Nova York era fria.
Tayná descobriu isso no instante em que saiu do aeroporto.
O vento atravessou seu casaco e fez com que ela apertasse ainda mais a alça da mala. Por alguns segundos, ficou parada, observando tudo ao redor.
Pessoas caminhavam apressadas.
Táxis passavam pelas ruas.
Carros buzinavam.
Prédios enormes pareciam tocar o céu.
Era diferente de tudo que conhecia.
E, pela primeira vez em muitos anos, ninguém olhava para ela como se soubesse sua história.
Ninguém sabia quem era Tayná Avelar.
Ninguém sabia que seu casamento havia sido cancelado.
Ninguém sabia que o homem que deveria esperá-la no altar estava beijando outra mulher poucos minutos antes de sua entrada.
Ninguém sabia que ela havia deixado para trás uma família que a amava, uma vida confortável e um relacionamento que acreditava ser para sempre.
Ali, ela era apenas uma desconhecida.
E aquilo, estranhamente, lhe trouxe paz.
— Tayná!
Ela reconheceu a voz imediatamente.
Virou-se e viu Isabella caminhando em sua direção.
A amiga abriu os braços.
— Finalmente!
Tayná sorriu e a abraçou.
— Você está atrasada.
— Eu estava tentando estacionar.
Tayná ergueu uma sobrancelha.
— Você nem tem carro.
— Detalhes.
As duas riram.
Isabella se afastou e observou o rosto da amiga.
O sorriso desapareceu lentamente.
— Você está bem?
Tayná desviou o olhar.
— Estou.
— Mentira.
— Estou tentando ficar bem.
Isabella suspirou.
— Essa é uma resposta melhor.
As duas seguiram até o carro.
Durante o caminho, Tayná permaneceu olhando pela janela.
Nova York parecia estar sempre acordada.
Luzes, pessoas, lojas, restaurantes, prédios e sons se misturavam em uma cidade que parecia não ter tempo para parar.
— Você sabe que pode voltar quando quiser, não sabe? — Isabella perguntou.
— Sei.
— Seus pais estão preocupados.
— Eu sei.
— Seu pai perguntou novamente se deveria mandar o jatinho.
Tayná sorriu.
— Ele realmente acha que um jatinho resolve tudo.
— Para ele, provavelmente resolve.
Tayná voltou a olhar para a janela.
— Eu não quero voltar agora.
Isabella ficou alguns segundos em silêncio.
— Por quê?
Tayná respirou fundo.
— Porque se eu voltar, todos vão tentar decidir o que é melhor para mim.
— Seus pais só querem ajudar.
— Eu sei.
— Então?
Ela apertou as mãos sobre o colo.
— Eu preciso descobrir quem sou sem Daniel.
Isabella não respondeu imediatamente.
Depois sorriu.
— Então vamos descobrir.
O apartamento de Isabella era pequeno, mas aconchegante.
Tinha apenas dois quartos, uma sala estreita e uma cozinha simples. Para Tayná, porém, parecia perfeito.
Não havia lembranças ali.
Nenhum retrato.
Nenhum vestido.
Nenhum anel.
Nenhuma promessa quebrada.
Ela colocou a mala no quarto de hóspedes.
— Você pode ficar o tempo que precisar — disse Isabella.
Tayná abraçou a amiga.
— Obrigada.
Naquela noite, porém, o sono não veio.
Tayná ficou deitada olhando para o teto.
Pegou o celular.
Havia dezenas de mensagens.
Algumas de sua mãe.
Outras de seu pai.
E uma quantidade enorme de ligações perdidas.
Ela respirou fundo antes de ligar para Helena.
— Filha?
A voz da mãe veio imediatamente.
— Oi, mãe.
— Você chegou?
— Cheguei.
— Está bem?
— Estou.
— Comeu?
Tayná sorriu.
— Sim.
— Está mentindo.
— Como você sabe?
— Porque sou sua mãe.
Tayná fechou os olhos.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
— Seu pai está muito preocupado.
— Eu sei.
— Ele quer que você volte.
— Eu sei.
— Nós todos queremos.
Tayná engoliu o nó na garganta.
— Mãe, eu preciso fazer isso.
— Fazer o quê?
— Começar de novo.
Helena respirou fundo.
— E se você não conseguir?
— Então eu tento novamente.
A mãe ficou em silêncio.
— Nós amamos você, Tayná.
As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Eu também amo vocês.
Depois da ligação, Tayná ficou alguns minutos olhando para o celular.
Então se levantou.
Precisava de um emprego.
No dia seguinte, passou horas procurando vagas.
Não queria depender do dinheiro dos pais.
Não queria voltar para casa por falta de opções.
Queria provar para si mesma que conseguiria.
Encontrou vagas para assistente, recepcionista, auxiliar administrativo e secretária.
Até que uma delas chamou sua atenção.
Secretária Executiva — Grier Enterprises.
Tayná abriu o anúncio.
O salário era muito superior ao que esperava.
Ela continuou lendo.
O nome do contratante apareceu na tela.
Isac Grier.
Ela parou.
Já ouvira falar dele.
Quem não conhecia?
Isac Grier era um dos empresários mais poderosos de Nova York.
Bilionário.
Reservado.
Conhecido por sua inteligência, pela postura fria e pela exigência quase obsessiva com seus negócios.
Tayná pesquisou rapidamente.
Encontrou fotografias dele em eventos empresariais.
Sempre sério.
Sempre impecavelmente vestido.
Havia poucas informações sobre sua vida pessoal.
Mas uma história aparecia com frequência.
Anos atrás, Isac havia perdido uma mulher importante em sua vida.
Depois disso, praticamente desaparecera dos relacionamentos públicos.
Tayná fechou as páginas.
— É só um emprego.
Atualizou o currículo.
Enviou.
E tentou não pensar mais nisso.
Na manhã seguinte, enquanto tomava café, seu celular tocou.
— Senhorita Avelar?
— Sim?
— Estou ligando da Grier Enterprises. Gostaríamos de convidá-la para uma entrevista com o senhor Grier.
Tayná endireitou a postura.
— Quando?
— Amanhã, às oito e trinta.
— Estarei lá.
Desligou.
Isabella apareceu na cozinha.
— Quem era?
— Uma empresa.
— Que empresa?
Tayná sorriu.
— Grier Enterprises.
Isabella parou.
— Espera.
— O quê?
— Você está falando da empresa do Isac Grier?
— Sim.
— Você conseguiu uma entrevista com ele?
— Pelo visto.
Isabella arregalou os olhos.
— Tayná, você sabe quem ele é?
— Um empresário.
— Um empresário que pode comprar metade de Manhattan.
Tayná riu.
— Então espero que ele saiba pagar bem.
— Você está brincando.
— Não.
Isabella cruzou os braços.
— Só tenho uma recomendação.
— Qual?
— Não se apaixone por ele.
Tayná pegou uma almofada e jogou na amiga.
— Eu acabei de fugir de um casamento.
— Exatamente.
— Não quero homem nenhum.
Isabella começou a rir.
— É sempre assim que começa.
Tayná revirou os olhos.
— Não vai começar nada.
Ela acreditava sinceramente nisso.
Naquele momento, não queria amor.
Não queria promessas.
Não queria sequer pensar em outro homem.
Queria apenas reconstruir a própria vida.
Mas, na manhã seguinte, quando atravessasse as portas da Grier Enterprises, encontraria um homem que também carregava feridas que ninguém conhecia.
E, sem perceber, Tayná estaria prestes a entrar em uma história muito maior do que aquela que havia deixado para trás.