CAPÍTULO 2 — O CASAMENTO.

YAKOV MIKHAILOV-BREC

Eu me sinto estranhamente calmo.

O terno branco está impecável — corte italiano, tecido leve para suportar o calor infernal do México, gravata fina de seda preta que contrasta com a camisa. Olho-me no espelho da suíte do hotel pela última vez antes de sair: barba aparada, cabelo penteado para trás, olhos azuis-acinzentados que não revelam nada do que sinto por dentro. Vasily está ao meu lado, ajustando a lapela do meu paletó, sorriso torto no rosto.

— Nervoso? — pergunta ele, meu “tri”, como Darya e eu o chamamos desde crianças.

— Até que não — respondo, voz firme. — Ansioso, na verdade. Por conhecer a minha futura esposa… de verdade.

Ele revira os olhos, mas sorri.

— Você já a conheceu ontem à noite. E pelo jeito que ela saiu do seu quarto hoje de manhã, acho que a “conheceu” bem.

Eu rio baixo, lembrando da noite passada. Do bar. Da dança. Do beijo que começou lento e terminou selvagem. Do quarto de hotel onde ela se entregou sem hesitar, sem saber que eu era o noivo que ela odiava desde que soube do acordo. Ela queria perder a virgindade antes do casamento — um plano de rebeldia que eu entendi no momento em que percebi quem ela era. Audreen Marie Gonçález. A filha do Capucha, Santiago. Minha noiva.

— Ela não sabia quem eu era — digo, ajustando o relógio no pulso. — E eu não disse. Foi… interessante.

Vasily balança a cabeça.

— Você é louco. E ela vai te matar quando descobrir. Ou quando perceber que o cara do bar é o mesmo cara do altar.

— Ela vai descobrir agora — respondo, olhando para o relógio. — Faltam 40 minutos para a cerimônia.

Saímos do hotel. O carro blindado espera na entrada, soldados discretos ao redor. Entramos. Vasily ao meu lado, dois homens na frente. O silêncio é pesado, mas confortável — o silêncio de irmãos que se conhecem desde sempre.

— Sabe que tem outra maneira de você conseguir conquistar uma aliança com eles e descobrir onde ele mantém as mulheres e crianças que trafica — diz Vasily, olhando pela janela. — Sem casamento. Sem essa loucura.

Eu suspiro.

— Não vou retroceder agora. Estou tranquilo quanto ao casamento e acredito que posso fazer dessa união um matrimônio bem-sucedido.

Ele me olha, sério.

— Você acredita que pode ser feliz casado com alguém que não ama? Que foi escolhida pelo pai dela e pelo nosso?

— Eu acredito que posso aprender a amar. Ou pelo menos respeitar. E se não der certo… bem, pelo menos vou estar perto para destruir o império do Capucha por dentro. Negócios são negócios, Vas. Mas tráfico de mulheres e crianças? Isso a gente não aceita. E o que melhor do que ser parte da família dele para descobrir todos os segredos sujos?

Vasily assente devagar.

— Então tudo bem. Te desejo sorte e toda a felicidade do mundo.

— Obrigado — respondo, apertando o ombro dele. — Seu apoio é muito importante para mim.

Ele sorri, pisca.

— Mas sabe que precisará mais do que sorte quando Darya e mamãe souberem que se casou sem a presença delas.

Eu rio.

— É, provavelmente precisarei. Conhecendo as duas.

O carro para em frente à igreja pequena na praia. O calor é sufocante — o México não perdoa. Soldados nossos e do Capucha estão posicionados discretamente. Entramos. A capela está quase vazia: alguns familiares dela, soldados de ambos os lados, ninguém da minha família além de Vasily. Quinze minutos depois, a Marcha Nupcial começa.

A mãe da noiva entra primeiro. Uma mulher bonita, madura, olhar frio. Ela me acena educadamente. Eu retribuo.

Cinco minutos depois, Audreen entra ao lado do pai. O véu cobre o rosto completamente, mas o corpo… o corpo eu reconheço. Vestido sereia branco, justo, decote tomara-que-caia, curvas que eu toquei ontem à noite. Meu corpo reage imediatamente — desejo misturado com algo mais profundo.

O pai dela a puxa com força quando ela para no meio do corredor, olhando para mim. Ela levanta o rosto, olhos arregalados sob o véu. Santiago a puxa de novo, sem gentileza. Eu fecho os punhos ao lado do corpo, respirando fundo para não avançar e quebrar a cara dele.

Eles chegam ao altar. Santiago coloca a mão dela na minha, resmunga algo sobre tirar o véu. Ela o faz devagar, relutante. E quando o véu sobe…

É ela. A mesma mulher do bar. A mesma que gemeu meu nome ontem à noite. A mesma que eu fiz gozar três vezes antes de dormir. Seus olhos encontram os meus — fúria, choque, vergonha. Eu sorrio brevemente, apertando a mão dela.

— Surpresa — sussurro só para ela ouvir.

Ela engole seco, olhos flamejando.

O celebrante começa:

— Estamos aqui reunidos para unir Yakov Allan Green e Audreen Marie Gonçález em sagrado matrimônio…

Enquanto ele fala, eu olho para ela. Seus olhos estão cheios de incerteza e raiva. Deve ter sido chocante vê-la parar no meio da igreja ao me reconhecer. Talvez uma coincidência divertida para nós dois termos nos conhecido ontem e termos passado a madrugada transando sem sabermos que as pessoas que nos casaríamos éramos nós mesmos. Okay, não tão coincidência assim… Já que graças aos meus irmãos, eu já sabia quem ela era desde o momento que chegou ao bar, mas estarmos no mesmo ambiente na despedida de solteiro foi destino puro.

— Yakov, você aceita Audreen como sua esposa, prometendo ser fiel, amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de sua vida?

Eu tomo um fôlego profundo.

— Sim, aceito — minha voz sai mais firme do que eu esperava.

Audreen faz o mesmo quando é a sua vez, voz baixa e relutante:

— Sim… aceito.

O celebrante continua. Nós repetimos os votos. Eu digo com sinceridade, olhando diretamente para ela. Espero que ela sinta o mesmo, mas seus olhos evitam os meus.

— Pode beijar a noiva — diz o celebrante, sorrindo.

Eu me inclino. Ela vira o rosto ligeiramente, fazendo o beijo pousar na bochecha. Aplausos ecoam pela igreja. Eu levo a mão até a nuca dela, em uma carícia que a faz amolecer e ceder. Meus lábios tocam os dela de novo, e eu a beijo — língua invadindo, possessivo, profundo. Ela resiste por um segundo, depois corresponde, mãos apertando minha camisa. O beijo dura mais do que deveria. O celebrante pigarreia, interrompendo.

Ela se afasta, rosto vermelho, constrangida.

Eu sorrio para ela.

— Bem-vinda ao inferno, esposa.

Ela me encara com fúria.

— Você sabia — sussurra. — Você sabia ontem.

— Sabia — respondo baixo. — E agora você sabe também.

Ela engole seco.

— Isso não muda nada.

— Muda tudo — digo, apertando a mão dela. — Agora você é minha.

O casamento termina. Fotos rápidas. Abraços frios do Capucha. Vasily me abraça forte.

— Boa sorte, irmão — sussurra. — Você vai precisar.

Saímos da igreja. O carro nos espera. Audreen entra primeiro, rígida. Eu entro atrás, fechando a porta.

Silêncio pesado.

— Por que você fez isso? — pergunta ela, voz baixa, olhando pela janela.

— Porque eu queria você — respondo. — E porque eu precisava dessa aliança. Mas principalmente porque eu queria você.

Ela vira o rosto para mim, olhos flamejando.

— Você me usou ontem.

— Você me usou também — retruco. — Você queria perder a virgindade. Eu só ajudei.

Ela ri sem humor.

— E agora você acha que pode me ter?

Eu me inclino para ela, mão na nuca, puxando-a para perto.

— Agora eu sei que posso. E vou ter. Toda noite. Até você querer também.

Ela me encara, respirando rápido.

— Eu te odeio.

— Ótimo — sussurro, beijando-a de novo. — Ódio é um bom começo.

O carro segue para o hotel. A lua de mel começou.

E eu sei que ela vai lutar.

Mas eu também sei que vou vencer.

Porque Audreen Marie Gonçález-Green agora é minha.

E eu nunca deixo o que é meu escapar.

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