Isac Grier

Isac Grier não gostava de entrevistas.

Preferia que o departamento de recursos humanos cuidasse daquela parte. Para ele, contratar alguém era simples: currículo, competência, referências e resultados.

Pessoas, porém, eram muito mais complicadas.

Elas mentiam.

Escondiam intenções.

Sorriam quando queriam alguma coisa.

E, quase sempre, mostravam apenas aquilo que julgavam conveniente.

Isac aprendera isso cedo.

Seu pai costumava dizer que o dinheiro revelava o caráter das pessoas.

Com o passar dos anos, Isac descobrira que era justamente o contrário.

O dinheiro não revelava.

Dava às pessoas mais oportunidades para esconder quem realmente eram.

Sentado atrás de sua enorme mesa de madeira escura, Isac analisava alguns documentos quando Amelia bateu à porta.

— Senhor Grier?

— Entre.

Ela abriu a porta.

— A candidata chegou.

Isac nem levantou os olhos.

— Mande entrar.

— Senhor Grier, ela está aguardando há alguns minutos.

— Então pode entrar agora.

Amelia assentiu e saiu.

Isac voltou aos documentos.

Tentou se concentrar.

Não conseguiu.

A porta se abriu novamente.

— Senhor Grier?

A voz feminina fez com que ele levantasse os olhos.

E, durante alguns segundos, simplesmente esqueceu o documento diante de si.

Ela não parecia com as mulheres que costumavam aparecer naquela empresa.

Era pequena.

Aproximadamente um metro e sessenta e dois.

Os cabelos castanho-caramelados eram cacheados e caíam delicadamente sobre os ombros.

A pele parda tinha um tom quente.

O rosto apresentava bochechas arredondadas e uma aparência jovem.

Mas não foi a beleza que chamou sua atenção.

Foram os olhos.

Havia alguma coisa escondida neles.

Uma tristeza profunda.

Como se aquela mulher estivesse carregando uma história que não pretendia contar.

— Sente-se.

Ela se aproximou.

— Obrigada.

Tayná Avelar.

Isac olhou para o currículo.

Brasileira.

Formada em Direito.

Boa experiência administrativa.

Excelentes notas.

Cursos complementares.

Tudo muito bom.

Talvez bom demais.

Ele ergueu os olhos novamente.

— Você se formou em Direito?

— Sim.

— E está se candidatando à vaga de secretária executiva.

— Sim.

— Por quê?

Ela respirou discretamente antes de responder.

— Porque preciso trabalhar.

Isac esperou.

Ela percebeu.

— E porque estou começando uma nova vida.

Ele franziu a testa.

— Nova vida?

— Sim.

— O que aconteceu com a antiga?

Pela primeira vez, Tayná desviou o olhar.

Foi rápido.

Mas Isac percebeu.

— Assuntos pessoais — respondeu.

Ele não insistiu.

Não porque não tivesse curiosidade.

Mas porque conhecia o limite entre curiosidade e invasão.

Voltou ao currículo.

— Você sabe quem eu sou?

— Sei.

— E ainda quer trabalhar aqui?

Ela pareceu confusa.

— Por que não iria querer?

— Algumas pessoas se intimidam.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Eu não tenho medo de você.

Isac ergueu uma sobrancelha.

Não estava acostumado com aquilo.

— Deveria.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Talvez.

A resposta arrancou dele uma reação que quase se transformou em sorriso.

Quase.

— Sou exigente.

— Eu também.

— Não gosto de atrasos.

— Não me atraso.

— Não gosto de erros.

Ela pensou por alguns segundos.

— Todo mundo erra.

— Eu não.

Dessa vez, Tayná arqueou uma sobrancelha.

— Está me chamando de mentiroso?

— Não.

— Então?

Ela o encarou.

— Estou dizendo que você é humano.

O silêncio tomou conta da sala.

Isac não respondeu.

Aquelas quatro palavras tinham atingido um lugar que ele não gostava de visitar.

Humano.

Ele passara anos construindo uma imagem de homem inabalável.

Controlado.

Frio.

Inacessível.

Era mais fácil assim.

As pessoas não esperavam nada de alguém que não demonstrava sentimentos.

— Você começa amanhã.

Tayná piscou.

— Desculpe?

— O emprego.

Ela pareceu surpresa.

— Eu fui contratada?

— Sim.

Um sorriso verdadeiro apareceu no rosto dela.

E, pela primeira vez em muito tempo, Isac sentiu uma coisa estranha no peito.

Não gostou.

— Obrigada, senhor Grier.

Ela se levantou.

Caminhou até a porta.

Quando passou perto dele, Isac sentiu um perfume suave.

Doce.

Quase imperceptível.

Ele acompanhou seus passos com os olhos.

— Tayná.

Ela se virou.

— Sim?

Isac não sabia por que a chamara.

Por um instante, pensou em perguntar sobre sua experiência profissional.

Mas a pergunta que saiu foi outra.

— Você está bem?

O sorriso desapareceu por um instante.

Os olhos dela ficaram tristes novamente.

— Vou ficar.

Então saiu.

A porta se fechou.

Isac permaneceu olhando para ela.

— Interessante.

A voz de Adrian surgiu atrás dele.

Isac virou-se.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim buscar aqueles documentos.

— Pegue e saia.

Adrian pegou a pasta, mas não saiu.

— Você contratou a candidata?

— Sim.

— Rápido.

— Ela é qualificada.

Adrian sorriu.

— Eu nem perguntei se ela era qualificada.

Isac lançou-lhe um olhar.

— Adrian.

— Tudo bem.

Ele caminhou até a porta.

Antes de sair, porém, olhou novamente para o amigo.

— Ela parece diferente.

Isac ficou sério.

— Ela é apenas minha funcionária.

Adrian sorriu.

— Eu não disse o contrário.

A porta se fechou.

Isac respirou fundo.

Tentou voltar ao trabalho.

Não conseguiu.

Pegou o currículo novamente.

Tayná Avelar.

Leu o nome mais uma vez.

Não sabia nada sobre aquela mulher.

Não sabia por que ela havia deixado o Brasil.

Não sabia o que havia acontecido para que precisasse começar novamente.

E, principalmente, não sabia por que aquilo lhe despertava curiosidade.

Ele não deveria se importar.

Não poderia se importar.

Havia regras que seguia havia anos.

Regras que o protegiam.

Distância.

Controle.

Nenhum envolvimento pessoal.

Principalmente com funcionários.

Isac fechou o currículo.

Precisava esquecer aquela entrevista.

Precisava esquecer o sorriso dela.

Precisava esquecer os olhos tristes.

Mas, enquanto se levantava e caminhava até a janela, uma certeza incômoda começou a surgir.

Tayná Avelar não seria apenas mais uma funcionária.

E talvez esse fosse exatamente o problema.

Porque Isac Grier havia passado anos evitando qualquer pessoa capaz de chegar perto demais.

E, em menos de uma hora, uma mulher desconhecida já havia conseguido atravessar uma pequena parte daquela barreira.

Sem pedir permissão.

Sem saber que ela existia.

E sem imaginar que, a partir do dia seguinte, estaria cada vez mais perto do homem que jurara nunca mais deixar ninguém entrar em sua vida.

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