Dante Bellucci Rejeitada pelo Mafioso de Roma
Dante Bellucci Rejeitada pelo Mafioso de Roma
Por: Laura Paes DIas
Capítulo 1 — A Pasta Sob a Chuva

A chuva caía sobre Roma como se o céu tivesse decidido lavar os pecados da cidade.

Sofia Ricci apertou contra o peito a pasta de couro que seu pai havia escondido atrás de uma tábua solta no assoalho do quarto. Seus dedos estavam gelados, mas não era por causa da noite fria. Era medo. Um medo denso, sufocante, que parecia ter mãos e a segurava pela garganta desde o momento em que encontrara o corpo de Antonio Ricci caído no escritório, com os olhos abertos e uma expressão de terror que ela jamais conseguiria esquecer.

Seu pai não morrera de infarto.

Seu pai fora assassinado.

E ela sabia disso porque, poucas horas antes de morrer, ele havia lhe dito uma frase que agora martelava em sua cabeça.

Se algo acontecer comigo, vá até Dante Bellucci. Não confie em mais ninguém.

Dante Bellucci.

Só o nome bastava para fazer homens adultos baixarem a voz.

O chefe da família Bellucci. O rei invisível de Roma. Um homem que não precisava levantar a mão para destruir alguém. Bastava uma ordem. Uma assinatura. Um olhar.

Sofia sabia quem ele era. Todos sabiam. Seu pai havia trabalhado como contador para a família Bellucci durante anos, embora nunca tivesse admitido todos os detalhes. Antonio Ricci gostava de fingir que era apenas um homem de números, um funcionário discreto, alguém que mantinha livros organizados e impostos pagos.

Mas Sofia não era ingênua.

Pelo menos, não completamente.

Ela sabia que o dinheiro dos Bellucci não vinha de restaurantes, hotéis e empresas de importação. Sabia que havia sangue por trás daqueles sobrenomes elegantes. Sabia que, quando um homem como Dante Bellucci chamava, ninguém recusava.

Mesmo assim, naquela noite, era para ele que ela estava indo.

O táxi parou diante de um portão negro e imenso, no alto de uma propriedade afastada do centro histórico. A mansão Bellucci surgia além das grades como uma fortaleza antiga, iluminada por luzes douradas e protegida por homens armados que não tentavam parecer seguranças comuns. Eram soldados. Homens de rosto duro, olhar seco e mãos próximas demais da cintura.

Tem certeza de que quer descer aqui, signorina? — perguntou o taxista, olhando pelo retrovisor.

Não.

Ela não tinha certeza de nada.

Mas assentiu mesmo assim.

Tenho.

Pagou a corrida com as últimas notas amassadas que tinha na bolsa e saiu antes que a coragem fugisse. A chuva encharcou seu casaco preto quase imediatamente. Seus cabelos castanhos grudaram no rosto. A pasta continuava presa contra o peito como se fosse a única coisa entre ela e a morte.

Um dos homens no portão a observou se aproximar.

Nome.

A voz dele não perguntava. Ordenava.

Sofia ergueu o queixo, tentando parecer mais forte do que se sentia.

Sofia Ricci. Preciso falar com Dante Bellucci.

O segurança não mudou de expressão, mas algo nos olhos dele se alterou.

Reconhecimento.

E não era bom.

Espere aqui.

Ele se afastou alguns passos e falou em um comunicador. Sofia não conseguiu ouvir tudo, mas ouviu o suficiente.

Ricci.”

Filha.”

Está com uma pasta.”

O portão se abriu alguns segundos depois, pesado, silencioso, ameaçador.

Sofia entrou.

A cada passo pelo caminho de pedras, sentia que atravessava uma fronteira da qual talvez nunca pudesse voltar. A mansão era ainda maior de perto: colunas altas, janelas imensas, mármore escuro, uma beleza fria e aristocrática que não convidava ninguém a entrar. Aquela casa não recebia visitas. Ela julgava invasores.

A porta principal se abriu antes que Sofia batesse.

Uma mulher mais velha, vestida de preto, apareceu.

Signorina Ricci?

Sim.

Venha comigo.

Sofia entrou.

O interior da mansão cheirava a madeira nobre, couro, tabaco caro e poder. Havia quadros antigos nas paredes, esculturas discretas, lustres baixos, tapetes espessos que engoliam o som dos passos. Tudo era elegante demais. Controlado demais.

Como se naquela casa até o silêncio obedecesse ordens.

A mulher a conduziu por um corredor longo até uma porta dupla.

O senhor Bellucci vai recebê-la.

Sofia engoliu em seco.

Agora?

A mulher olhou para ela como se a pergunta fosse absurda.

O senhor Bellucci não costuma esperar.

Antes que Sofia pudesse responder, a porta se abriu.

E ela o viu.

Dante Bellucci estava de pé diante de uma janela enorme, com as mãos nos bolsos da calça social escura. Vestia uma camisa branca impecável, com as mangas dobradas até os antebraços, e um colete preto que acentuava a largura dos ombros. Alto, poderoso, imóvel. A luz baixa do escritório desenhava sombras afiadas em seu rosto.

Ele parecia jovem demais para carregar tanto medo no nome.

Talvez trinta e cinco anos. Talvez um pouco menos. Cabelos negros, barba curta, maxilar rígido, olhos escuros como uma sentença.

Quando ele se virou, Sofia esqueceu como respirar.

Não porque ele era bonito — embora fosse, de um jeito quase cruel. Mas porque havia algo nele que fazia o corpo entender o perigo antes da mente.

Dante Bellucci não parecia um homem.

Parecia uma decisão da qual ninguém escapava.

Sofia Ricci — ele disse.

A voz era baixa, controlada, fria.

Ela apertou a pasta.

Senhor Bellucci.

Ele olhou para a pasta antes de olhar para o rosto dela.

Seu pai está morto.

A frase a atingiu como um tapa.

Sofia sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Não ali. Não diante dele.

Sim.

E você veio até mim poucas horas depois da morte dele.

Ele mandou.

Dante inclinou levemente a cabeça.

Seu pai mandou você vir até mim?

Sim.

Curioso.

A palavra saiu macia, mas havia veneno nela.

Sofia franziu a testa.

Curioso por quê?

Dante caminhou até a mesa. Devagar. Cada movimento dele era econômico, como se não desperdiçasse energia nem para intimidar. Não precisava. A intimidação vinha naturalmente.

Porque Antonio Ricci roubou de mim.

O chão pareceu sumir sob os pés dela.

O quê?

Seu pai desviou dinheiro da família Bellucci, vazou informações sigilosas e, ao que tudo indica, planejava entregar documentos a nossos inimigos.

Sofia balançou a cabeça.

Não. Isso é mentira.

Você tem certeza?

Tenho.

Dante apoiou as mãos na mesa, inclinando-se um pouco para frente.

Cuidado, signorina. Lealdade de filha é comovente, mas não muda fatos.

Meu pai não era traidor.

Todos os traidores têm alguém que diz isso no enterro.

A dor se transformou em raiva.

Sofia deu um passo à frente.

Eu encontrei meu pai morto no chão do escritório. O senhor acha mesmo que eu viria até aqui, no meio da noite, se soubesse que ele tinha traído você?

Os olhos de Dante se estreitaram.

Talvez sim.

Por quê?

Para terminar o que ele começou.

O silêncio que veio depois foi pesado.

Sofia entendeu, então.

Ela não estava ali como filha de um homem morto.

Estava ali como suspeita.

Você acha que eu sou parte disso — ela murmurou.

Eu não acho nada sem provas.

Mas já me condenou.

O canto da boca dele quase se moveu. Quase.

Se eu tivesse condenado você, Sofia, esta conversa não estaria acontecendo.

O modo como ele disse o nome dela fez um arrepio subir por sua nuca. Não havia carinho. Havia posse. Estudo. Ameaça.

Ela colocou a pasta sobre a mesa.

Meu pai deixou isso escondido. Disse que eu deveria entregar ao senhor se algo acontecesse com ele.

Dante não tocou na pasta imediatamente. Apenas a observou.

Você abriu?

Sofia hesitou por uma fração de segundo.

Foi o suficiente.

Dante percebeu.

Abriu.

Eu precisava saber se havia algo que explicasse a morte dele.

E encontrou?

Nomes. Contas. Códigos que não entendi. E uma frase escrita à mão.

Que frase?

Sofia respirou fundo.

— “A Mano Nera está dentro da casa.”

Pela primeira vez, algo atravessou o rosto de Dante Bellucci.

Não medo.

Não surpresa.

Fúria.

Mas desapareceu tão rápido que Sofia quase pensou ter imaginado.

Ele finalmente pegou a pasta e a abriu. Retirou os papéis com cuidado, folheando em silêncio. Seus olhos se moveram pelas páginas, rápidos, atentos, implacáveis. A cada segundo, o ar no escritório parecia ficar mais frio.

Então ele parou.

Seu maxilar endureceu.

Onde encontrou isso?

Eu disse. No quarto do meu pai.

Quem mais sabe que você está aqui?

Ninguém.

Mentira.

Sofia se ofendeu.

Não estou mentindo.

Dante fechou a pasta com um golpe seco.

Mulheres inocentes não costumam chegar à minha porta carregando documentos roubados e frases sobre uma organização que mata homens meus há anos.

Mulheres inocentes também não costumam encontrar o próprio pai morto.

E ainda assim, aqui está você.

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