia mais em Isac do que a imagem fria que todos conheciam.

Ele não era gentil de maneira óbvia.

Era discreto.

Demonstrava consideração em pequenas coisas.

E talvez fosse exatamente isso que tornasse difícil ignorá-lo.

Pouco antes das nove, Tayná entrou na sala de Isac.

— Os documentos estão prontos.

Ele levantou os olhos do computador.

— Já?

— Você pediu antes das nove.

Isac olhou para o relógio.

— Faltam oito minutos.

— Então estou adiantada.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.

Foi tão rápido que Tayná quase acreditou ter imaginado.

— Deixe aqui.

Ela colocou os documentos sobre a mesa.

Quando se virou para sair, Isac chamou:

— Tayná.

Ela olhou para trás.

— Sim?

— Você tomou café?

Ela piscou.

— Sim.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Ótimo.

Ela ficou alguns segundos parada.

— Era só isso?

— Sim.

Tayná saiu.

Quando fechou a porta, ficou olhando para ela.

Por que ele havia perguntado aquilo?

Do outro lado, Isac também se perguntava a mesma coisa.

Ele não costumava se preocupar se os funcionários haviam tomado café.

Muito menos perguntar.

Voltou ao computador.

Tentou esquecer.

Perto do meio-dia, Tayná recebeu uma mensagem de Isabella.

"Como está o trabalho?"

Ela respondeu:

"Cansativo."

A resposta veio imediatamente.

"E o chefe?"

Tayná sorriu.

"Continua sendo meu chefe."

"Não foi isso que perguntei."

Tayná revirou os olhos.

"Isabella..."

"Ele é bonito?"

Ela ficou alguns segundos olhando para a tela.

Então respondeu:

"Infelizmente."

Isabella enviou uma sequência de risadas.

Tayná tentou não rir.

— Algum problema?

Ela levantou os olhos.

Isac estava parado diante dela.

— Não.

Ele olhou para o celular.

— Parece engraçado.

— Minha amiga.

— Entendi.

Ele fez menção de sair.

— Tayná.

— Sim?

— Preciso que venha comigo hoje à noite.

Ela franziu a testa.

— Com você?

— Sim.

— Para onde?

— Jantar.

O coração dela deu uma pequena batida diferente.

— Um jantar de negócios?

— Sim.

Ela respirou aliviada.

— Certo.

— É um jantar com um dos nossos principais investidores. Minha antiga assistente costumava me acompanhar, mas ela está fora da cidade.

Tayná assentiu.

— Que horas?

— Sete e meia.

— Tudo bem.

Isac começou a andar.

Então parou.

— E use alguma coisa elegante.

Tayná olhou para ele.

— Eu sei me vestir.

— Eu não disse que não sabia.

— Parece que disse.

Isac a encarou.

Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.

Então ele disse:

— Sete e meia.

— Estarei pronta.

Ele saiu.

Tayná respirou fundo.

— Distância — murmurou.

Precisava se lembrar disso.

Às sete e vinte, Tayná estava diante do restaurante.

Havia escolhido um vestido preto simples, elegante, que valorizava sua silhueta sem exageros.

Os cabelos estavam soltos.

Os cachos caíam sobre os ombros.

Ela olhou para o reflexo na porta de vidro.

Por um instante, lembrou-se de seu casamento.

O vestido branco.

O buquê.

Daniel.

A lembrança veio como uma pancada.

Ela fechou os olhos.

Não.

Não permitiria que aquela memória estragasse sua noite.

— Você está linda.

Tayná abriu os olhos.

Isac estava atrás dela.

Ela se virou.

Ele usava um terno preto impecável.

Por um momento, nenhum dos dois falou.

Isac foi o primeiro a desviar o olhar.

— Vamos?

— Vamos.

Entraram.

O restaurante era sofisticado e silencioso.

O investidor já os esperava.

— Senhor Grier.

— Richard.

Os dois apertaram as mãos.

Então Richard olhou para Tayná.

— E esta é...?

— Tayná Avelar, minha secretária executiva.

— Prazer.

— Prazer.

Durante o jantar, Tayná permaneceu profissional.

Anotou informações.

Organizou alguns documentos.

Prestou atenção em cada detalhe da conversa.

Richard pareceu impressionado.

— Senhor Grier, sua nova secretária é muito competente.

Isac olhou para Tayná.

— Eu sei.

Ela sentiu o rosto esquentar.

— Obrigada.

A conversa continuou.

Até que Richard fez uma pergunta inesperada.

— Vocês estão trabalhando juntos há quanto tempo?

— Poucos dias — respondeu Tayná.

— Interessante.

Richard sorriu.

— Porque parecem se conhecer há muito mais tempo.

Tayná ficou sem resposta.

Isac apenas tomou um gole de água.

— Nós trabalhamos bem juntos.

A resposta foi seca.

Profissional.

Mas Tayná percebeu a tensão.

Depois do jantar, Richard se despediu.

— Foi um prazer conhecê-los.

Isac apertou sua mão.

— Igualmente.

Quando ficaram sozinhos, Tayná respirou aliviada.

— Achei que nunca terminaria.

Isac olhou para ela.

— Você se saiu bem.

— Obrigada.

— Muito bem.

Ela sorriu.

— Você está me elogiando novamente?

— Não se acostume.

Tayná riu.

Isac ficou observando.

Aquele sorriso.

O mesmo sorriso que vira durante a entrevista.

Por alguns segundos, esqueceu a regra da distância.

Esqueceu tudo.

Só havia Tayná diante dele.

E a sensação estranha de que aquela mulher conseguia trazer uma leveza que ele não sentia havia anos.

— Está frio — disse ele.

— Um pouco.

Isac tirou o próprio casaco.

Tayná arregalou os olhos.

— Não precisa.

— Vista.

— Mas você vai ficar com frio.

— Eu estou de terno.

Ela hesitou.

Então aceitou.

Quando colocou o casaco sobre os ombros, sentiu o perfume dele.

E, inexplicavelmente, seu coração acelerou.

Isac percebeu.

Não comentou.

Os dois caminharam até o carro.

No caminho, Tayná tropeçou discretamente em uma irregularidade da calçada.

Isac segurou seu braço.

— Cuidado.

Ela olhou para a mão dele.

Depois para seus olhos.

Por um instante, ficaram próximos demais.

Isac soltou seu braço.

— Desculpe.

— Tudo bem.

O motorista abriu a porta.

Tayná entrou.

Isac entrou logo depois.

Durante o caminho, nenhum dos dois falou.

Mas o silêncio não era desconfortável.

Era diferente.

Quase íntimo.

Quando chegaram ao prédio onde Tayná morava, ela retirou o casaco.

— Obrigada pela noite.

— Pelo jantar.

— Também.

Ela estendeu o casaco.

Isac não pegou imediatamente.

Seus olhos estavam nela.

— Tayná.

— Sim?

— Você realmente está bem?

A pergunta a pegou desprevenida.

Ela olhou pela janela.

— Por que pergunta isso?

— Porque você parece estar sempre tentando convencer as pessoas de que está.

Tayná sentiu a garganta apertar.

— Eu estou tentando.

Isac assentiu.

— Eu sei.

Ela olhou para ele.

— Você também faz isso.

Ele ficou imóvel.

— O quê?

— Finge que está bem.

Isac desviou o olhar.

— Boa noite, Tayná.

Ela percebeu que havia ultrapassado um limite.

— Boa noite.

Saiu do carro.

Antes de fechar a porta, devolveu o casaco.

— Obrigada.

Isac segurou o casaco.

— Boa noite.

A porta se fechou.

Tayná entrou no prédio.

Isac ficou olhando até que ela desaparecesse.

Só então encostou a cabeça no banco.

Ele não deveria ter perguntado.

Não deveria ter levado Tayná para aquele jantar.

Não deveria ter emprestado o casaco.

E, principalmente, não deveria ter gostado de estar ao lado dela.

Porque a regra da distância existia por um motivo.

E ele começava a perceber que manter distância de Tayná seria muito mais difícil do que imaginara.

Quando entrou no apartamento, Isabella estava no sofá.

— E então?

Tayná tirou os sapatos.

— E então o quê?

— O jantar.

— Foi profissional.

Isabella estreitou os olhos.

— Só profissional?

— Só.

— E por que você está sorrindo?

Tayná imediatamente parou.

— Eu não estou sorrindo.

— Está.

— Não estou.

Isabella riu.

— Você gosta dele.

— Não.

— Tayná...

— Isabella, eu não gosto dele.

Ela respirou fundo.

— Eu só acho que ele é uma pessoa diferente do que parece.

Isabella ficou séria.

— Isso pode ser perigoso.

Tayná olhou para ela.

— Por quê?

— Porque você também é diferente do que parece.

Tayná não respondeu.

Naquela noite, deitada na cama, ficou olhando para o teto.

Pensou em Daniel.

Pela primeira vez desde que chegara a Nova York, a lembrança não doeu tanto.

Pensou em Isac.

E isso a assustou muito mais.

Do outro lado da cidade, Isac também estava acordado.

O casaco ainda estava sobre a cadeira.

Ele olhou para ele durante alguns segundos.

Depois fechou os olhos.

Sabia que deveria manter distância.

Sabia que Tayná era sua funcionária.

Sabia que havia coisas em seu passado que ainda não estavam resolvidas.

Mas, pela primeira vez em anos, uma mulher havia conseguido despertar nele algo que ele julgava morto.

E aquilo era apenas o começo.

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