HELLEN
O apartamento silencioso engoliu-me assim que a porta se fechou. A elegância do lugar, escolhida a dedo por um decorador pago por Dante, agora parecia uma zombaria. Tudo era frio, perfeito e morto. Como o meu casamento.
A bolsa caiu no chão com um baque surdo. Tirei os saltos altos e os arremessei contra a parede, sentindo um prazer doentio no som do couro batendo contra o gesso. Não foi suficiente. Nada seria suficiente para apagar a imagem que estava queimada atrás das minhas pálpebras: a mão dele na cintura dela. A possessividade daquele gesto. A intimidade que transbordava mesmo a distância.
Tremendo, peguei o celular. As letras dançavam na tela, borradas pelas lágrimas de raiva que eu me recusava a derramar. Digitei, meus dedos desobedientes batendo com força no vidro:
Preciso de você.
Enviei. Não havia necessidade de mais. Ele viria. Ele sempre vinha.
Na cozinha, abri a geladeira e peguei a primeira garrafa que vi. Um vinho branco caro, ácido e gelado. Não procurei uma ta