Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando o bonitão, cujo nome eu nem sei , me deixou na frente do dormitório, eu não pensei duas vezes.
Desci do carro rápido, ainda meio tonta, com a cabeça latejando e o coração estranho… acelerado por motivos que eu não queria admitir. Nem olhei para trás. Se olhasse… talvez ficasse. E eu não podia. Subi direto para o meu quarto. Assim que abro a porta, dou de cara com Celina parada no meio do quarto, braços cruzados, expressão fechada. Perigosa. — Bárbara, onde você estava?! — ela praticamente grita. — Eu te procurei em todos os lugares! Eu já estava indo na delegacia fazer um boletim de ocorrência! Pisco algumas vezes, surpresa com a intensidade dela. — Ué… eu que te procurei e não te achei em lugar nenhum! Ela j**a as mãos para o alto, nervosa. — Eu fui até o carro do meu ex e voltei em seguida! Mas você tinha sumido! Sumido, Bárbara! Eu estava à beira de um ataque de nervos! Sinto um aperto no peito. — Desculpa… Minha voz sai mais baixa agora. Respiro fundo e começo a contar. Tudo. A bebida. O banheiro. O tropeço. Ele. A forma como me segurou. A voz dele. O olhar. O desmaio. Quando termino, Celina me encara com os olhos arregalados. — Você não deu um beijo nele? — ela dispara. — Não pegou o número dele? Nada?! Reviro os olhos, cansada demais pra entrar nesse tipo de assunto. — Que importância isso faz, Celi? — respondo, dando de ombros. — Amanhã eu estou indo embora. O clima muda na hora. A expressão dela cai. — Bárbara… Há dor ali. Preocupação. — Você já mandou seu currículo? — Pra vários lugares — suspiro. — Nada ainda. Eu preciso me estabilizar primeiro pra conseguir me manter aqui. Ela balança a cabeça, inconformada. — Mas aqui tem mais oportunidade, para sua área, tem empresa, tem chance de crescer! Lá… você vai ter que lidar com seu padrasto! Caminho até ela e a abraço. Aperto forte. — Vai dar tudo certo… — murmuro. — Eu vou voltar. Ela não responde de imediato. Mas me abraça de volta. E me ajuda. O restante do dia passa rápido demais. Entre malas abertas, roupas espalhadas, lembranças sendo encaixadas em espaços pequenos. É estranho. Arrumar a vida em duas malas. Eu, formada em Tecnologia da Informação. Praticamente uma hacker. Capaz de invadir sistemas, quebrar códigos, resolver problemas complexos, criar sistemas do zero. Mas incapaz de conseguir um emprego. Dou uma risada sem humor. Ironia. Tomo um banho longo. Quente. Como se pudesse lavar a frustração. Deito. E apago. O despertador toca cedo demais. Celina já está pronta. Silenciosa. Nos despedimos sem muitas palavras. Porque, quando dói… falar piora. O Uber já está me esperando. Desço com minhas duas malas enormes. Algumas coisas ficam com Celina. Promessa de voltar em breve. O aeroporto é barulhento. Frio. Impessoal. E, ainda assim, meu peito aperta quando entro no avião. Três horas depois… Mato Grosso. O ar é diferente. Mais seco. Mais quente. E, principalmente… Mais distante de tudo que eu gosto. Nada de praia. Nada daquele vento gostoso do Rio de Janeiro. Nada de liberdade. Minha mãe está me esperando. Quando entro no carro, ela me abraça. — Tenha paciência com seu padrasto, minha filha… Reviro os olhos internamente. — Oi, mãe… eu estou bem. E você, como está? Minha voz sai carregada de ironia. Ela finge não perceber. Chegamos em casa. E, como sempre… Ele está lá. Meu padrasto. Esperando. — Eu falei — ele começa, sem nem me dar tempo de respirar. — Falei pra você fazer agronomia. Já estaria com emprego aqui! Mas não… foi fazer essa merda que não serve pra nada, agora tá aí com vinte três anos morando aqui na minha casa. Sinto o sangue subir. Mas, dessa vez… Eu não engulo. Olho direto pra ele. — Essa casa é do meu pai, a casa que ele deixou pra mim— digo, firme. — Então eu estou na minha casa. Ele fica em silêncio. Surpreso. — Eu me formei com o meu dinheiro — continuo. — Então não sou eu a imprestável aqui. O clima pesa. Minha mãe me lança um olhar de reprovação. Mas eu não me importo. Não hoje. Subo. Bato a porta do quarto. E me tranco. Ligo para Celina. — Celi… eu cheguei… Minha voz quebra. — O que foi, amiga? — ela pergunta na hora. — Seu padrasto já começou? — Sim… — respiro fundo. — Mas não importa. Eu vou mandar currículo dia e noite. Eu vou sair daqui. — Eu vou te ajudar — ela diz, firme. — Nas minhas aulas vagas eu envio também. Sorrio, mesmo chorando. — Obrigada… Desligo. E começo. Três dias. Três dias praticamente trancada no quarto. Saio só pra comer. Ou ir ao banheiro. Meu notebook virou minha companhia. Currículos. E-mails. Tentativas. Esperança. Frustração. Ouço minha mãe e meu padrasto discutindo lá fora. Mais um dia comum. Até que… Um som diferente. Carro. Vou até a varanda. Vejo um carro elegante estacionando. Um homem de terno desce. Postura séria. Profissional. Ele pega alguns papéis e caminha até a porta. Desço, curiosa. — Gostaria de falar com Bárbara Laurens. Franzo a testa. — Sou eu. Ele me observa por um segundo… e sorri levemente. — Até que enfim te encontrei. Meu coração acelera. — Podemos conversar? Cruzo os braços. — Sobre o quê? Ele estende a mão. — Juliano. Advogado da sua avó paterna. Congelo. — Minha… avó? — Eu sei que você não a conheceu — ele continua — mas ela faleceu recentemente… e deixou alguns bens para você. Dou um passo para trás. Confusa. — Minha avó morreu há anos… Ele balança a cabeça. — Não, Bárbara. Ela faleceu há pouco mais de um mês. Meu mundo gira. Peço para ele entrar. Sentamos na sala. E então… Ele me conta a verdade. A verdadeira história. Não a versão que minha mãe me deu. Minha avó nunca aceitou o casamento dos meus pais. Meu pai, apaixonado, foi embora com minha mãe. Sem deixar rastros. E minha avó… Ficou. Sozinha. Em Copacabana. Durante todos esses anos… ela nos procurou. Descobriu sobre a morte do Papai. Tentou me encontrar. E, mesmo sem conseguir… Nunca desistiu. Antes de morrer… Deixou tudo organizado. Para mim. Engulo o choro. — O que… ela deixou? Ele abre a pasta. — Um imóvel… e cem mil reais em conta. As lágrimas descem. Sem controle. Sem aviso. Eu nem a conheci. E, ainda assim… Ela pensou em mim. — Se você quiser — ele continua — podemos ir hoje mesmo para o Rio. A casa já está pronta para você. E você terá acesso ao dinheiro. Levanto sem pensar. — Eu vou. Não olho para trás. Não hesito. Poucas horas depois… Estou no avião novamente. Mas dessa vez… Meu peito está diferente. Esperança. Três horas depois… Rio de Janeiro. Copacabana. O ar muda. O cheiro muda. Eu mudo. Entramos no carro. E, minutos depois… Paramos. Meu coração falha uma batida. — Essa é a casa? Minha voz sai em um sussurro. Um chalé. Delicado. Perfeito. De dois andares. Com flores coloridas. Um jardim bem cuidado. Um balanço na frente. Parece… mágico. Entro devagar. Cada passo é uma descoberta. Cada detalhe… um abraço. Subo as escadas. E, do segundo andar… Vejo. A casa ao lado. Um triplex enorme. Imponente. Luxuoso. Quase intimidador. Sorrio de leve. — Tomara que a vizinhança seja boa… Murmuro. Sem fazer ideia…






