Duas semanas depois...
Duas semanas que cheguei aqui em Paraisópolis, e vou te contar: estou fugindo do Grego igual o diabo foge da cruz. Não quero proximidade, não é pela vida que ele leva — não tenho preconceito — mas sim por causa dos meus filhos; não sei qual será a reação dele. Estou tentando criar coragem para falar com ele, pois sei que uma hora ou outra ele vai ligar os pontos. Muita gente já me parou para perguntar se meus filhos eram filhos dele, pois, segundo eles, se parecem muito. E não é mentira.
Contei a Lavínia sobre o Grego ser o pai das crianças; não tinha por que esconder. Além disso, a minha própria reação me entregou: segundo ela, chegou a pensar que eu fosse infartar ali mesmo na mesa. Ela também está com medo da reação dele — e não é para menos, o cara é um traficante, e essa palavra ainda não entra direito na minha cabeça.
A Lavínia me convenceu a trazer as crianças até a pracinha. Segundo ela, não posso deixar meus filhos presos; eles precisam correr, brincar e fazer amizades. Muita gente já me olha torto, acham que sou metida, mas não é isso: sou bem extrovertida, mas essa história tem mexido muito com o meu psicológico, sério. Me fechei muito nos últimos anos e só deixo se aproximar de mim quem eu sinto que tem sinceridade.
Ao chegarmos na praça, avistamos o grupinho dos “traficas”, como a Lavínia costuma chamar. O LK gritou, chamando a nossa atenção, e ela me puxou para ir até lá — mas eu neguei na hora, sem chance.
Sentei-me em um banquinho ali perto, enquanto os meus bebês brincavam com outras crianças. Como é bom vê-los assim. De repente, olho na direção onde está a Lavínia e vejo o Grego saindo com uma expressão nada boa. Agora é sério: o cara é uma tentação, ainda mais de cara fechada… Meu Deus, no que eu estou pensando?
Ele sobe em uma moto que estava estacionada do outro lado da rua. Não consigo tirar os olhos dele, e o meu coração erra uma batida quando percebo que ele também está olhando diretamente para mim. Não consigo desviar o olhar, é mais forte do que eu.
Só volto a mim quando ouço o grito do Gael — meu Deus, parecia que eu estava hipnotizada.
Corro imediatamente até onde estão meus filhos.
— Diga de novo, seu idiota!
— Olha a boca, Gael!
— Foi esse babaca que começou!
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
— ESSE MENINO BATEU NO MEU FILHO! — gritou uma mulher. Odeio quando gritam comigo, ainda mais na presença das crianças.
— Fale mais baixo, que eu não sou surda.
— QUEM É VOCÊ PARA MANDAR EU FALAR BAIXO? DÊ EDUCAÇÃO AOS SEUS FILHOS!
Deixo ela falando sozinha e me aproximo do Gael e da Mel para entender o que houve. O Gael é uma criança bem difícil; já fui chamada várias vezes na escola por causa de brigas com os colegas.
— Vamos, diga para a mãe o que aconteceu — a outra mulher, que não parava de gritar. Já tinha uma roda de gente formada ao redor, só de curiosos, ainda mais com ela chamando tanta atenção.
— Ele ficou rindo de mim porque eu não tenho pai. Não gostei e empurrei ele.
— É verdade, mãezinha. Ele também falou que a mãe dele disse que a senhora é uma… uma… como é que ele falou, Gael?
— Uma qualquer. Não sei o que isso quer dizer, mas sei que é coisa ruim.
— Depois conversamos, está bem?
A Lavínia se aproxima, preocupada:
— O que está acontecendo, menina?
— Fica aqui com eles, que eu vou resolver isso e já volto.
Deixo as crianças aos cuidados dela e volto para o meio da roda, onde a mulher continuava alterada.
— Aí está! Foi o filho dessa mulher aí, Grego! Não dá educação para os filhos e agora o menino vem aqui na pracinha bater nas outras crianças!
— Abaixa a bola, Hellen. Você sabe que não gosto de confusão na minha quebrada, ainda mais por bobagem — responde ele, com a voz firme.
— Bobagem uma ova! Qual é, Grego? Agora está protegendo ela? Não sabia que fazia seu tipo…
Filha da puta escrota! Ela acha que essas palavras me atingem? Mas não me conhece mesmo.
— Primeiro: respeito é bom e eu gosto. Segundo: não tem vergonha não? Olha o tamanho do seu filho e o tamanho do meu. Terceiro: da próxima vez que eu ficar sabendo que você anda falando de mim e dos meus filhos, aí sim você vai conhecer quem eu sou de verdade.
— Você acha que eu tenho tempo a perder falando de você? Me poupe, ridícula!
— Então o seu filho está mentindo, não é? Então você não disse que eu sou uma qualquer e que os meus filhos não têm pai?
Ela me olha com um ar de deboche, sem vergonha nenhuma:
— E se eu disse? Todo mundo já sabe disso.
— Chega, Hellen. Sai daqui. Da próxima vez, você não vai escapar de um castigo bem dado. Fica ligada, você conhece as regras daqui — interrompeu o Grego, com uma voz que não admitia réplica.
— Mas Grego…
— Eu disse para sair!
Ela virou as costas e foi embora, e eu fiquei ali parada, igual uma boba. Não vou mentir: estou com medo. O cara tinha uma expressão que parecia a de um psicopata, e pensei que ali seria o meu fim.
Quando crio coragem para me virar e ir embora, ele me chama:
— Escuta aqui, moça. Sei que é nova por aqui, mas a sua amiga conhece as regras. Nada de confusão. Da próxima vez, vocês duas serão cobradas.
Ele falou e deu as costas. Filho da puta! Se ele não tivesse saído tão rápido, ia me ouvir direitinho.
— E aí, Vitória? O que foi que aconteceu? O Grego não estava com uma cara nada boa — perguntou Lavínia, se aproximando.
— Eu é que não estou com uma cara boa. Aquele babaca acha que tem o direito de me ameaçar e ainda sai virando as costas?
— Ele é só um traficante perigoso, é isso que ele é. amiga, não brinque com a sorte: aquele homem mata até sorrindo.
— Poderia ser até o presidente da República, mas não gostei da forma como ele falou comigo.
— E como você queria que ele falasse? Que chegasse perto e sussurrasse no seu ouvido: “Ah, Vitória, não gosto de confusão na minha favela”? — brincou ela, mudando a voz de propósito.
— Não é uma má ideia — respondo, deixando escapar um sorrisinho. Ela me olha com uma expressão incrédula. — Brincadeira, menina. Vamos embora, chega de confusão por hoje. E vocês dois, vamos ter uma conversa muito séria em casa.
Chegamos em casa e conversei com meus filhos, principalmente com o Gael. Ele ainda é muito pequeno para entender tudo o que está acontecendo. Por incrível que pareça, eles nunca me perguntaram sobre o pai — nem quando ouviam comentários maldosos de outras crianças, nem nas apresentações ou reuniões da escola. Nunca me questionaram. A única coisa que prometi foi que, um dia, eles iriam conhecer o pai. E isso eu vou cumprir; só preciso criar coragem primeiro. Sei que serei julgada, mas não tenho medo do que os outros pensam — só quero o bem dos meus filhos.
Dei-lhes banho, jantamos, depois eles escovaram os dentes e eu contei uma história até que dormissem. Amo esses momentos com os meus bebês.
— Já dormiram? — perguntou Lavínia, entrando no quarto.
— Já, sim.
— E quando é que você vai contar tudo para o Grego?
— Tenho algumas coisas para resolver ainda essa semana. Na próxima semana, falo com ele.
— Melhor falar logo, amiga. Conheço ele há pouco tempo, mas o suficiente para saber que ele é explosivo e odeia mentiras.
— Não estou mentindo, só estou omitindo por enquanto.
— Depois não diga que não avisei! Ele vai te deixar careca de tão bravo.
— Ninguém encosta nos meus cabelos, você sabe muito bem.
— A não ser para puxar na hora do sexo, aí você até gosta, sua safada!
— Menina, faz tanto tempo que já me sinto quase virgem de novo, sério! — respondo, e nós duas caímos na gargalhada. Mas é verdade, nem lembro mais quanto tempo passou.
— Estou só preocupada com você. Antes você não sabia nada sobre ele, e agora está morando justo na favela que ele comanda.
— Vamos mudar de assunto, está bem? Amanhã vou visitar a minha tia.
— Você está brincando comigo, não é?
— Tenho que vê-la. Sei que ela foi muito injusta comigo, mas não consigo simplesmente cortar laço assim.
— Você quer ver ela… ou quer ver aquele babaca do Arthur? — perguntou ela, me olhando com desconfiança.
Não quero nem chegar perto do Arthur. O homem foi um lixo comigo, me usou e me descartou da pior forma possível — jamais vou perdoá-lo.
— Não viaje na história. Não quero vê-lo nem que ele apareça pintado de ouro.
— Vou fingir que acredito, então.
— E pode acreditar mesmo. Guardo muita mágoa do Arthur; ele me fez muito mal e eu quero o mínimo de contato possível com ele e com toda a família dele.
— Mas a sua tia, de certa forma, faz parte dessa família.
— Eu sei, Lavínia… só sinto que ela está precisando de mim.
— Você pode contar comigo para o que precisar. E outra: amanhã não irei trabalhar, fico com os seus pimpolhos.
— Que bom você tocar nesse assunto. Quando é que você ia me contar que pediu demissão? — perguntei. — O que você está fazendo da sua vida, amiga? Por que isso agora?
— O LK disse que eu não preciso mais trabalhar — respondeu ela, e eu fiquei incrédula com suas palavras. — Sério, Vitória, ele disse que vai me dar tudo o que eu precisar.
— Você tem coisa na cabeça, Lavínia! — levantei-me, nervosa. Que mulher burra, meu Deus! — Você estudou, batalhou para chegar onde chegou, e agora vem me dizer que largou o emprego para depender de homem? Que coisa, Lavínia!
— Vitória, vê se me entende…
— Entender o quê? Não dá para entender! Menina do céu, que ideia é essa que você tem na cabeça?
— Ele disse que era o melhor para mim, que o trabalho era muito cansativo. Só não me julgue, amiga.
Dá até vontade de dar uns murros, juro.
— Não estou te julgando, só quero o seu bem. Mas não consigo aceitar essa decisão, e nem me peça para concordar. Já te pedi, já te aconselhei: nunca deixe nenhum homem moldar a sua vida.
— Mas eu o amo, Vitória, e…
Nem deixo ela terminar, dou as costas e vou para o meu quarto. Não consigo aceitar que uma mulher se sujeite a viver dessa forma, dependente e submissa. Se ame primeiro, porra! Primeiro vem a sua independência, o seu trabalho, depois tudo o mais. Não vou deixar a minha amiga se destruir assim, não vou aceitar essa vida para ela — isso eu garanto. Tem horas que a Lavínia merecia uns bons puxões de orelha para ver se entra um pouco de juízo naquela cabecinha.
Tomo um banho demorado, pois estou muito tensa. Visto uma roupa de dormir e me jogo na cama, tentando dormir. Afinal, amanhã é dia de encarar o meu passado de frente.