05 - Hugo Furquim

Hugo Furquim

Anos se passaram desde aquela primeira noite em que a vi.

Ela era uma menina assustada e perdida, implorando por algo que ninguém ali pretendia dar. Eu tinha dezoito anos, era um menino em um corpo de adulto, com um coração que ainda não havia endurecido completamente. Meu pai ainda estava vivo e eu o acompanhava nos negócios como uma sombra relutante, para ser treinado.

Observava sobre o tablado que girava. A Yakuza queria que ela fosse vista por todos os lados. Ela estava apenas de calcinha. Não podia ter mais de doze anos, era pequena demais para o lugar onde estava. Frágil demais para o que estava prestes a acontecer.

Por um segundo, os olhos dela se fixaram nos meus. Vi o terror e o pânico que doeram na minha própria alma.

E, como o menino que ainda era, não consegui fazer nada para ajudá-la. Nem eu, nem meu pai. Apesar de todo o poder que tínhamos naquela noite específica, naquele lugar éramos tão impotentes quanto ela.

Desde então, aquela imagem me persegue. Assombra meus sonhos. Invade meus pensamentos nos momentos mais inoportunos. Sempre me perguntei o que aconteceu com aquela menina de traços tão doces, que claramente não era daquela nacionalidade.

Agora, após tantos anos, a reconheci novamente.

Ela estava acompanhada por alguém que nunca imaginaria ver ao seu lado. O Lobo de Deus a mantinha ao seu lado. O carinho que ele demonstrou naquela noite devia ser a culpa que o consumia pelo que aconteceu à sua filha. Fiquei surpreso ao perceber que aquela menina era Faína Stepanov, a herdeira de uma das famílias mais sanguinárias da Europa.

Havia ido àquela festa para tentar me distrair. Quando a vi lá, estava crescida, transformada e irreconhecível em muitos aspectos, mas ainda assim inconfundível em outros. Ainda tinha os mesmos olhos, que gritavam um vazio enorme em sua alma.

Sua postura era diferente. Ela se movia pelo lugar como uma rainha que comandava tudo ao seu redor para evitar qualquer tipo de ataque.

O mais importante: ela ainda estava viva. Não sabia se havia sobrevivido àquela noite. E agora estava em Cannes prestigiando o evento do ano. E para a minha surpresa, ela é filha do russo Oskar Stepanov.

Olhando para ela, que conversava com Henrique Carter, acompanhado de ninguém menos que Laís Alcântara, filha da famigerada Madame Suíça e Bruno Alcântara, CEO de um império de telecomunicações, me perguntei o que ela estaria fazendo hoje em dia.

As lembranças se afastam quando o barman me serve de mais um gole de uísque e o filho da puta do Jacques senta ao meu lado.

— Estamos na semana de moda… — Jacques mudou de assunto como se nada tivesse acontecido, sem perceber que havia revirado meu peito e exposto sentimentos que mantinha trancados há tanto tempo. — Terá uma festa depois dos desfiles da Maison Miller. Quero que vá até lá e veja se tem alguma chance de se aproximar de mademoiselle Petit. E quem sabe não encontre alguém que o distraia.

Soltei um suspiro curto e amargo, um daqueles que não aliviam nada, mas pelo menos preenchem os pulmões com alguma coisa.

Distração, era isso que eu precisava. Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo todas as noites antes de dormir sozinho em um apartamento grande demais para uma pessoa só.

O que eu realmente queria era algo que nem Jacques, nem ninguém podia me dar.

Queria respostas. Precisava entender o que aconteceu com aquela garota depois que saí daquele lugar. Mesmo a vendo em Cannes, o seu olhar é o mesmo que me recordava de quando a vi nas mãos da Yakuza.

No fundo da minha consciência, existia o desejo impossível de voltar no tempo e fazer diferente. Salvá-la antes que os homens de terno escuro a levassem daquele palco para fazer coisas que me dão nojo só de imaginar.

Mas o tempo não volta. E o arrependimento não salva ninguém.

A festa depois do desfile estava exatamente como imaginava: luxo escorrendo pelas paredes como mel barato, música tocando baixinho para ninguém dançar de verdade, gente bonita demais para ser real flutuando pelo salão, como se tivessem sido contratadas para parecer felizes. Todo mundo sorrindo com a boca, mas os olhos calculando quanto cada pessoa valia. O tipo de lugar onde você pode comprar qualquer coisa, menos autenticidade.

E aí eu a vi.

Ela estava encostada perto da varanda, um pouco afastada dos convidados, como se participasse da festa só por obrigação. Seu cabelo estava mais curto e escuro de quando a vi em Cannes. Não havia um penteado elaborado, ela estava ao natural. Com a postura reta, como se tivesse uma vara de ferro no lugar da coluna. Notei que seus olhos não pediam nada, mas também não ofereciam alguma coisa. Apenas observavam tudo com uma calma que dava frio na espinha. Ela não ria e nem tentava chamar atenção.

Na verdade, parecia que fazia de tudo para afastar os olhares.

E foi exatamente por isso que não consegui tirar os olhos dela.

Caminhei até lá sem pressa, com aquela confiança idiota de quem acha que tem passe livre para entrar em qualquer lugar. Parei a uma distância respeitosa e soltei a pergunta mais direta possível:

— Posso te pagar um drink?

Ela me olhou. Devagar, tipo exame médico completo. Da testa ao queixo, desceu para o pescoço, seguiu para os ombros, braços, mãos e depois subiu de novo. Sem pressa, sem vergonha e sem nenhum interesse aparente.

— Não.

A voz mais seca que pão amanhecido.

Pisquei, pego de surpresa.

— Não?

— Não. — repetiu, como se estivesse falando com alguém surdo.

E virou o rosto, como se tivesse visto um vaso feio no canto da sala, e começou a se afastar. Sem explicação, sem desculpa, sem um “obrigada, mas não”. Simplesmente disse: não.

Fiquei ali parado mais uns segundos, processando o golpe no meu ego. Nenhuma mulher me tratava daquele jeito. Não porque seja bonito ou rico, embora seja as duas coisas, mas porque meu nome em Paris abre portas antes mesmo que eu chegue perto delas.

E ela? Virou as costas e saiu andando, com passos leves e firmes ao mesmo tempo, desaparecendo no meio da multidão como fumaça.

Soltei uma risada baixa e passei a mão no rosto.

— Interessante… — murmurei. — Muito interessante.

Minutos depois, como um idiota atraído por uma lâmpada, a vi de novo. Agora presa numa conversa com um cara alto que falava pelos cotovelos. Ele tinha as mãos gesticulando em todas as direções, sorriso largo demais, voz alta demais e mesmo de longe, dava para ouvir. O clássico tipo que acha que, se falar mais rápido, vai esconder que não tem nada para dizer.

Ela parecia entediada. Seus olhos estavam perdidos em algum ponto atrás do ombro dele. Seus dedos apertam o copo como se quisesse esmagá-lo. Assim como via também uma tensão nos seus ombros. Ela queria sair dali, estava nítido que ela queria estar em qualquer outro lugar do planeta. Mas, por algum motivo, havia decidido ficar.

Senti uma pontada quente no peito. Como se estivesse com ciúme de vê-la com aquele idiota. Mas como poderia sentir ciúmes de um babaca que nem conhecia, por uma mulher que tinha me mandado pastar cinco minutos antes?

Ridículo. Eu sabia disso. Mas era verdade.

Fiquei ali parado observando mais alguns minutos, memorizando o rosto do cara, o corte do terno, tudo. Depois, saí da festa, fui para o ar frio da noite parisiense e encostei na parede de pedra do prédio, fechando os olhos.

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