Coloquei meus óculos e desci a rua da favela. Meu Deus, ia derreter nesse sol! E os fofoqueiros de plantão todos na porta de casa, olhando. Me senti até uma celebridade — será que querem autógrafo ou selfie? Quem sabe, né? Só espero que com o tempo se acostumem com a minha presença.
Ao chegar na barreira, lá estavam os “soldadinhos” todos armados até os dentes, nem sei o nome daquelas armas. Passei por eles ouvindo algumas piadinhas, mas ignorei. Tinha que ir até o ponto mais adiante, pois aqui na frente o carro não poderia parar.
Olhei para o lado e dei de cara com o Grego me encarando fixamente. Abaixei um pouco o óculos, fiz uma cara de deboche, virei as costas e segui andando. O aplicativo avisou que o carro chegaria em dois minutos.
Quando ele apareceu, confirmei a placa e compartilhei minha localização com a Lavínia — tem que confiar, mas sempre desconfiando.
A viagem durou cerca de uma hora e meia. Paguei o motorista e caminhei em direção à enorme mansão da família Alencar. Toquei a campainha e, em pouco tempo, o portão se abriu.
— Bom dia, em que posso ajudar? — me atendeu uma jovem, aparentando ter uns 19 ou 20 anos, olhando-me com curiosidade.
— Bom dia. Gostaria de falar com a Raquel.
— Ela não trabalha mais aqui.
— Como assim?
— Já faz mais ou menos dois anos que ela saiu.
— E os seus patrões, estão?
— Sim, estão todos.
— Então avise que a Vitória está aqui.
— Certo, espere um pouco aqui, não posso deixá-la entrar sem autorização.
— Sem problema, eu espero.
Ela fechou o portão e fiquei ali parada. Alguns minutos depois, a porta da frente se abriu novamente.
— Pode entrar, por favor.
— Obrigada. E pode me chamar de Vitória, tudo bem?
— Claro, Vitória, venha comigo.
Entrei e percebi que nada tinha mudado: tudo continuava do mesmo jeito, exatamente como eu lembrava. Acompanhei a moça até a sala principal e, ao chegar lá, vi a família toda reunida. Se me deixaram entrar, é porque queriam me provocar, conheço muito bem esses babacas.
— Ora, ora… demorou muito para vir atrás de dinheiro, não é? — zombou Jorge, com um sorriso de deboche.
Ignorei suas palavras, não ia me estressar com ele.
— Cadê a minha tia? — perguntei, olhando firme para aquele velho safado.
— Sente-se, Vitória. Vamos tomar um café, relembrar os velhos tempos…
Que cara sem vergonha!
Passei os olhos por todos ali: estavam os dois irmãos de Arthur, dona Flávia, e o meu olhar parou logo nele. Ao seu lado estava Karine — a mesma que ele esfregou na minha cara no dia em que me expulsou daqui, dizendo que eu só servia para satisfazer seus desejos e nada mais. E era essa que ele escolheu para chamar de esposa? Que idiota!
— Eu só quero saber da minha tia. Onde ela está?
— Ela realmente não trabalha mais aqui, Vitória — respondeu dona Flávia, aquela corna orgulhosa, tão arrogante com os outros e nem imaginava que o marido a traía com as próprias funcionárias.
— E para onde ela foi? Só preciso do endereço, é tudo o que quero. E tenho certeza de que o senhor Jorge sabe.
— Ninguém aqui sabe de nada.
— Mas ele sabe, sim, tenho certeza. E vai me passar esse endereço, não vai, senhor Jorge?
Ele me olhou, bufando de raiva, e saiu da sala. Sabia que ia atrás do papel com o endereço.
Ele pensava que eu tinha provas para denunciá-lo, mas não tinha nada — só inventei essa história e o velho acreditou cegamente. Ele tinha tentado me abusar na noite em que tudo veio à tona, tinha um caso com a minha tia e achava que eu tinha gravações disso. Coitado, ia se dar mal mesmo sem precisar.
Ele voltou com um papel na mão, me entregou e não disse nada. Peguei o papel, virei as costas e já ia saindo, quando ouvi sua voz atrás de mim:
— Vitória, nem pense em voltar aqui novamente! Você acha mesmo que eu acreditei nessa história de procurar sua tia?
— Não se preocupe. Se depender de mim, nunca mais ponho os pés nessa casa. — Olhei para a moça que tinha me atendido e avisei: — E você, menina, não caia nas palavras doces desses homens, principalmente naquele ali. — Apontei para Arthur. — Para eles, nós só servimos para usar e depois jogar fora.
Sabia que queriam me humilhar, mas não conseguiam — nunca deixei e não ia começar agora. Povo cheio de dinheiro, se achando melhor que os outros… quero distância desse tipo de gente.
Saí o mais rápido que pude, aquele lugar me fazia mal. Já estava do outro lado da rua esperando o transporte quando um carro preto parou bem na minha frente. Ao abaixar o vidro, me deparei com dois olhos escuros me olhando intensamente. O que esse idiota queria agora?
— O que você quer, Arthur?
— Entra no carro, temos que conversar.
Esse homem só pode ter batido a cabeça em algum lugar!