Mundo ficciónIniciar sesiónBranca Oliveira
O aperto no meu braço cessou tão abruptamente que eu quase caí. Ele me soltou como se só agora tivesse entendido o que a médica dissera.
“Aelyn… quer… ela pediu por… ela?” Ele parecia incapaz de processar. Mas não esperei resposta, entrei correndo no quarto.
Aelyn estava com o lábio roxo, pálida, encolhida, tentando respirar entre soluços. Os monitores estavam acesos como árvores de Natal, gritando todas as músicas ao mesmo tempo.
“Branca…” ela choramingou, esticando os bracinhos para mim.
Meu coração partiu outra vez.
“Pronto, pronto, querida, já passou… já passou. Eu tô aqui, eu tô aqui.” Mas nada funcionava. Nada preenchia o desespero dela. Eu me sentia incapaz naquela função. Talvez o pai dela fosse mesmo o mais indicado.
Os médicos se entreolharam. “Podemos sedá-la até estabilizar. Assim não afetaria tanto o coração.”
“Não!” Minha voz saiu mais alta do que deveria. “Não façam isso. Ela está assustada, só isso… Deem um tempo para nós... deixa eu tentar…”
Eu nem sabia o que tentar. Só sabia que aquela garotinha precisava de algo que não vinha de remédio. Ela precisava de um afago de mãe, e pensei o que eu faria se fosse o Pedro ali.
Olhei para ela e vi meu menino nos dias em que tinha pesadelos, e pareceu natural. Comecei a cantar.
Baixinho. Uma melodia que ainda tinha cheiro do quarto do Pedro, da nossa casa, da nossa vida.
Aelyn me olhou entre soluços. Eu sentei na ponta da cama, sem parar de cantar.
E como se estivesse sendo puxada por um laço invisível, ela começou a rastejar em minha direção, cautelosa por causa dos fios e curativos. Os médicos a guiaram com cuidado.
Até que ela subiu no meu colo.
Eu a segurei com delicadeza, sentindo seu coração martelar contra o meu. E continuei cantando, embalando cada tremida, cada soluço, cada lágrima quente que caía no meu ombro.
Pouco a pouco, o monitor desacelerou. A respiração dela voltou ao ritmo normal e o choro virou apenas um soluço, silenciando logo em seguida, assim como todos os alarmes do quarto.
A equipe inteira parou de falar, como se isso pudesse trazer a toda todo o desespero da menina novamente.
Naquele momento era só eu e ela, e a nossa bolha impenetrável.
Quando o corpo dela relaxou de vez, percebi que os médicos já tinham saído discretamente.
E que a médica chefe estava na porta, acompanhada do pai de Aelyn.Ele falava baixo com a médica, mas seus olhos… estavam presos em mim. Fixos em como eu segurava sua garotinha. Como se tentassem decifrar algo que não fazia sentido no universo dele.
Segurei a menina mais um pouco até sentir seu peso mudar e percebi que finalmente ela tinha adormecido.
Com cuidado, coloquei-a de volta na cama, ajeitei os lençóis, puxei o cobertor até o peito e beijei sua testa, tentando ignorar o nó que queimava no meu próprio peito.
"Fique bem, querida. Não nos assuste mais assim. Está tudo bem, agora." olhei para ela com um carinho imenso, meu peito se apertando.
Me afastei indo direto para a poltrona e peguei a prancheta que deixei ali, e caminhei até parar na frete do pai dela.
"Assina." falei baixo, mas com ódio de ainda ter que olhar na cara daquele idiota. Estiquei a prancheta e a caneta e ele pegou rapidamente e assinou sem tirar os olhos de mim.
A tensão no maxilar dele era quase um segundo monitor apitando. Quando terminou, devolveu a prancheta.
“Fique longe de nós. Isso é uma ordem, senhora.”
Não respondi. Eu não tinha mais energia para ele. Saí antes que minha voz se alterasse e acordasse a menina.
Minha postura ficou firme até eu virar o primeiro corredor e me encostei na parede, tentando recuperar minha essência. Eu não sabia o que tinha acontecido ali. Porque toda vez que eu via aquele homem a gente acaba brigando.
Mas eu tinha que ter tido mais postura. Ele está passando por um momento difícil. Mas eu também estou. Quem ele pensa que era para me acusar de algo tão ridículo assim?
"Quem ele pensa que é? Acha que é o único gostoso do planeta?! Pelo amor de Deus..." Voltei a andar, tentando aliviar toda a tensão que ainda estava em meu corpo.
No meu escritório, coloquei a pasta sobre a mesa, anexei tudo ao prontuário de Aelyn, pronto para ser enviado a central de transplantes.
Então o barulho dos saltos de minha chefe chamou minha atenção.
Clara entrou branca como um papel.
“Branca… do céu… o que você fez?”
Eu me levantei devagar, sem compreender.
“Do que está falando, Clara?”
“Por que arranjou briga com o juiz Cássio Ravelli?”
Eu senti o sangue sumir do meu rosto.
Juiz?
Ele era um juiz?
Ela respirou fundo, como quem tenta preparar a bomba antes de soltar.
“Sinto muito, querida. Mas você está demitida."







