Tayná Avelar acreditava que algumas memórias deveriam desaparecer com o tempo.
Aquela não.
Mesmo depois de meses, ela ainda conseguia sentir o peso do vestido branco sobre o corpo, o perfume das rosas espalhadas pelo salão e o som distante da música escolhida para sua entrada.
Algumas lembranças não desaparecem.
Elas apenas aprendem a morar dentro da gente.
Tayná tinha vinte e quatro anos e, naquela manhã, acreditava conhecer perfeitamente o homem com quem se casaria.
Daniel.
Seu primeiro amor.
O homem que conhecera ainda jovem, que segurara sua mão diante de seus pais e prometera que jamais a faria sofrer.
Talvez por isso a dor tivesse sido tão grande.
Porque a traição não começara naquele momento.
Ela apenas descobrira tarde demais.
Diante do espelho, Tayná ajeitou uma mecha dos cabelos castanho-caramelados que caíam em cachos sobre os ombros.
O vestido era perfeito.
Sua mãe escolhera cada detalhe.
O tecido branco se ajustava delicadamente ao corpo, enquanto a cauda se espalhava pelo chão.
As bochechas arredondadas davam ao rosto uma aparência ainda mais jovem.
Ela sorriu para o próprio reflexo.
Parecia feliz.
E era isso que mais doeria depois.
— Tayná? — chamou sua mãe do outro lado da porta. — Filha, está pronta?
— Estou.
Helena entrou e parou ao vê-la.
Seus olhos imediatamente ficaram marejados.
— Minha menina...
Tayná riu.
— Mãe, não começa a chorar.
Helena aproximou-se e segurou o rosto da filha.
— Você está linda.
— Obrigada.
— Está feliz?
Tayná sorriu.
— Muito.
Helena beijou sua testa.
— Então é tudo o que importa.
Tayná pegou o buquê.
Mas, antes de sair, percebeu um funcionário atravessando rapidamente o corredor.
Algo naquela movimentação chamou sua atenção.
— Eu já volto.
— Tayná?
— Só vou verificar uma coisa.
Ela caminhou pelo corredor sem saber exatamente por quê.
Quando chegou perto de uma porta lateral, ouviu uma risada.
Depois, uma voz masculina.
— Você sabe que eu amo você.
Tayná congelou.
Conhecia aquela voz.
Daniel.
Seu coração disparou.
Ela abriu a porta.
E tudo parou.
Daniel estava beijando outra mulher.
Não era um beijo rápido.
Não havia dúvida.
A mão dele estava na cintura dela.
A mulher segurava seu rosto.
Tayná ficou imóvel.
O buquê escorregou de seus dedos.
Uma rosa caiu no chão.
Depois outra.
Daniel abriu os olhos.
O rosto perdeu a cor.
— Tayná...
Ela não respondeu.
A mulher se afastou.
— Meu Deus...
Tayná olhou diretamente para Daniel.
— Há quanto tempo?
— Não é o que você está pensando.
Ela soltou uma risada baixa.
— Então me explica.
Daniel deu um passo.
— Eu posso explicar.
— Há quanto tempo?
Ele ficou em silêncio.
E aquele silêncio foi a resposta.
Tayná olhou para o vestido.
Depois para o anel em seu dedo.
O símbolo de uma promessa que, naquele instante, parecia uma mentira.
Ela retirou o anel.
Daniel tentou segurá-la.
— Não faz isso.
Tayná abriu a mão.
O anel caiu.
— Você já fez.
As lágrimas começaram a cair.
Mas ela não choraria diante dele.
Virou-se e saiu.
No corredor, Helena apareceu.
— Filha?
Tayná passou por ela.
— Eu não vou me casar.
Helena empalideceu.
— O quê?
Tayná parou por um instante.
— Pergunte ao seu futuro genro.
E continuou andando.
Naquela noite, sua família tentou convencê-la a ficar.
Seu pai ofereceu ajuda.
Sua mãe ofereceu colo.
Seus irmãos queriam confrontar Daniel.
Tayná recusou tudo.
Ela não queria vingança.
Queria distância.
Na madrugada, sentou-se diante da janela e abriu o notebook.
Pesquisou passagens.
São Paulo para Nova York.
Três dias depois.
Comprou.
Ficou olhando para a confirmação da passagem.
Não tinha emprego.
Não tinha apartamento.
Não tinha plano.
Mas tinha uma certeza.
Precisava partir.
Precisava descobrir quem era sem Daniel.
E, sem saber, naquela decisão começava a história que mudaria sua vida para sempre.