O despertar

A dor vem antes mesmo de eu abrir os olhos.

Latejante.

Pesada.

Como se minha cabeça estivesse sendo apertada por dentro.

Solto um gemido baixo e levo a mão à testa, sentindo a boca seca, o corpo estranho… e uma leve sensação de… conforto?

Franzo a testa.

Isso não faz sentido.

Forço os olhos a abrirem.

A luz suave do quarto me atinge primeiro, em tons quentes e discretos. Demoro alguns segundos para focar. O teto não é o do meu dormitório.

Meu coração acelera.

Viro o rosto lentamente.

E então eu vejo.

Ele.

Sentado em uma poltrona, alguns metros da cama.

Perfeitamente à vontade.

Como se aquele fosse o lugar dele.

Como se… estivesse me esperando.

Por um segundo, fico imóvel.

Tentando entender.

Tentando lembrar.

Então tudo vem de uma vez.

A boate.

As bebidas.

O banheiro.

O tropeço.

E… ele.

Meu estômago revira.

— Meu Deus… — murmuro, levando a mão à boca.

Ele se inclina levemente para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Os olhos fixos em mim.

Atentos.

Intensos.

Observadores.

— Finalmente acordou.

A voz.

Grave. Rouca.

Igual à noite anterior.

Sinto um arrepio subir pela minha espinha.

Engulo seco, me apoiando na cama para sentar. A cabeça gira levemente e eu fecho os olhos por um segundo.

— O que… — minha voz falha — o que aconteceu?

Ele solta um suspiro curto, passando a mão pelo maxilar como se estivesse tentando manter a paciência.

— Você desmaiou.

Simples.

Direto.

Sem suavizar.

Franzo a testa.

— Eu… o quê?

— Desmaiou — ele repete, agora mais firme. — Na entrada da boate. Sozinha. Bêbada. Sem conseguir ficar em pé.

Meu rosto esquenta instantaneamente.

Vergonha.

Muita vergonha.

Olho para minhas mãos, tentando organizar as memórias.

— Eu… não lembro de sair…não me lembro o que aconteceu...a gente?

Ele me corta.

— Claro que não lembra — ele fala seco. — Você mal conseguia falar e não eu não te toquei.

Levanto o olhar para ele.

E só então percebo… de verdade.

A forma como ele está.

Sentado de forma relaxada, mas com presença dominante.

A camisa não está mais nele. Apenas uma camiseta básica, que ainda assim marca cada linha do corpo. Ombros largos. Peitoral firme. Braços fortes, definidos, repousando de maneira casual… mas impossíveis de ignorar.

O cabelo escuro levemente desalinhado, como se tivesse passado as mãos várias vezes por ele.

E o rosto…

Traços fortes.

Maxilar marcado.

Barba por fazer perfeitamente alinhada.

E aqueles olhos…

Castanhos com traços dourados.

Profundos.

Me analisando como se eu fosse um problema a ser resolvido.

Ou um erro.

Desvio o olhar rapidamente.

— Você… me trouxe pra cá?

— Trouxe.

— Por quê?

Ele solta uma risada curta, sem humor.

— Porque você estava inconsciente no meio da rua, Bárbara. — ele inclina a cabeça levemente. — Ou era isso ou teria deixado você lá desmaiada.

Mordo o lábio inferior.

— Eu… eu só…

Não sei o que dizer.

Ele se levanta.

E, quando fica de pé…

A presença dele cresce.

Muito.

Alto.

Imponente.

Atraente.

Ele dá alguns passos até a cama, parando a uma distância segura… mas ainda assim próxima demais para o meu coração não disparar.

— Você foi completamente imprudente.

O tom muda.

Mais baixo.

Mais controlado.

Mais… sério.

— Bebendo daquele jeito, sem ninguém te acompanhando… — ele balança a cabeça. — Você tem noção do que poderia ter acontecido?

Sinto como se estivesse levando uma bronca.

E, estranhamente…

Não gosto.

Mas também não consigo ignorar.

— Eu não estava sozinha… — retruco, mais fraco do que gostaria.

Ele arqueia uma sobrancelha.

— Não?

Silêncio.

Porque, no fim…

Eu estava.

Desvio o olhar novamente.

Mas como sempre faço a pergunta mais aleatória que poderia fazer.

— Quantos anos você tem?

Ele fica em silêncio por alguns segundos.

Como se estivesse decidindo o que fazer comigo.

Então responde.

— Trinta e quatro. Levanta. Vou te levar pra casa.

Ergo o olhar, surpresa.

— Você não precisa!

— Preciso!

Corta.

Ele já está se afastando.

— Não vou correr o risco de você desmaiar de novo no caminho.

Reviro os olhos, mas uma parte de mim… se sente estranhamente segura.

Levanto devagar. Minhas pernas ainda estão um pouco fracas.

Ele observa cada movimento meu.

— Onde… estamos?

— Hotel.

Claro.

Perfeito.

Que situação.

Passo a mão pelos cabelos, tentando me recompor.

Minutos depois, já estamos saindo.

O ar da manhã b**e no meu rosto, fresco, ajudando a clarear um pouco a mente.

Caminho ao lado dele em silêncio.

Até que vejo o carro.

E paro.

— Uau…

Escapa antes que eu consiga conter.

Um Aston Martin preto, impecável, elegante de um jeito quase intimidador.

Volto o olhar para ele.

— O que você faz da vida?

Ele apenas abre a porta para mim.

— Entra.

Reviro os olhos, mas entro.

O interior do carro é tão luxuoso quanto o exterior. Tudo cheira a couro e sofisticação.

Ele entra logo depois.

E o silêncio… volta.

Mas não é um silêncio confortável.

É carregado.

Denso.

Cheio de coisas não ditas.

Sinto o olhar dele em mim por um breve segundo antes dele ligar o carro.

— Onde você mora?

— Faculdade, no dormitório… — respondo, ainda meio aérea, passando o endereço.

Ele assente e começa a dirigir.

Observo suas mãos no volante.

Firmes.

Grandes.

Meu olhar sobe involuntariamente pelo braço dele… até o maxilar… até os olhos focados na estrada.

Desvio rápido.

— Você sempre salva desconhecidas bêbadas? — pergunto, tentando quebrar o clima.

Ele solta um leve sorriso de canto.

— Não.

— Então por que eu?

Ele demora um segundo para responder.

— Porque você estava prestes a se machucar.

Simples

Cruzo os braços, me encostando no banco.

— Você é sempre assim… mandão?

Ele me olha de relance.

— E você é sempre assim… imprudente?

Fico em silêncio

Olho pela janela.

Mas sinto.

Sinto o olhar dele voltando pra mim de vez em quando.

Como se estivesse tentando me entender.

Quando o carro para em frente ao dormitório, meu coração acelera de forma estranha.

— Chegamos.

Ele diz.

— Obrigada novamente e antes que eu esqueça, qual seu nome?

Ele me encara.

Divertido.

— Tenta não se colocar em risco de novo, Bárbara.

Assinto devagar.

E ele simplesmente vai embora...

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