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Cláusulas do Destino
Cláusulas do Destino
Por: Tamara Arianne
PRÓLOGO - Encontro desagradável

A chuva caía pesada sobre Manhattan naquela noite, transformando as avenidas em rios de luzes distorcidas e reflexos trêmulos. Dentro do luxuoso salão do Hotel Beaumont, porém, nada parecia pertencer ao mundo real. O mármore brilhava sob lustres dourados, taças tilintavam discretamente e homens milionários sorriam uns para os outros como se negócios fossem apenas outra forma sofisticada de guerra.

Tiffany Rossi odiava aquele lugar.

O vestido preto que usava não era dela. Os saltos machucavam seus pés. E o sorriso educado preso em seu rosto começava a doer mais do que qualquer outra coisa naquela noite.

Ela ajustou discretamente a pulseira simples no pulso, a única coisa que ainda parecia de verdade em meio àquele ambiente sufocante. Estava ali apenas porque Sophia insistira. Um evento beneficente, contatos importantes, talvez alguma oportunidade de trabalho. Era o que a amiga dizia.

Na realidade, Tiffany só conseguia pensar nas contas acumuladas sobre a mesa da cozinha, nos remédios da mãe e na ligação ignorada do banco naquela manhã.

Ela não pertencia àquele mundo.

— Você está com cara de quem quer incendiar o salão — Sophia murmurou ao lado dela, segurando uma taça de champanhe.

— Estou considerando.

Sophia riu, mas Tiffany não.

Seu olhar vagou pelo ambiente até parar involuntariamente em um homem cercado por executivos próximos ao bar principal. Alto, impecavelmente vestido e perigosamente calmo.

Havia algo perturbador na forma como ele ocupava espaço sem precisar fazer esforço. As pessoas pareciam se mover ao redor dele com cuidado quase instintivo.

Noah Lancaster.

Ela o reconheceu imediatamente, todo mundo reconhecia.

O homem estampava revistas de negócios como um símbolo moderno de poder absoluto. Jovem demais para comandar um império daquele tamanho. Frio demais para parecer humano nas entrevistas.

O Homem de Gelo.

Tiffany desviou o olhar no mesmo instante. Homens como aquele costumavam destruir tudo ao redor sem sequer perceber.

— Não olha agora — Sophia comentou, divertida —, mas parece que o CEO bilionário acabou de notar você.

— Ótimo. Mais um problema financeiro impossível de alcançar.

Sophia soltou uma risada baixa, mas Tiffany já sentia o desconforto subir lentamente pela nuca porque ele realmente estava olhando. E não era um olhar casual, Noah a observava como se tentasse decifrar algo irritante.

Aquilo a incomodou imediatamente.

Do outro lado do salão, Noah sustentou o olhar por alguns segundos antes de desviar a atenção para o homem que falava ao seu lado sobre ações internacionais. Não ouviu uma palavra sequer.

A mulher perto das janelas parecia deslocada naquele ambiente sofisticado, e talvez fosse exatamente por isso que ela chamara a sua atenção. Ela não sorria da maneira artificial que todos ali sorriam, não parecia impressionada e nem interessada.

Parecia... irritada. E Noah estava acostumado a ser desejado, bajulado ou temido. Nunca ignorado.

— Lancaster? — o diretor financeiro chamou outra vez.

Noah voltou à realidade com expressão impaciente.

— Resolva isso amanhã.

Sem esperar resposta, caminhou até o bar. Pegou um copo de uísque e tentou ignorar a estranha sensação de inquietação crescendo em seu peito.

Sentimentos eram inconvenientes.

Curiosidade era inconveniente.

Ele havia passado anos aprendendo a eliminar qualquer distração emocional da própria vida. Então por que continuava olhando para ela?

Tiffany percebeu sua aproximação antes mesmo de vê-lo parar ao seu lado. O perfume amadeirado foi o primeiro aviso. O silêncio ao redor, o segundo.

Ela ergueu os olhos lentamente.

De perto, Noah Lancaster parecia ainda mais inacessível. Os olhos cinzentos carregavam uma frieza quase ofensiva, como se estivesse constantemente avaliando o valor das pessoas ao redor.

Ela instantaneamente o detestou.

— Senhorita Rossi — ele disse, em tom baixo e controlado.

Tiffany franziu a testa.

— Nós nos conhecemos?

— Não oficialmente.

A resposta foi suficiente para piorar sua irritação.

— Então você tem vantagem na conversa. O que é um pouco invasivo.

Por um breve segundo, algo próximo de surpresa atravessou o rosto dele. As pessoas normalmente tentavam agradá-lo, e ela parecia pronta para expulsá-lo dali.

— Seu pai trabalhou com uma empresa associada à Lancaster Capital há alguns anos — Noah explicou.

O estômago de Tiffany se contraiu imediatamente.

Claro, sempre acabava voltando para aquilo. As dívidas, a falência, a vergonha.

Ela cruzou os braços numa tentativa automática de defesa.

— Se veio cobrar alguma coisa, já existem advogados suficientes fazendo isso.

Noah percebeu a mudança instantânea em sua postura. A rigidez. O orgulho ferido escondido atrás da ironia.

Interessante.

— Não estou interessado nas dívidas da sua família.

— Então devia aprender a não abordar estranhas mencionando os problemas financeiros delas.

A resposta veio afiada.

Direta.

Quase insolente.

E, estranhamente, Noah sentiu vontade de sorrir.

Mas não sorriu.

— Você sempre reage assim quando alguém tenta conversar?

— Só quando a pessoa se apresenta como uma ameaça corporativa em forma humana.

Agora foi impossível esconder completamente a reação. Um leve movimento no canto da boca, pequeno demais para ser chamado de sorriso.

Tiffany percebeu e aquilo a irritou ainda mais. Havia arrogância nele. Não a arrogância barulhenta dos homens ricos que precisavam provar poder, mas algo pior. A arrogância silenciosa de quem tinha certeza de que o mundo acabaria cedendo. Ela odiava aquele tipo de homem.

Noah apoiou o copo no balcão.

— Você parece desconfortável aqui.

— E você parece confortável demais.

Os olhos dele escureceram minimamente. Pela primeira vez em muito tempo, alguém o atingia sem sequer tentar. Aquilo deveria irritá-lo. Em vez disso, despertava interesse. O problema era que interesse nunca vinha sozinho, e Noah Lancaster havia aprendido da pior forma possível que tudo aquilo que despertava emoção acabava se tornando fraqueza.

— Foi um prazer conhecê-la, senhorita Rossi.

A formalidade da despedida soou quase fria demais, como uma porta sendo fechada.

Tiffany sustentou o olhar dele sem recuar.

— Duvido disso.

Por um instante, o salão inteiro pareceu desaparecer ao redor dos dois. A tensão ficou suspensa entre eles... desconfortável, elétrica, inexplicável. E então Noah se afastou, sem olhar para trás.

Tiffany soltou o ar lentamente apenas quando ele desapareceu entre os convidados, seu coração estava acelerado, e isso a irritava profundamente.

Porque homens como Noah Lancaster representavam exatamente tudo que ela desprezava:

controle, poder, frieza, e a capacidade cruel de transformar pessoas em peças úteis. Ela prometeu a si mesma nunca mais cruzar o caminho dele.

Do outro lado do salão, Noah observou discretamente o reflexo dela no vidro das janelas. E pela primeira vez em anos, teve a sensação incômoda de que aquele encontro insignificante mudaria alguma coisa.

Talvez tudo.

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