Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordo com o som insistente do celular vibrando na mesa de cabeceira. Minha cabeça ainda está pesada, o corpo relaxado pelo cansaço acumulado. Passo a mão às cegas pela superfície até encontrar o aparelho.
A tela acende. 02:07 da manhã. — Porra… — resmungo, a voz rouca de sono. Atendo sem nem olhar direito. — Alô… — Bom dia, amor! A voz animada de Gabriele invade meus ouvidos como um contraste irritante com meu estado. Fecho os olhos com força. — Gabi… são duas da manhã. Ainda não é dia pra mim. Ela ri do outro lado, leve, como se estivesse em um mundo completamente diferente do meu. — Mas pra mim é… e eu queria começar o dia ouvindo essa sua voz sexy. Passo a mão pelo rosto, tentando despertar. — Linda… me liga mais tarde. Eu consigo te dar mais atenção… Silêncio. Pequeno. Calculado. — Amor… na verdade eu preciso te pedir uma coisa… Solto um suspiro cansado. — Quanto, Gabi? Ela nem hesita. — Três mil dólares. Preciso pagar aluguel… e algumas contas atrasadas. Faço a conta automaticamente na cabeça. Dólar alto. Muito alto. — Gabi… você tá pedindo quinze mil reais. Minha voz sai mais firme agora. — Eu já falei pra você voltar. Essa agência não te ajuda em nada. Você trabalha… e ainda paga pra estar aí. Ela ignora completamente. — Marco… você consegue me mandar ou não? Olho para o teto. Cansado. Irritado. Preso. — Estou fazendo o Pix. — Obrigada, você é demais. Te amo. Ela desliga. Assim. Sem espaço. Sem conversa. Sem… nada. Fico olhando para o celular por alguns segundos. O silêncio do quarto agora pesa. Sou um homem de trinta e quatro anos. E, de alguma forma, ainda estou preso em uma história que deixou de fazer sentido há muito tempo. Conheci a Gabi na faculdade. Ela tinha vinte anos. Eu, vinte e quatro. Ela era… diferente. Meiga. Doce. Fácil de amar. Não fazia esforço pra agradar, e talvez por isso agradava tanto. Começamos a namorar sem drama, sem jogos. Natural. E, por muito tempo… foi perfeito. Ela era linda. Alta. Loira. Olhos azuis que pareciam claros demais para serem reais. E o corpo… Curvilíneo. Cheio. Vivo. Do jeito que sempre me atraiu. Nunca gostei de mulher padrão inalcançável de revista. Sempre gostei de mulher de verdade. Com curvas. Com presença. Com carne. E a Gabi era exatamente isso. Ou… era. Porque, em algum momento, tudo mudou. De repente. Sem aviso. Ela decidiu que queria ser modelo. E, no começo, eu apoiei. Claro que apoiei. Ela tinha beleza pra isso. Mas o mundo não funcionava como ela imaginava. As agências recusavam. Sempre a mesma desculpa: “Corpo muito curvilíneo.” Eu achava ridículo. Mas aquilo entrou na cabeça dela como veneno. E começou a consumir. Primeiro, pequenas mudanças. — Não posso comer isso. — Não posso beber aquilo. Depois, ela começou a sair menos. A sorrir menos. A viver menos. Até que… Ela foi desaparecendo. Literalmente. Dezessete quilos. Dezessete. Ela nunca foi gorda. Ela era perfeita. E, ainda assim… se destruiu tentando caber em um padrão que nem precisava. O brilho sumiu. O corpo mudou. O olhar mudou. E, com isso… ela também. Ficamos noivos. Mesmo assim. Talvez por insistência. Talvez por medo. Talvez por apego ao que fomos um dia. Planejávamos casar em dois anos. Mas dois dias depois do noivado… Ela foi embora. Milão. Contrato de dois anos e meio. Sem olhar pra trás. Já passou um ano. Um ano inteiro. Nos vimos três vezes. Duas vezes eu fui até lá. Dez dias cada visita. Ela veio uma vez. Ficou quatro dias. Quatro dias. Para alguém que deveria dividir uma vida comigo. Solto um riso sem humor. Sou noivo de uma mulher que não conheço mais. E que escolheu ir embora. A cada dia que passa, a vontade de terminar cresce. Lateja. Incomoda. Mas eu não termino. E sei exatamente por quê. Drama. Culpa. Família. Se algo acontecer com ela lá… Eu sei quem vão culpar. Mesmo que não seja justo. Fecho os olhos. E, em meio a esses pensamentos… Acabo dormindo novamente. Acordo tarde. Passa das dez. O celular toca de novo. — Fala, Júlio? — O príncipe encantado não vai trabalhar hoje? Reviro os olhos. Meu irmão mais velho. Eternamente sarcástico. — Não. Tenho um projeto pra desenhar. Prefiro fazer de casa. Me concentro melhor. — Só pra te avisar: seu cliente fechou contrato. Revisei tudo, já liberei e assinei. Tá no seu e-mail. Sorrio de leve. — Perfeito. Depois a gente fala. Desligo. Nós temos uma construtora grande. Eu sou engenheiro. Ele, advogado. Eu crio. Ele protege. Funciona. Ou pelo menos… deveria. Mas hoje… Nada flui. Estou irritado. O projeto não anda. Minha cabeça não para. Meu relacionamento está um desastre. E o pior? Eu sei exatamente o que preciso. Preciso desligar. Preciso esquecer. Preciso de… alívio. Sexo? Talvez. Mas estou cansado de sexo vazio. Sem conexão. Sem sentido. Garotas de programa não me interessam mais. E minha noiva… Está a milhares de quilômetros de distância. O dia passa sem que eu perceba. Trabalho. Ajusto. Refaço. E, finalmente… — Consegui. Um projeto inteiro concluído. Respiro fundo. Orgulho. Alívio. A noite parece boa. Decido sair. Meu irmão ia comigo. Desistiu. Covarde. Então vou sozinho. A boate está cheia. Música alta. Luzes cortando a escuridão. Perfumes misturados. Desejo no ar. Encosto no balcão. Observando. Sempre observei mais do que agi. Vejo homens tentando. Alguns confiantes. Outros patéticos. Mulheres bonitas. Muitas. Mas nenhuma chama minha atenção de verdade. Até que… — Bárbaraaaa! Um grupo de meninas entra. Barulhentas. Animadas. E então… Ela. Morena. Cabelos negros, longos, brilhando sob a luz. Corpo… Porra. Curvas que não pedem permissão. Quadril marcado. Cintura desenhada. Pernas expostas por um vestido curto demais. Ela não tenta chamar atenção. Mas chama. Muito. Não consigo ver o rosto direito. Mas já estou… interessado. Elas bebem. Riem. Sem preocupação. Sem noção. E, de alguma forma… isso me incomoda. Principalmente nela. Bárbara. O nome ecoa várias vezes. Gravando. Fixo. Ela levanta. Vai em direção ao banheiro. A curiosidade me puxa. Quero ver o rosto. Quero confirmar. Me posiciono perto. E então… Ela sai. E tropeça. Instinto. Eu a seguro. E, quando ela olha pra mim… O ar falta. Rosto delicado. Pele clara, quase de porcelana. Olhos grandes, expressivos, levemente perdidos. Cílios longos. E a boca… Formato de coração. Brilhante. Tentadora. Um contraste absurdo com o corpo que ela tem. Anjo e pecado no mesmo pacote. — Cuidado, Bárbara. Minha voz sai mais baixa do que o normal. — Acho que você está tonta. Ela me encara. Confusa. Vulnerável. — Como você sabe meu nome? — Suas amigas gritaram a noite inteira. Ela parece processar. — Tenha mais cuidado. Eu solto. E saio. Porque ficar ali… Não é uma boa ideia. Pago minha conta. Saio. Espero meu carro. Mas então… Eu a vejo de novo. Sozinha. Com o celular na mão. Visivelmente perdida. Bêbada. Demais. Franzo a testa. — Bárbara… precisa de ajuda? Ela tenta responder. Não consegue. E, no segundo seguinte… Apaga. Nos meus braços. Seguro seu corpo com firmeza. Leve. Quente. Cheiro… doce. — Ótimo… — resmungo. — E se eu fosse um psicopata? Ela não responde. Claro que não responde. Olho ao redor. Não sei onde ela mora. Não vou deixá-la aqui. E não vou levá-la pra minha casa. Não a conheço. Mas também não sou o tipo de cara que abandona alguém assim. Tomo uma decisão. Coloco ela no carro. Dirijo até o hotel mais próximo. O quarto é silencioso. Coloco ela na cama com cuidado. — Bárbara… Ela abre os olhos por um segundo. Murmura algo sem sentido. Dou água. Ela bebe pouco. E apaga de novo. Fico parado. Observando. Mesmo desacordada… Ela é linda. De um jeito que incomoda. Que prende. Que… mexe. Tiro a camisa. O calor do corpo ainda alto. Tiro os sapatos. Permaneço de calça. Deito ao lado dela. Mantendo distância. Ou tentando. O cheiro dela invade o espaço. Suave. Feminino. Viciante. Fecho os olhos. E, pela primeira vez em muito tempo… Minha mente silencia. E eu durmo. Ao lado de uma completa desconhecida…






