Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV/ KILLIAN
15 – Anos Antes
Dizem que, quando você está prestes a morrer, a vida passa diante dos seus olhos. Talvez seja verdade. Eu não vejo fumaça agora. Não sinto o cheiro do sangue.
Eu vejo a primeira vez que meu pai soltou o banco da minha bicicleta. Vejo a primeira vez que fui ao cinema com minha mãe. Vejo o dia em que meu pai ensinou a mim e ao Ethan a nadar; ele nos jogou na piscina e gritou para batermos os pés. Sinto o gosto da água. O cloro. A ardência nos pulmões quando eu a engoli e a respirei.
Sinto o cheiro de farinha. O sorriso da minha mãe no domingo de manhã, fazendo o bolo de laranja que perfumava a casa inteira. Vejo o dia em que descobri que o sobrenome Moretti não era apenas um nome. Era um peso. Uma marca da máfia que eu teria que carregar. Lembro do meu pai nos ensinando a atirar em latinhas. Eu sou bom de mira. Sempre fui.
Lembro do bolo de hoje de manhã. Baunilha. Eu não sabia que o gosto da morte também seria baunilha.
O mundo começa a girar. O asfalto sobe. O céu desce. Vidro. Muito vidro. Meu corpo balança, frenético, para frente e para trás. O som é um trovão de metal se contorcendo. Um grito que não é meu. E então... o silêncio. O silêncio ensurdecedor.
Eu abro meus olhos. O mundo está de cabeça para baixo. Estou pendurado pelo cinto.
— Pai?
Minha voz é um sussurro seco.
— Mãe?
Olho para o lado. Meu pai tem sangue. Muito sangue. Ele parece um boneco quebrado. Olho para a frente. Minha mãe... ela parece estar dormindo. Mas o ângulo do seu pescoço, a forma como a cabeça dela está virada para trás... me diz que ela não vai acordar. Não. Mãe, não.
Deveria doer. Eu vejo os cacos de vidro enterrados na minha perna. Vejo o sangue que escorre da minha têmpora, "preguento", atrapalhando a visão do meu olho esquerdo. Vejo o líquido viscoso e metálico pingando no teto do carro. Mas não dói. É como se meu corpo tivesse ido embora e me deixado aqui. Sozinho.
Um estalo alto. O calor aumenta ainda mais. Laranja. Faminto. O fogo lambe o painel. Ele quer me levar também. Eu choro. As lágrimas correm, mas eu não sinto, só sinto o gosto do sal na minha boca.
Ouço um barulho. Pela janela, aparece um anjo. Ela deve ter dez anos. Talvez mais ou talvez menos. Usa um vestidinho branco com flores vermelhas. O vermelho das flores se mistura com o vermelho do sangue no chão. Eu não sei mais onde termina um e começa o outro.
Ela é pequena. Bochechas gordinhas, como um pão de queijo. Cabelo escuro. E os olhos... meu Deus, os olhos são verdes. O verde mais vivo que já vi em meio a tanto cinza.
Dizem que crianças vão para o céu. Talvez ela tenha vindo me buscar. Meus pais talvez não venham conosco. Eu queria que viessem. Diziam que meu pai era mal, mas comigo ele era bom.
— Mãe... Pai... — Sussurro — Vamos...
Ela enfia o corpo pequeno no carro. O vidro da janela corta o braço esquerdo dela, ela faz uma careta, mas ela não para. Ela me agarra pela gola. Solta a trava do cinto. Eu caio, mas não sinto nada.
— Te peguei.
Ela diz. Vejo a boca dela se mexer, mas o som demora a chegar.
— Vem. Vamos sair daqui.
Eu tento apontar para os destroços.
— Eles... — Não consigo terminar.
— Olha para mim, só para mim. Nos meus olhos, tá?
Eu já estou olhando. Não tem como não olhar. Ela coloca a mão no meu peito. Bem em cima do meu coração. Eu arrepio. Eu sinto algo. Um choque elétrico de vida. Ela faz um sinal com os dedos. Um... dois... três...
— Respira! Venha comigo! — Ela declama — Eles querem que você viva! Eu sei que querem!
— Como você sabe?
Eu soluço.
— Porque minha mãe está no hospital agora. Lutando. Ela quer que eu viva, então seus pais querem que você viva também! — Ela diz enquanto limpa minha testa com a barra do vestido.
As mãos são pequenas. Eu nunca vou esquecer esse toque. Vou me lembrar para sempre. Ela me puxa. O gesto é firme e delicado. Mão de menina, força de gigante. Saímos. O mundo passa acelerado. O carro explode atrás de nós. O calor me empurra, mas ela me segura. Abraça minha cabeça e sussurra:
— Vai ficar tudo bem.
Sou mais velho que ela, tenho certeza. Mas ela cuida de mim. Anjo. Ela é um anjo bondoso. Estou pronto para ir para o céu ou para o inferno desde que seja com ela.
Ela me senta no asfalto. Limpa minhas lágrimas com o polegar, ignorando os cortes nos próprios joelhos e braço. Ela não chora. Ela é um anjo de gelo e fogo.
O pai dela aparece. Percebo que não estou morto. Ela é real. Minha salvadora. Tudo vira um borrão até o hospital. Velocidade 2x. Eu não ouço, não sinto, mas as mãos da menina estão entrelaçadas nas minhas. Estão suando. Mas ela não solta. Por favor, não solte. Não quero mesmo que solte.
O mundo volta a ser cinza no banco frio do hospital. Até que ela volta. Está limpando as próprias lágrimas agora. O brilho verde sumiu um pouco.
— O que foi?
Eu pergunto.
— Chegamos tarde.
Ela sussurra. A voz quebra. Não sinto nada, mas acho que deveria sentir alguma coisa.
— Minha mãe... ela se foi.
Eu olho para ela, horrorizado. Ela salvou minha vida e perdeu o último adeus da mãe. Por minha causa. Não sinto a culpa, mas sei que ela entra no meu peito como uma faca cega me fazendo engolir em seco.
— Você tem que ser forte. — Ela diz como um comando. — Cresça e seja o homem mais forte do mundo.
Eu não consigo prometer que vou ser. Nem sei se estou vivo. Estou vivo, mas é como se estivesse morto.
Ela leva as mãos ao pescoço. O tilintar do metal. Ela abre a minha mão e deposita algo ali. É frio. Atravessa a minha dormência. É um colar. Um nó de prata envelhecida. No centro, uma esmeralda. A cor exata dos olhos dela.
— É o Nó de Shield da minha família.
Ela sussurra.
— Minha mãe dizia que ele protege o coração de quem se perdeu. Eu ia dar para ela... mas agora é seu.
Aperto o pingente. As bordas cravam na minha pele, mas não sinto dor. Só sinto a conexão.
— Quantos anos você tem? — Tenho certeza de que pronunciei as palavras, mas eu não escuto o som da minha própria voz.
— Doze.
— Qual seu nome?
— Pode me chamar de Lully. — Ela diz sorrindo. Ela tem um dentinho torto, mas o sorriso é a coisa mais linda que já vi. Tenho certeza. Eu nunca vou esquecer aquele sorriso. Não mesmo.
Homens de preto aparecem. Me puxam. Gritam "Mestre! Já vamos, mestre!". Me arrastam para longe. O mundo acelera. Carro blindado. Ela me segue até a entrada do hospital. Ela ainda me segue com o olhar mesmo quando sou colocado dentro do carro. Eu colo o rosto no vidro, vendo a silhueta pequena ficar para trás.
— Lully! — Eu grito contra o vidro. — Eu vou te achar! Eu juro!
Fecho os olhos. Meus pais estão mortos. É uma constatação, não uma dor. A lógica me diz que a responsabilidade é minha; eu estava conversando com meu pai e eu o distraí. E Lully... ela perdeu o último adeus à mãe porque escolheu me tirar do fogo. Eu deveria sentir o peso disso, mas o que sinto é o vazio.
Cubro meus ouvidos com as mãos. O mundo lá fora grita, mas aqui dentro não há nada. Silêncio. Um silêncio ensurdecedor que vem de dentro do meu crânio.
Naquela noite, meu corpo desligou. O trauma cortou os fios que me ligavam ao mundo. Os fios de processamento sensorial e emocional do cérebro. Não sinto frio, não sinto medo, não sinto agonia. Sou uma máquina de carne que parou de processar humanidade.
Mas quando ela me tocou antes de sumir na escuridão, ela plantou algo naquele vazio. Uma obsessão. Um motivo.
Eu vou encontrá-la.
Na Máfia, existe uma lei: “Un débito di sangue si paga solo com il sangue” (Uma dívida de sangue só se paga com sangue). Mas o que nasceu em mim é um juramento mais antigo e sombrio: uma vida só se paga com outra vida. No instante em que ela me arrastou daquele carro, nossas existências se entrelaçaram.
Eu pertenço a Lully. Ela é minha. Lully me pertence. Eu sou dela







