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Entre Desejos e Antigos Rancores(Parte 1)

Acordei na força do ódio. Demorei a dormir e, ainda por cima, esqueci de desligar o despertador — como é que alguém acorda às 5h da manhã em pleno sábado, gente? Hoje é a minha folga!

Depois que acordei, não consegui mais voltar a dormir. Então fiz minha higiene matinal: escovei os dentes, tomei um banho frio para ajudar a acordar, vesti uma camiseta grande que herdei de um ex, coloquei um shortinho de malha e nem usei calcinha mesmo — odeio calcinha, sério. Penteei o cabelo, fiz um coque e fui adiantar algumas tarefas: lavei a louça e limpei a cozinha. A Lavínia diz que tenho “toque” para limpeza, mas não é isso; só gosto de tudo limpinho, organizado, nada fora do lugar — só isso.

Quando terminei, preparei suco de laranja. Tinha bolo e fruta, só faltava o pão, pois meus pequenos amam um pãozinho na chapa. Resolvi ir até a padaria comprar.

Peguei minha carteira, passei no quarto dos meus filhos e no da Lavínia para ter certeza de que ainda dormiam — e a bonitona estava dormindo agarrada ao namorado, essa menina não vale nada mesmo.

Saí de casa, tranquei a porta e caminhei em direção à padaria, sentindo logo os olhares dos fofoqueiros. Sei que é por causa da roupa, mas o povo daqui anda mostrando tudo e ninguém fala nada; agora ficam me olhando feio… povinho ridículo!

Eram 7h45 e o sol já estava escaldante. Entrei na padaria e fui até o balcão fazer o pedido.

— Bom dia!

A atendente me mediu de cima a baixo. Ela não gosta de mim, não sei por quê — gente, eu sou um amor, juro!

— Bom dia. O que vai querer hoje?

— Me vê dez pães francês, por favor. — Veja como sou educada, gente.

Ela colocou os pães no saco e me entregou junto com o pedido para eu passar no caixa.

— Mais alguma coisa, flor? — perguntou, me olhando com deboche. Odeio esse jeito, mina louca!

— Não, obrigada pelo ótimo atendimento, querida. — respondi, cheia de sarcasmo.

Fui até o caixa. A moça que atende lá é um amor: mulher linda da porra! Ana Clara é o nome dela, moreninha, com o cabelo cheio de tranças. O sonho dela é abrir um salão aqui na comunidade, e eu apoio de coração.

— Bom dia, Aninha!

Ela me recebeu com um sorriso lindo.

— Bom dia, Vitória! Como você está, gata? Senti sua falta esses dias.

— Trabalhando muito, mas estou bem. E você, como vai?

— Muito feliz! Falei com o meu amor ontem, e ele vem me visitar amanhã.

— Que ótimo, fico feliz por você.

Paguei os pães e fiquei ali batendo um papo com ela. Ana é uma pessoa boa; percebi isso logo no primeiro dia que a conheci. Só tem um defeito: é muito ingênua. Vou ter que dar umas aulinhas para ela aprender a lidar com homem — essas mulheres são tão dependentes! Deus me livre disso. Homem é bom, claro, mas porra, custa ter amor-próprio?

— Ana Clara! Minha mãe não te paga para ficar de papo com os clientes, não! — gritou a outra atendente.

— Não tem ninguém esperando atendimento, Giulia.

— Não quero saber! Se quer conversa, avisa que estou te demitindo!

— Ana, passo lá em casa hoje à noite, tudo bem?

— Claro! E me desculpa por isso…

— Não liga, menina. Até mais!

Me despedi e segui para a saída. Por ironia do destino, esbarrei de repente numa montanha de músculos. Puta que pariu! Para piorar, escorreguei e caí sentada no chão, o saco de pão rasgou e os pães caíram todos. Droga, droga, mil vezes droga!

Fiquei lá jogada no chão, e aquele idiota me olhava com um sorrisinho no rosto… e que sorriso, filha da puta!

— Olha por onde anda, moça! — disse ele, estendendo a mão.

— Não vai pedir desculpas, não?

Ele fez uma careta e me puxou com força, me pondo de pé num instante.

Fiquei tão perto que senti minhas pernas amolecerem, minha garganta secou e juro que fiquei toda corada. Ele ainda segurava minha mão e o cheiro dele era tão bom… Porra, Vitória, no que você está pensando?

Ele se aproximou mais e sussurrou bem baixinho no meu ouvido:

— Me desculpa… Vitória.

Puta que pariu! Juro que senti um arrepio da cabeça aos pés.

Ele me soltou e saiu andando, me deixando ali parada. Que homem! Senti meu corpo todo esquentar. Saí dali sem nem olhar para trás, sem coragem de voltar para comprar pães de novo.

“Pai, me ajuda! Não deixa sua filha fazer nenhuma loucura, por favor.” — rezei baixinho. Não posso complicar ainda mais a minha vida.

Cheguei em casa e tudo estava em silêncio. Resolvi fazer sanduíches de queijo com o pão de forma que tinha, já que os meus filhos não gostavam muito de bolo.

Saí dos meus devaneios ao ouvir batidas na porta. Fui atender e encontrei um rapaz moreno, que eu sabia fazer parte do grupo dos “traficas”.

— E aí, moça? — ele me olhou de cima a baixo, com um sorriso malicioso.

— Algum problema?

— O patrão mandou entregar isso para você. Toma, que estou com pressa!

Ele me entregou um saco cheio de pães e saiu correndo. Fiquei parada até ouvir a voz da Lavínia:

— O que o Marquinhos estava fazendo aqui?

Levantei o saco para mostrar.

— E por que ele veio trazer isso? Me conta logo!

— Ih, não me enche! Toma esses pães e vai preparar o café. Eu vou tomar banho, que daqui a pouco já tenho que sair.

Não deixei ela responder, virei as costas e fui para o meu quarto. Tomei um banho demorado, cuidei do cabelo e depois escolhi a roupa: um vestido canelado de manga curta, na cor preta, com decote em formato de coração, e um tênis branco. Vesti uma lingerie preta, arrumei o cabelo num rabo de cavalo, passei hidratante, meu perfume favorito e uma maquiagem leve com batom vermelho. Me senti linda, e isso era o que importava.

— Porra, Vitória! — exclamou Lavínia quando me viu.

— Minha amiga está uma delícia, né? — brincou LK.

— Com certeza! Você vai mesmo na casa daqueles ricos?

— Vou sim, já conversamos sobre isso.

O Gael apareceu sonolento:

— Mamãe, a senhora vai sair?

— Vou sim, meu amor, mas não demoro. Se comporte, tá bom?

— Tá certo, mamãe!

— E a Mel?

— Ainda está dormindo.

— Já estou indo, meu bem. E você, dona Lavínia, arruma o meu banheiro, por favor!

— Sou sua empregada, não, Vitória?

Mostrei a língua para ela, já pedindo um uber.

Dei as instruções, peguei minha bolsa e sai..

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