CAP. 3- O Erro do Destino - 15 anos antes

POV/ Heloíse (Lully) 15 – Anos Antes

Sete.

Dizem que é o número da perfeição. Da sorte. De Deus. Para mim, o sete tem gosto de cinzas e chocolate amargo.

Sete de julho de dois mil e sete. Em Zurique na Suíça. Dia Mundial do Chocolate. Eu me lembro do cheiro doce que flutuava nas ruas. Um abraço de açúcar que prometia que nada de ruim aconteceria conosco. Nós éramos os Solberg. Éramos intocáveis.

Eu fecho os olhos e ainda ouço o barulho.

Clack.

O som seco do corpo da minha mãe encontrando o chão frio do salão. A partir daquele segundo, o açúcar morreu. O império do meu pai começou a sangrar. Dinheiro vertendo como sangue para pagar clínicas que prometiam milagres em francos suíços, mas só entregavam silêncio.

Dez dias depois. Dezessete de julho.

O ar em São Paulo estava pesado. Elétrico. Carregado de um presságio que eu aos nove anos, sentia raspar na minha nuca. Estávamos no aeroporto. As passagens da TAM amassadas na mão trêmula do meu pai. Voo 3054.

Deveríamos estar lá.

Nossos nomes estavam na lista. Nossos assentos estavam reservados. Mas minha mãe desmaiou no portão de embarque. Mais uma vez.

Clack.

Perder aquele voo foi a nossa salvação. Perder aquele voo foi a nossa condenação.

Eu me lembro de olhar para a televisão do saguão. Imagens trêmulas. Chamas. O Airbus A320 da TAM não conseguiu parar. Ele atravessou a pista de Congonhas. Ele atingiu aquele prédio de carga. O estrondo não foi físico para mim, foi na alma. Cento e noventa e nove mortos. Cento e noventa e nove destinos encerrados em uma bola de fogo. Menos o meu. Menos o dela. Menos o do meu pai e da minha irmãzinha.

Eu olhei para as mãos do meu pai. Elas tremiam. Eu olhei para o céu escuro de São Paulo.

Eu deveria estar lá. O fogo deveria ter me levado.

O destino cometeu um erro de cálculo, e eu sabia. Eu sentia. A vida, a partir daquele dia, não era mais minha. Era um empréstimo. E o universo é o agiota mais cruel que existe. Ele cobra com juros. Ele cobra com dor.

Viemos para o Brasil atrás do Dr. Castanho. O último fio de esperança. O castelo na Suíça virou hipotecas. A herança virou consultas. As joias da minha mãe viraram quimioterapia. O brilho dos olhos do meu pai virou cansaço profundo. Três anos de uma descida lenta, degrau por degrau, até o porão da miséria.

Até dezessete de julho de dois mil e dez. Três anos exatos desde que o avião da TAM explodiu.

Eu tinha doze anos. A infância era um conceito que eu já não entendia mais. Segurava a mão de Maitê. Ela tinha cinco anos e olhos azuis que perguntavam por que não tínhamos mais chocolate. Estávamos no carro, a caminho do adeus. A UTI estava esperando pelo último suspiro da minha mãe.

O meu vestido é de um branco tão puro que chega a incomodar. As flores vermelhas bordadas na barra... ela me dizia que princesas sempre usam vestidos floridos e sempre sorriem. Minha mãe me deu esse vestido na Suíça. No castelo. Quando o mundo ainda tinha gosto de chocolate e não de poeira. Eu o vesti hoje por ela. Para que ela me visse bonita uma última vez. Para que o câncer não fosse a última coisa que ela se lembrasse.

O destino não se importa com vestidos bonitos.

O asfalto sob o carro treme. O ar cheira a tempestade e gasolina.

O som é de metal se retorcendo, trovões secos anunciando relâmpagos de faíscas. Mas não há chuva. O carro preto é apenas um borrão girando no ar. Um... dois... três... O monstro de ferro se esmaga contra a pilastra da ponte, um impacto que transforma o luxo em sucata em frações de segundo.

O silêncio que se segue é cortado pelo lamento agudo da borracha sendo torturada contra o asfalto, outros carros derrapam ao redor do caos. O cheiro de gasolina e borracha queimada sobe pesado, sufocante. Perto do abismo, o carro repousa de cabeça para baixo, e o único som que resta é o zunido sinistro das rodas que ainda giram no vazio, como o último suspiro de uma fera moribunda

— Fiquem aqui!

Meu pai grita. Maitê chora. O choro dela é agudo. Cinco anos. Ela é pequena demais para o horror.

Eu não sou.

Abro a porta vendo a fumaça à frente. Meus pés batem no asfalto. Quente. Áspero.

— Tem um menino lá dentro!

Alguém grita.

Eu corro. Eu sou a âncora. Eu preciso salvar.

Se eu salvar ele, talvez o universo devolvesse a minha mãe. É um pacto. Precisa ser um pacto.

Eu ajoelho. O vidro corta, a pele do meu braço e arde muito. Sinto o tecido do meu vestido favorito rasgando e os cacos entrando nos meus joelhos. O motorista é uma massa vermelha. Muito vermelho. A mulher com o pescoço num ângulo estranho e o braço esticado. A visão nos bancos da frente é silêncio. Eles são o silêncio mais terrível que já ouvi.

Mas há um menino... Ele está de cabeça para baixo. Os olhos dele estão abertos. Âmbar. Castanhos. Perdidos. O sangue escorre pelo meu braço e tinge outras flores do meu vestido de um vermelho de verdade.

— Ei! Olha para mim!

Eu grito. Seguro a mão dele. É fria. O fogo na parte da frente do capô está se alastrando. Tem fumaça, muita fumaça.

— Minha mãe... meu pai...

E a minha mãe. Ela está na UTI. O relógio está correndo. Cada segundo aqui é um pedaço do adeus dela que eu estou perdendo.

O pânico sobe pela minha garganta como ácido. O coração dele... Coloco a minha mão no peito dele.

Tum-tum. Tum-tum.

O coração dele está batendo mais rápido que o meu. É a única coisa viva no meio do caos. Meu braço sangra sobre a camisa dele.

— Eles querem que você viva!

Eu minto. Ou talvez seja verdade.

Sinto o gosto metálico de sangue e ferro na boca. Meu estômago se contorce como se alguém estivesse enfiando um garfo nas minhas entranhas e girando sem parar. O enjoo é violento, uma vontade de vomitar tudo o que eu ainda não vivi. Se eu ficar aqui com ele e deixar o fogo nos consumir... será que dói menos do que continuar tentando?

Claro que dói. A morte é quente e faminta. Eu poderia simplesmente parar de lutar e morrer aqui. Mas ele não pode morrer. Ele tem um rosto jovem, bonito demais para ser devorado pelas chamas. E eu... eu ainda não estou pronta para o fim.

Espanto os pensamentos de derrota com um sacolejo de cabeça. Preciso que ele foque em mim, não no abismo.

— Não olha para o lado! — minha voz sai rasgada pela fumaça. — Olha nos meus olhos! Só nos meus!

Vejo o reflexo do incêndio dançando no castanho profundo das pupilas dele. É uma imagem hipnótica. Eu puxo. O corpo dele é um peso morto de músculo e desespero contra os meus braços magros. O cheiro de borracha queimada invade meus pulmões, sufocando o oxigênio, mas eu não solto. Se ele for, eu vou junto.

Boom.

O carro cospe fogo. O mundo explode atrás de nós e o impacto nos j**a contra a pilastra. Envolvo a cabeça dele com meus braços, para protegê-lo.

— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui. Olha para mim.

Meu pai me puxa. Ele sempre foi gentil, carinhoso e muito bonito. Mas agora o toque dele é bruto. Ele está me levando embora. Ele leva o menino também para o carro, fala com o policial e partimos. Ele me olha estranho. Arqueia a sobrancelha e tamborila no volante.

No hospital. O cheiro estéril de álcool. O silêncio do corredor.

Tarde demais.

O médico não diz nada, mas o rosto dele diz tudo. Meu pai b**e a cabeça contra o vidro.

Clack.

Ele se vira para mim. Os olhos dele não têm amor. Têm ódio. Ele agarra o meu braço machucado, bem em cima do corte que ainda sangra.

— Culpa sua.

O hálito dele cheira a café e desespero.

— Você o escolheu. Você escolheu aquele estranho e deixou sua mãe morrer sozinha. Você tirou o nosso adeus, Heloíse!

Eu não respiro. Eu não choro.

Eu sou a âncora talvez por isso eu esteja afundando.

Minha avó pega Maitê. Maitê chora por chocolate. Eu choro por oxigênio.

Eu ando pelo corredor como um fantasma. O menino está lá. Sentado no banco de metal. Sozinho. O rosto sujo de fuligem e sangue. Eu tento o consolar. Limpo o canto do meu olho. Minha mão treme.

— Seja forte. O mais forte.

O olhar dele é perdido.

Acho que ele não sente nada.

Mas eu sinto tudo. Meus olhos ardem, minha garganta tem gosto de fumaça. Meus joelhos doem e meu braço está dormente. O meu vestido... preciso jogá-lo fora.

Tiro o colar de prata. O amuleto de sorte.

— Eu ia dar para ela. — Minha voz é um fio prestes a partir. — Mas ela não está mais aqui.  Eu tenho um também, puxo a gola do vestido para baixo e mostro o meu a ele.

Abro a mão dele e coloco a prata. Sinto a pele dele. Arrepia. Cada poro do meu corpo reconhece a alma que eu acabei de arrancar das chamas.

Homens de preto. Carros blindados. Eles o levam como se ele fosse um tesouro ou um segredo. Eu sigo. Ele não diz nada. Não está assustado. Não grita, então não deve ser um problema. Ele não diz obrigado. Mas quando o carro começa a partir, o rosto dele está esmagado no vidro.

— Lully! — O grito dele sai abafado, mas consigo ler os lábios dele. — Eu vou achar você!

Fecho os olhos. A fumaça ainda está nos meus cabelos. Ele tinha que ser a razão do meu arrependimento.

Mas não me arrependo. Eu deveria?

E eu nem sei como ele se chama.

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