Desejo irresistível - amor misterioso
Desejo irresistível - amor misterioso
Por: Suh Nascimento
Comemoração

— Bárbara, vamos logo! A gente vai se atrasar!

A voz de Celina atravessa a porta antes mesmo dela escancará-la, invadindo meu quarto junto com sua energia caótica de sempre. Ela para no batente e, no instante em que seus olhos caem sobre mim, um assobio longo escapa de seus lábios.

— Uau… — ela diz, levando a mão ao peito como se estivesse impressionada de verdade. — Você está… simplesmente linda.

Por um segundo, fico sem reação. Então volto meu olhar para o espelho.

Eu me observo como se estivesse vendo outra pessoa.

Meus cabelos escuros, longos e sedosos, caem em uma cascata perfeitamente alinhada até quase o final das minhas costas. Eles brilham sob a luz do quarto, refletindo um cuidado que eu raramente tenho comigo mesma. Passo os dedos levemente pelas pontas, sentindo a maciez que quase não reconheço como minha.

Minha maquiagem é leve, como sempre gostei. Nada exagerado. Apenas o suficiente para destacar o que já existe. Meus cílios, naturalmente longos, estão realçados por uma camada suave de rímel, abrindo ainda mais meu olhar. Meus lábios, com um gloss delicado, parecem mais cheios, mais definidos… quase desenhados, com aquele brilho que chama atenção sem esforço. Minhas bochechas carregam um tom rosado, quente, que contrasta com minha pele e me dá um ar mais vivo, mais… ousado.

— Eu nem pareço eu — murmuro, quase sem perceber.

Celina ri, entrando no quarto e se jogando na cama.

— Parece sim. Só que na sua melhor versão.

Desço o olhar para o vestido.

Preto. Justo. Curto demais para o meu padrão de conforto.

Ele abraça cada curva do meu corpo sem pedir permissão. Marca minha cintura, desenha meus quadris, desliza pelas minhas coxas até parar exatamente no meio delas, como se quisesse provocar qualquer um que olhasse. As alças finas deixam meus ombros à mostra, delicados, contrastando com a intensidade do restante.

Engulo seco.

— Isso é curto demais — digo, puxando discretamente a barra.

— Isso é perfeito — Celina rebate, levantando e vindo até mim. — E você sabe disso.

Ela me vira levemente de lado, analisando.

— Olha essa cintura… esse quadril… — ela balança a cabeça, sorrindo. — Hoje alguém vai sofrer por sua causa.

Reviro os olhos, mas sinto meu rosto esquentar.

Calço a sandália preta de tiras finas. O salto médio já parece alto demais para mim.

— Eu vou cair — resmungo.

— Vai nada. Se cair, pelo menos vai cair linda.

Dou uma risada nervosa, pego minha bolsa e respiro fundo.

Talvez hoje seja diferente.

Talvez hoje eu seja diferente.

Saímos.

O caminho até a boate é rápido, mas minha mente parece mais acelerada que o carro de Celina.

— Me conta, Bárbara — ela diz, desviando o olhar da estrada por um segundo. — Qual é a sensação de finalmente se formar e sair daquele dormitório infernal?

Eu solto um suspiro leve, olhando pela janela.

— Calma, Celi… em seis meses é a sua vez. Vai dar tudo certo pra você também.

Minha voz sai firme, confiante. Como sempre.

Mas por dentro…

Eu não faço ideia do que estou fazendo.

Não parece real. Me formar. Ir embora. Começar de verdade.

É assustador.

Chegamos.

A música pulsa do lado de fora da boate como um coração gigante. Luzes atravessam a entrada, pessoas entram e saem, risadas, vozes altas, cheiro de perfume, álcool, expectativa.

Assim que entramos, somos engolidas pelo ambiente.

E, claro… pelas meninas.

— Bárbara! — alguém grita.

— Finalmente!

— Olha ela!

Antes que eu possa reagir, já estou sendo puxada para o bar.

— Suas duas doses de tequila estão te esperando — uma delas anuncia, empurrando um copo na minha mão.

Olho para o líquido transparente como se fosse uma sentença.

— Ah, não…

— Ah, sim! — elas respondem em coro.

Levantamos os copos.

Uma frase qualquer de fraternidade ecoa entre risadas e nostalgia.

— À Bárbara!

— À liberdade!

— À gente!

Viramos.

O líquido desce rasgando minha garganta como fogo líquido. Meus olhos ardem, minha respiração falha por um segundo.

— Meu Deus — tossico, levando a mão ao peito.

As meninas gargalham.

— Mais uma! — alguém grita.

E antes que eu tenha tempo de recusar, já tenho outro copo na mão.

Respiro fundo.

E viro.

Dessa vez, o ardor vem mais rápido, mais forte… mas também mais leve de suportar.

Voltamos para a mesa.

As conversas giram em torno de planos, empregos, viagens, futuros incertos e sonhos grandes demais.

Eu sorrio. Concordo. Respondo.

Mas algo dentro de mim está… inquieto.

É quando sinto.

Um olhar.

Levanto os olhos.

Do outro lado do bar, parcialmente escondido pela sombra, há um homem encostado no balcão.

Ele está me olhando.

Não é um olhar qualquer.

É direto. Fixo. Intenso.

Mas distante demais para que eu veja claramente seu rosto.

Ainda assim…

Algo em mim reage.

Desvio o olhar.

— Vamos dançar! — Celina me puxa antes que eu pense demais.

A pista está cheia. Luzes cortam o ar em cores vibrantes. O som vibra no meu peito.

Celina aparece com um drink.

— Bebe — ela diz, colocando o copo na minha mão.

Dou um gole.

Doce. Refrescante. Perigoso.

Quando percebo, já estou com outro.

E outro.

E o mundo começa a ficar… mais leve.

Três das meninas desaparecem com novos “amigos”.

Resta apenas eu e Celina.

Até que…

— Sério isso? — Celina murmura, rígida.

Sigo seu olhar.

O ex dela.

Eles começam a discutir. A tensão é palpável.

Eu recuo.

— Vou ao banheiro — aviso, tentando não me envolver.

Ela mal escuta.

No banheiro, o silêncio relativo é um alívio.

Apoio as mãos na pia, olhando meu reflexo.

— Jesus, Bárbara… — sussurro.

Minha visão está levemente turva. Meu corpo… estranho.

Abro a torneira, molho o rosto.

A água fria ajuda. Um pouco.

Respiro fundo.

Mas quando me viro para sair…

O chão parece se mover.

Dou um passo em falso.

E esbarro em alguém.

— Droga, me desculpa… — digo rapidamente.

Então olho para cima.

E o mundo… para.

Ele.

Não há outra palavra.

Ele é… absurdo.

Alto. Muito alto.

Seu corpo é largo, definido, visivelmente forte sob a camisa preta ajustada que parece ter sido feita para destacar cada músculo. Ombros largos, postura firme, presença dominante.

Seu rosto…

Traços marcantes. Maxilar definido. Barba curta perfeitamente alinhada. Lábios firmes.

E os olhos…

Castanhos. Ou mel. Difícil dizer com a luz.

Mas intensos.

Profundos.

Hipnotizantes.

Ele me segura com firmeza, impedindo que eu caia.

Sua mão envolve meu braço com segurança.

Quente.

Firme.

— Cuidado, Bárbara — ele diz.

Sua voz…

Grave. Rouca. Baixa.

Percorre meu corpo como um arrepio.

— Acho que você está tonta.

Demoro um segundo para processar.

— Como você… sabe meu nome?

Ele ergue uma sobrancelha, com um leve traço de ironia.

— Suas amigas gritaram seu nome a noite inteira.

Meu rosto esquenta.

— Tenha mais cuidado — ele continua, sério agora. — Você não deveria beber tanto assim.

A forma como ele fala…

Não é um conselho.

É quase uma ordem.

E, por algum motivo, eu sinto como se devesse obedecer.

Antes que eu consiga responder, ele me solta.

E vai embora.

Assim.

Sem olhar para trás.

Fico parada.

Tentando entender o que acabou de acontecer.

Procuro Celina.

Nada.

Pista.

Bar.

Entrada.

Nada.

Meu coração começa a acelerar.

— Ótimo… — murmuro. — Perfeito em Bárbara... continuo resmungando.

Pego o celular.

Uber.

Simples.

Só preciso sair daqui.

Mas o ar de fora parece mais pesado do que deveria.

— Meu Deus… — levo a mão à testa. — Estou vendo tudo dobrado.

Uma onda de náusea sobe.

Meu estômago revira.

Minha respiração falha.

E então…

— Bárbara… precisa de ajuda?

Aquela voz.

Levanto o olhar.

Ele está ali.

Mais perto agora.

Ainda mais… impressionante.

As luzes externas iluminam melhor seu rosto.

E ele é ainda mais bonito do que eu lembrava.

— Eu… — tento falar, mas minha língua parece pesada. — Eu estou…

Tonta.

Fraca.

Perdida.

Dou um passo.

Ou tento.

O chão desaparece.

E tudo escurece.

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