Mundo de ficçãoIniciar sessãoO apartamento dos Rossi nunca pareceu tão pequeno.
O cheiro de café velho misturado ao de remédio da mãe impregnava o ar, enquanto a chuva da manhã batia contra as janelas estreitas da cozinha como se o mundo insistisse em lembrar Tiffany de que nem o céu estava disposto a facilitar as coisas.
Ela permaneceu parada diante da mesa por vários segundos, observando as contas acumuladas espalhadas sobre a madeira desgastada. Luz, água, hospital, banco.
Mais uma notificação vermelha.
Mais uma ameaça de corte.
Mais uma dívida impossível de ignorar.
Tiffany fechou os olhos lentamente, pressionando os dedos contra a testa dolorida. Havia semanas que não dormia direito. Talvez meses.
O problema não era apenas dinheiro, era o peso. A sensação sufocante de estar tentando impedir uma casa inteira de desmoronar usando apenas as próprias mãos.
— Você saiu cedo ontem — a voz fraca de Helena surgiu atrás dela.
Tiffany se virou rapidamente.
A mãe estava parada na entrada da cozinha usando um robe claro e segurando a parede discretamente para manter o equilíbrio. O rosto antes cheio de vida parecia mais cansado a cada dia, e aquilo destruía Tiffany de maneiras que ela nunca admitiria em voz alta.
Ela forçou um sorriso imediato.
— Você devia estar descansando.
Helena ignorou o comentário e caminhou devagar até a mesa. Os olhos dela caíram sobre as contas, e o silêncio que veio depois foi pior do que qualquer discussão.
— O banco ligou outra vez? — perguntou baixo.
Tiffany puxou os papéis antes que a mãe pudesse ler os valores.
— Está tudo sob controle.
Mentira.
Helena conhecia aquela mentira desde a adolescência da filha. O mesmo tom firme. A mesma tentativa desesperada de proteger todo mundo ao redor enquanto se destruía silenciosamente.
— Você não precisa carregar isso sozinha.
“Mas alguém precisa.”
A frase ficou presa na garganta de Tiffany.
Porque o pai já não estava ali havia tempo suficiente para que ela parasse de esperar alguma ajuda dele. Porque Ethan ainda era jovem demais para abandonar os próprios sonhos e trabalhar em dois empregos. Porque Helena precisava pensar na própria saúde e não em dívidas.
Então sobrava ela. Sempre ela.
— Hoje tenho uma entrevista — Tiffany disse, mudando de assunto enquanto guardava os papéis numa pasta. — Talvez seja algo fixo dessa vez.
Helena tentou sorrir, tentou. Mas havia culpa em seus olhos. Uma culpa profunda, silenciosa, impossível de esconder.
— Seu pai nunca deveria ter deixado tudo chegar nesse ponto.
O nome dele atravessou o ambiente como um vidro quebrando.
Tiffany sentiu o maxilar endurecer imediatamente.
— Não começa.
— Ele era um bom homem antes de...
— Antes de destruir a própria família?
Helena baixou os olhos.
Um arrependimento instantâneo atravessou Tiffany, mas não o suficiente para apagar a exaustão acumulada dentro dela. Ela odiava falar daquele jeito, odiava quem estava se tornando. Mas existia um limite para quantas vezes alguém podia juntar os pedaços da própria vida sem começar a sangrar também.
Antes que o silêncio se tornasse ainda mais pesado, Ethan apareceu na cozinha usando fones no pescoço e uma expressão sonolenta.
— O cheiro de tragédia emocional chega até o corredor — murmurou.
Tiffany lançou um olhar de advertência e ele ergueu as mãos em rendição.
— Certo. Humor inadequado. Entendido.
Apesar de tudo, Helena acabou sorrindo de leve.
Ethan aproximou-se da irmã e roubou uma torrada do prato dela.
— Você vai naquela entrevista hoje?
— Vou.
— E vai fingir que não está à beira de um colapso nervoso?
— Isso faz parte do currículo corporativo.
Ele riu baixo.
Tiffany gostava daquilo, da facilidade que Ethan tinha para aliviar ambientes pesados sem perceber. Era uma habilidade rara, uma que ela perdera fazia muito tempo.
O celular vibrou sobre a mesa.
Número desconhecido.
Ela atendeu esperando outra cobrança.
— Senhorita Rossi? — uma voz feminina elegante perguntou do outro lado da linha. — Aqui é da Lancaster Capital.
O nome atingiu Tiffany como água gelada, e ela imediatamente se lembrou do homem do hotel.
Dos olhos cinzentos.
Da arrogância silenciosa.
Da sensação irritante que ele deixara nela.
— Acho que houve algum engano — respondeu fria.
— O senhor Noah Lancaster gostaria de marcar uma reunião com você esta tarde.
O silêncio congelou dentro da cozinha.
Ethan ergueu as sobrancelhas.
Helena franziu a testa discretamente.
Tiffany apertou o telefone com mais força.
— Eu não tenho nenhum assunto com Noah Lancaster.
— Ainda assim, ele insiste.
Claro que insistia. Homens como ele sempre acreditavam que podiam controlar o rumo das coisas.
— Não estou interessada.
A mulher hesitou antes de responder:
— Senhorita Rossi... a reunião envolve uma proposta relacionada às dívidas da sua família.
Aquilo foi o suficiente para destruir o pouco equilíbrio emocional que restava nela naquela manhã. A humilhação queimou lentamente em seu peito.
Então era isso, caridade corporativa... ou pior!
Ela conhecia aquele tipo de homem, bilionários adoravam brincar de salvadores quando estavam entediados.
— Diga ao senhor Lancaster que não preciso da piedade dele.
Desligou antes de ouvir qualquer resposta.
O silêncio seguinte foi imediato. Pesado.
Helena parecia preocupada e Ethan parecia curioso.
Tiffany parecia prestes a explodir.
— O que Noah Lancaster quer com você? — Ethan perguntou.
— Não faço ideia.
Mas no fundo ela sabia. Poder, controle, talvez diversão. Talvez apenas mais um jogo empresarial envolvendo pessoas desesperadas. E ela se recusava a ser transformada em estatística na vida de alguém como ele.
Ainda assim... As palavras da atendente continuavam ecoando em sua cabeça.
“Relacionado às dívidas da sua família.”
O banco daria no máximo mais algumas semanas antes da execução judicial, tratamento da mãe já estava atrasado e o seu dinheiro mal cobria o aluguel daquele mês. Orgulho não pagava contas.
A percepção veio amarga.
Cruel.
Humilhante.
Tiffany respirou fundo e pegou a bolsa sobre a cadeira.
— Preciso ir.
Helena segurou delicadamente seu braço antes que ela saísse.
— Filha...
Ela virou o rosto.
Os olhos da mãe estavam marejados.
— Não aceite nada que faça você se odiar depois.
A frase a acompanhou até o corredor do prédio, até o elevador antigo, até a rua molhada e barulhenta de Manhattan. Porque, pela primeira vez na vida, Tiffany não tinha certeza de qual linha ainda conseguiria se recusar a cruzar.
O último andar da Lancaster Capital parecia pertencer a outro universo.
Silencioso.
Luxuoso.
Frio.
Os corredores de vidro refletiam uma perfeição quase clínica, e cada funcionário que passava parecia treinado para não demonstrar emoções desnecessárias. Tiffany odiou aquilo instantaneamente.
Uma assistente elegante a conduziu até portas duplas enormes no fim do corredor.
— O senhor Lancaster está esperando.
Claro que estava.
Ela entrou sem bater.
Noah ergueu os olhos dos documentos sobre a mesa no exato instante em que ela apareceu, com o mesmo terno impecável, com a mesma expressão controlada. A mesma presença irritantemente dominante. Mas ali, dentro daquele escritório gigantesco com vista para a cidade inteira, ele parecia ainda mais perigoso. Como alguém acostumado a decidir destinos apenas assinando papéis.
— Senhorita Rossi — ele disse calmamente.
— Você tem uma forma bem invasiva de marcar reuniões.
Noah fechou a pasta à frente dele sem desviar o olhar.
— E você tem uma forma interessante de recusar oportunidades sem ouvi-las primeiro.
— Chamar isso de oportunidade é otimista.
Ela permaneceu de pé.
Não queria parecer confortável naquele lugar. Não queria que ele percebesse o quanto tudo ali a fazia sentir pequena.
Noah observou cada detalhe silenciosamente:
a postura defensiva, o orgulho evidente, a tensão escondida atrás da firmeza.Ela parecia alguém tentando permanecer inteira enquanto o mundo puxava seus pés para o fundo. E isso era perigosamente familiar.
— Sente-se — ele pediu.
— Prefiro ficar em posição de fuga.
Aquilo quase arrancou outro quase-sorriso dele.
Quase.
Noah entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— Vou direto ao ponto. Sua família está à beira da falência completa.
Tiffany endureceu.
— Eu já sabia. Obrigada pelo relatório financeiro gratuito.
— O banco vai executar os bens restantes em menos de um mês.
Ela não respondeu, porque ele estava certo. E ouvir aquilo da boca dele parecia ainda pior.
Noah continuou:
— Sua mãe precisa continuar o tratamento médico.
Agora ela o encarou de verdade e a frieza atravessou o seu corpo inteiro.
— Você investigou minha família?
— Eu faço isso com qualquer assunto que envolva meu nome.
— Que reconfortante.
Ele ignorou o sarcasmo.
— Preciso de uma esposa.
O silêncio caiu brutalmente entre os dois.
Tiffany piscou lentamente.
Uma vez.
Duas.
Então riu, não porque achasse engraçado. Mas porque a alternativa seria jogar alguma coisa nele.
— Você é completamente insano.
Noah permaneceu impassível.
— É um contrato.
Aquilo só piorou tudo.
— Claro que é.
Ela começou a andar pelo escritório tentando processar o absurdo daquela conversa.
— Espera. Você me chama até aqui, invade minha vida, investiga minha família e então decide me propor um casamento como se estivesse negociando ações?
— Essencialmente, sim.
Tiffany soltou uma risada incrédula.
— Você realmente não sabe conversar como um ser humano normal.
Os olhos cinzentos dele permaneceram fixos nela.
— Emoções costumam atrapalhar negociações eficientes.
— E eu costumava achar que os boatos sobre você eram exagerados.
Pela primeira vez, algo mudou minimamente na expressão dele.
Não raiva, algo mais frio. Mais profundo.
— Você precisa de dinheiro. Eu preciso cumprir uma cláusula contratual do testamento do meu avô. Esse acordo resolve os problemas dos dois.
Ela sentiu o estômago embrulhar. Não era apenas arrogância, era a naturalidade cruel com que ele transformava casamento em transação. Como se sentimentos fossem irrelevantes e como se pessoas fossem apenas peças substituíveis.
— E se eu disser não?
Noah sustentou o olhar dela em silêncio por alguns segundos.
— Então sairá por aquela porta e continuará lutando sozinha.
A verdade nunca soara tão ofensiva, Tiffany odiou aquilo.
Odiou ele.
Odiou o fato de que, pela primeira vez, não tinha certeza se podia se dar ao luxo de recusar.







