CAP. 4 - O Deserto de Vidro

Presente- recente - 16/07- Sexta- feira

POV – Killian

O cheiro de ferro e medo é espesso dentro do galpão. Para qualquer outro homem, o ar seria sufocante. Para mim, é apenas ar.

Meus passos ecoam no concreto em um ritmo constante. Sem pressa. Eu não sinto o frio lá fora e não sinto o calor que o sangue emana aqui dentro. Os médicos chamam isso de lesão no tálamo. Dizem que os fios que ligavam meu corpo ao meu cérebro foram cortados naquele acidente, há quinze anos. Para o mundo, eu morri por dentro, mas meu coração esqueceu de parar de bater.

Eu não morri. Fui desativado.

Eu ainda vejo, ouço e sinto estímulos, mas nada disso chega até mim como reação; chega como informação. A máfia entendeu isso antes de mim. Onde outros travavam, eu avançava. Onde outros hesitavam, eu executava. Não por coragem, mas por ausência de ruído emocional.

Não sou cruel. Sou eficiente.

Não é que eu não sinta raiva ou ódio; eles simplesmente não se manifestam como impulsos. O que chega à minha consciência é a conclusão: clara, fria e inevitável. Se algo ameaça o que é meu, isso não me enfurece. Isso me informa que uma correção é necessária. Minha existência funciona sob regras, não sob sentimentos. A dor é um dado técnico. O medo, um conceito abstrato. Emoções são apenas ruído e meu cérebro aprendeu a operar no silêncio absoluto.

Gastei toda a minha sorte e toda a minha humanidade quando conheci o anjo que me arrancou das ferragens daquele carro.

Lully.

Ethan está me esperando ao lado de três homens amarrados. Ele fuma um charuto enorme, as cinzas caindo sobre seus sapatos caros. Alto e elegante, ele transborda uma confiança que seria insolente para qualquer outro. Se eu ainda fosse capaz de sentir afinidade por alguém, provavelmente seria por ele. Mas afinidade exige afeto, e isso ficou para trás.

Ethan é alguém que eu preservo. Logicamente, ele é vital. Meu Consigliere.

Diante de mim, os três homens estão amarrados. Braços para trás, capuzes na cabeça. O cheiro de urina e suor denuncia o medo que sentem. Patético.

— O que temos aqui, Ethan? — pergunto, parando a um metro deles.

— Três problemas — Ethan aponta para cada vulto. — O da esquerda vazou rotas da L'Eclisse. O da direita era um aliado que tentou nos roubar. E o do meio... — O rosto de Ethan se contorce em um sinal de asco que eu reconheço, mas não compartilho. — O do meio estuprou a irmã de um dos nossos soldados. Uma menina de quinze anos.

Quinze anos.

O número vibra na minha memória como um rádio mal sintonizado. É a única coisa que me causa um desconforto que não sei rotular. Eu deveria sentir repulsa. Não sinto. Mas sei que é o que se espera de um homem de honra.

— Nojento — digo, voltando minha atenção para os vultos ajoelhados: um traidor, um ladrão e um animal.

Eu tento ser um homem ético. Dona Mercedes, a mulher que me criou após o acidente, me ensinou que eu não preciso "sentir" para agir corretamente. A ética é um cálculo. E o cálculo aqui é simples: causa e efeito. Na L’Eclisse Moretti, a ordem é mantida por leis que não abrem precedentes:

Omertà: O silêncio é a nossa base. Quem quebra o segredo, perde a língua e a vida.

A Lei da Palavra: O que foi dito está escrito no sangue. Se eu prometi, eu cumpro. Se você jurou, você entrega.

Lei da Proteção: Mulheres e crianças são intocáveis. Quem desonra uma mulher sob minha bandeira assina o próprio atestado de óbito.

Lei do Consentimento: Tudo é um acordo. O que não é mútuo, é crime.

Lei da Dívida: Un debito di sangue si paga solo con il sangue.

Eu lido com a Moretti Tech. Fachada de vidro, tecnologia de ponta, bilhões lavados em códigos de segurança. Esse é o meu mundo limpo. Mas por baixo, eu sou o Executor da Máfia Italiana. Faço o que os outros tremem ao pensar, simplesmente porque eu não tremo.

Tiro o capuz do primeiro. A pele retinta está cinzenta de pavor, coberta por uma camada brilhante de suor frio. O rosto dele é uma massa de hematomas roxos e inchados. Ele tenta falar, mas o sangue borbulha entre os dentes quebrados, criando uma espuma rosa nos lábios. Atiro entre os olhos dele enquanto ele ainda tenta implorar com o olhar. O som do tiro é um ponto final. Nada. Eu não sinto nada.

Passo para o segundo. O estuprador. Um homem gordo, as dobras do pescoço tremendo enquanto soluça. O peito parece que vai rasgar e o rosto está deformado pelo choro patético. As calças estão ensopadas de urina e o cheiro é fétido. Ele abre a boca para gaguejar uma desculpa, o hálito de medo vindo em ondas. Atiro antes que o hálito dele me atinja novamente.

Antes de prosseguir, o rádio no cinto de Ethan chia. É um relatório da inteligência.

— Killian, o alvo está no jato privado. Acabou de decolar. Mas os relatórios indicam que há três comissários civis a bordo.

Olho para o relógio.

— Se ele escapar, quantas pessoas morrerão com os dados que ele carrega? — pergunto.

— Varias. Ele vai abrir as portas para Vincenzo destruir nossas rotas de suprimentos.

— Três contra centenas — murmuro. — Derrubem o avião.

— Killian, são inocentes... — Ethan avisa, mas não há hesitação em sua voz, apenas a constatação.

— A matemática não tem sentimentos, Ethan. Derrube.

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