Mundo de ficçãoIniciar sessãoTiffany deixou a Lancaster Capital com a sensação sufocante de que o ar de Manhattan havia ficado pesado demais.
A chuva ainda caía fina sobre a cidade, mas ela mal percebeu enquanto caminhava rápido pela calçada movimentada. Sua mente continuava presa dentro daquele escritório silencioso, revivendo cada palavra dita por Noah Lancaster.
“Preciso de uma esposa.”
A naturalidade absurda da frase fazia seu estômago revirar outra vez.
Ela atravessou a rua sem esperar o sinal abrir completamente, ignorando as buzinas irritadas atrás de si. Precisava se afastar daquela sensação antes que explodisse.
Casamento.
Contrato.
Cláusula.
Tudo nele parecia mecânico demais. Calculado demais. Como se emoções fossem detalhes inconvenientes que ele aprendera a eliminar da própria vida.
E talvez tivesse mesmo.
Tiffany entrou em uma cafeteria pequena na esquina da Lexington Avenue apenas para escapar da chuva e recuperar o controle antes de voltar para casa. O lugar estava quase vazio naquela hora da tarde. O cheiro de café fresco e canela trouxe um conforto momentâneo que ela não percebia o quanto sentia falta. Ela se sentou perto da janela e apoiou os cotovelos sobre a mesa.
Seu celular vibrou imediatamente, era Sophia.
— Você sumiu do planeta depois do evento — a amiga disparou assim que Tiffany atendeu. — E pela sua voz, imagino que esteja considerando cometer um crime.
Tiffany soltou o ar devagar.
— Noah Lancaster quer se casar comigo.
O silêncio do outro lado durou três segundos.
Então:
— Certo. Acho que perdi uma temporada inteira da sua vida.
— É um contrato.
— Ah. Agora faz mais sentido. Menos preocupante emocionalmente. Mais preocupante criminalmente.
Apesar de tudo, Tiffany acabou rindo fraco.
Sophia percebeu imediatamente.
— Espera… você está considerando?
A pergunta atingiu exatamente o ponto que ela tentava evitar desde que saíra daquele prédio. Porque não queria considerar, mas precisava.
— Não tenho escolha.
— Sempre existe escolha.
— Não quando o banco está prestes a levar sua casa e sua mãe precisa continuar um tratamento que você não consegue pagar.
O silêncio voltou, mais delicado dessa vez.
Sophia conhecia os limites do orgulho de Tiffany. Sabia o quanto ela odiava depender de qualquer pessoa. Principalmente de homens como Noah Lancaster.
— O que exatamente ele quer em troca? — perguntou mais calma.
— Um casamento de fachada. Um ano. Aparências perfeitas. Depois cada um segue a própria vida.
— Isso parece o início de um thriller psicológico.
— Parece um pesadelo.
E era exatamente assim que Tiffany se sentia. Porque, no fundo, a proposta fazia sentido demais. Dinheiro suficiente para salvar sua família, tratamento garantido para Helena, tempo para reorganizar a própria vida. Tudo resolvido através de uma assinatura.
Aquilo deveria ser simples, mas não era. Porque Noah Lancaster não parecia um homem que fazia algo sem cobrar um preço invisível depois.
Noah observava a cidade através da parede de vidro do escritório quando Damian Keller entrou sem anunciar a própria presença.
— Ela recusou? — o advogado perguntou.
— Ainda não.
Damian aproximou-se devagar, colocando uma pasta sobre a mesa.
— Você realmente pretende fazer isso?
Noah permaneceu em silêncio por alguns segundos.
A chuva deslizava lentamente pelas janelas do outro lado da cidade.
— Eu preciso cumprir a cláusula até o fim do trimestre.
— Existem dezenas de mulheres dispostas a aceitar um acordo assim sem questionar nada.
— Esse é exatamente o problema.
Damian arqueou uma sobrancelha.
Noah finalmente virou-se.
— Mulheres interessadas demais costumam trazer complicações.
— E a senhorita Rossi não?
Um breve silêncio atravessou a sala.
Noah lembrou do olhar dela, da resistência imediata. Da maneira como enfrentava tudo de frente mesmo claramente estando desesperada.
Orgulhosa.
Impulsiva.
Difícil.
Perigosamente autêntica.
— Ela não parece impressionada por dinheiro — Noah respondeu por fim.
Damian quase sorriu.
— Então você escolheu a única mulher em Manhattan capaz de dizer não para você.
Os olhos de Noah escureceram minimamente.
— Isso não é um jogo de ego.
Mas até ele percebeu como a frase soou pouco convincente. Porque parte dele continuava irritada pelo modo como Triffany o olhara: como se enxergasse exatamente o tipo de homem que ele passara anos tentando se tornar.
Frio.
Controlado.
Intocável.
E o pior era que ela não estava errada.
Damian abriu a pasta sobre a mesa.
— Seu pai descobriu sobre a cláusula do testamento.
A expressão de Noah endureceu imediatamente.
— Como?
— Arthur Lancaster sempre descobre tudo.
Claro, seu pai tratava informações como armas. E Noah sabia exatamente o que aquilo significava...
Pressão.
Interferência.
Manipulação.
Damian observou o amigo cuidadosamente antes de continuar.
— Ele marcou um jantar amanhã à noite.
Noah soltou uma risada baixa e sem humor.
— Que conveniente.
— Ele acha que você está demorando demais para resolver isso.
“Isso.”
Como se casamento fosse apenas mais um item corporativo. Talvez fosse exatamente assim que Noah também estivesse tratando a situação, a diferença era que ele nunca fingira o contrário.
Naquela noite, Tiffany encontrou Helena dormindo no sofá da sala. A televisão ligada sem volume iluminava fracamente o ambiente pequeno enquanto receitas médicas permaneciam espalhadas sobre a mesinha de centro. Ela se ajoelhou devagar ao lado da mãe e puxou a manta sobre seus ombros, Helena acordou no mesmo instante.
— Você voltou tarde.
— Desculpa.
A mãe segurou delicadamente sua mão.
— Como foi a entrevista?
Tiffany hesitou.
Mentir parecia impossível, mas dizer a verdade parecia pior.
— Estranha.
Helena percebeu imediatamente o peso escondido naquela resposta.
— O que aconteceu?
Tiffany desviou os olhos.
— Recebi uma proposta.
— De emprego?
Ela quase riu da ironia cruel daquilo.
— Mais ou menos.
Helena permaneceu esperando. Então Tiffany finalmente disse:
— Noah Lancaster quer se casar comigo.
O silêncio que veio depois pareceu interminável. A mãe piscou lentamente, tentando entender.
— Casar?
— Contrato. Um ano. Sem envolvimento emocional.
Helena ficou pálida.
— Isso é absurdo.
— Eu sei.
— E você recusou… certo?
Tiffany não respondeu imediatamente.
E foi exatamente isso que assustou Helena.
— Filha…
— O que eu faço, mãe?
A pergunta saiu mais frágil do que ela gostaria.
Mais cansada.
Mais humana.
Os olhos de Helena marejaram instantaneamente, porque aquela não era apenas uma decisão difícil. Era desespero, era o mundo empurrando sua filha contra uma parede até que restassem poucas saídas.
— Eu não quero que você destrua sua vida por nossa causa.
— Não é só por vocês.
Mas era. Em grande parte, era.
Helena segurou o rosto da filha com carinho.
— Dinheiro nenhum vale sua felicidade.
Tiffany queria acreditar nisso, queria muito. Mas felicidade parecia um luxo distante quando até continuar respirando já exigia esforço.
Naquela noite, ela demorou horas para dormir. E quando finalmente conseguiu, sonhou com olhos cinzentos observando-a friamente enquanto ela assinava alguma coisa que não conseguia ler.
Noah Lancaster não sonhava havia anos. Mas naquela madrugada, acordou inquieto. O apartamento luxuoso permanecia mergulhado em silêncio absoluto, nenhum som além da chuva distante contra os vidros.
Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até o bar particular próximo à janela, serviu-se de uísque sem acender as luzes. A cidade brilhava abaixo dele como um organismo vivo e indiferente. Quando era mais novo, costumava acreditar que poder traria paz, controle, segurança.
Mas o topo era apenas silencioso.
Frio.
Solitário.
Seu olhar caiu involuntariamente sobre a pasta deixada por Damian mais cedo.
“Contrato Matrimonial.”
Tudo já estava preparado, bastava a assinatura dela.
Noah tomou um gole lento do uísque, e então percebeu algo irritante: Pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza absoluta sobre uma decisão. E isso o incomodava mais do que deveria.







