Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jardim da casa dos meus pais está iluminado por luzes douradas e lanternas penduradas nas árvores, criando um ambiente mágico para a festa de casamento. O sol já se pôs, deixando o céu num tom roxo e laranja que parece pintado à mão. O bar montado no canto do jardim está cheio de convidados — familiares, amigos, soldados disfarçados de garçons, todos bebendo, rindo, celebrando algo que eu não consigo sentir como celebração. Eu consegui fugir do meu “marido” e dos meus pais há uns vinte minutos. Preciso de ar. Preciso pensar. Preciso respirar antes que tudo isso se torne irreversível.
Estou encostada no balcão do bar, vestindo ainda o vestido de noiva — sereia branco, justo, decote tomara-que-caia que deixa meus ombros à mostra. O véu já foi tirado, mas sinto o peso dele na memória. O barman contratado me oferece um drink sem que eu peça. Eu aceito, um cosmopolitan forte o suficiente para queimar a garganta. Preciso de coragem líquida para o que vem depois.
— Encontrei você — diz Carmen, parando ao meu lado com um sorriso preocupado. Ela está linda num vestido vermelho curto, cabelo solto, mas os olhos carregados da mesma angústia que eu sinto.
Eu tento sorrir, mas sai torto.
— Estive fugindo de você também — admito. — E das suas perguntas sobre o meu noivo gostoso.
Ela ri baixo, mas logo fica séria.
— Amiga, você deveria estar feliz. Ganhou na loteria. O cara é gostoso demais. E você já até fez um test drive… o que era mesmo o que me disse hoje de manhã? Que teve uma noite mágica com o tal estranho e que talvez jamais tenha uma noite de sexo tão boa quanto teve com ele? Ainda não acredito que você acabou perdendo a virgindade com o próprio noivo e nem sabia.
— Carmen, por favor! — corto-a, voz baixa mas firme, olhando ao redor para ver se alguém ouviu. — Eu ainda pretendo não ir adiante nesse casamento. O fato de ele ser lindo, jovem e gostoso não diz muito sobre o caráter dele. Não acha que o fato de ele estar em um bar nas vésperas do seu casamento e ter transado com uma garota horas antes de se casar já não diz o que esperar dele neste casamento?
Carmen levanta uma sobrancelha, cruzando os braços.
— A garota com quem o seu noivo estava horas antes do casamento dele era você, Audreen — ela aponta, voz seca.
— Que ele não sabia — retruco. — Achando que era qualquer outra pessoa. O que diz muito sobre ele: um marido infiel, que estará se divertindo com várias outras enquanto a esposa está em casa aquecendo a cama. Eu não serei a minha mãe, vivendo em um casamento infeliz.
Eu me viro para o barman, pedindo outro drink. Ele prepara rápido. Eu tomo um gole grande, sentindo o álcool queimar e acalmar ao mesmo tempo.
Carmen suspira, encostando-se ao balcão ao meu lado.
— Audreen, você nem o conhece. Dê-se a chance de conhecê-lo primeiro. Ele pode ser o grande amor da sua vida. Nem todos os homens serão a versão do seu pai ou do meu cunhado.
Antes que eu responda, Haidee aparece do outro lado, irmã mais velha de Carmen, que também teve casamento arranjado. Seu marido é vinte anos mais velho, possessivo, agressivo. Todos sabemos, mas ninguém pode fazer nada. O código de silêncio da máfia protege os homens como ele. Quem quebra é considerado traidor — e a punição pode ser estendida à família inteira.
— Não se pode deixar levar por um rosto bonito — digo, olhando para Haidee. — Eu não vou ser você, Haidee. Não vou viver com medo do meu marido. Não vou esperar o primeiro tapa para agir. Não vou ficar calada.
Haidee baixa os olhos, voz baixa.
— Eu sei. Mas é mais difícil do que parece.
Carmen aperta minha mão.
— Audreen, eu te apoio. Mas pensa bem. Se você fizer algo impulsivo…
— Eu já fiz — interrompo. — Ontem à noite. E hoje eu vou continuar. Ele acha que casou com uma virgem. Ele vai descobrir que não. E talvez isso o faça desistir. Ou pelo menos me dê tempo para planejar a fuga.
Antes que Carmen responda, eu o vejo. Yakov. Meu “marido”. Caminhando em minha direção, ainda de terno branco, cabelo penteado para trás, olhos azuis-acinzentados fixos em mim. Ele para atrás de mim, perto demais. Sinto o calor do corpo dele.
— Estava fugindo de mim, baby? — pergunta, voz grave, sotaque gostoso que me faz arrepiar mesmo contra minha vontade. Ele dá um sorriso de lado, com a covinha aparecendo.
Carmen e Haidee trocam olhares. Carmen pigarreia.
— Haidee, acho que a mamãe nos chamou — diz ela, puxando o braço da irmã.
Eu imploro com os olhos para que ela não me deixe sozinha com ele. Mas elas saem, deixando-me ali, encurralada entre o balcão e o corpo dele.
— Eu te machuquei? — pergunta ele, voz baixa, próxima do meu ouvido.
— O quê? — pergunto, desnorteada pelo som da voz dele.
— Ontem. Eu te machuquei? — repete. — Não teria sido tão bruto se soubesse que era virgem. E, segundo os ensinamentos da minha mãe… sem a presença de sangue… sinto muito.
Eu viro o rosto para encará-lo. Ele está perto demais. Cheiro de perfume caro, calor do corpo, olhos que me estudam como se eu fosse um enigma.
— E se eu disser que sim, que me machucou, isso mudaria alguma coisa? Já aconteceu, não é mesmo? — sou ríspida, tentando me afastar.
Ele me segura pela cintura, mão pesada e firme.
— Infelizmente, não posso voltar no tempo e fazer tudo diferente. O que me resta são minhas desculpas e passar os próximos dias da nossa lua de mel me redimindo com você.
Ele desce os lábios pela minha nuca até os ombros, beijos leves que espalham arrepios pela minha pele. Eu fecho os olhos, odiando meu corpo por reagir.
— Sei muito bem como funcionam casamentos assim — digo, tentando não ceder. — Eu não serei uma submissa que estará disposta e disponível para você quando e na hora que você quiser.
Ele sobe os lábios de volta para o meu ouvido, voz rouca.
— Não é disso que espero de você. Uma boneca inflável. Quero uma esposa que esteja presente ao meu lado e que consiga me amar da mesma forma que pretendo amá-la. Por mais que o nosso casamento tenha ocorrido dessa forma, por meio de um contrato com o seu pai… quero que ele seja real, como todos os outros.
Ele mordisca o lóbulo da minha orelha. Eu prendo o gemido.
— E-eu…
— Precisamos ir — ele se afasta, ficando a uma distância respeitável. — Nosso voo está marcado para daqui a uma hora.
Ele coloca a mão na base da minha coluna, guiando-me para o centro da festa onde minha família está. Droga. Eu esperava ficar aqui, pelo menos essa noite.
— Papai, mamãe… precisamos ir — digo a contragosto.
Minha mãe, dona Maria, faz cara de desapontamento.
— Mas já? Achei que ficariam aqui e só iriam embora depois das vésperas de Natal.
Meu pai a abraça de lado, exagerado.
— Querida, Yakov é um homem de negócios e não pode ficar muito tempo distante deles. Nossa filha agora é uma mulher casada e estará segura com o seu esposo.
Ele sorri para nós. Minha mãe dá um pequeno sorriso, assentindo.
— Sim, ela será muito bem cuidada — diz Yakov, olhando para mim com um sorriso convencido.
Eu faço um esforço enorme para não revirar os olhos.
Seu irmão aparece e diz algo no ouvido dele. Yakov franze a testa ligeiramente, mas logo se recompõe e dá um tapinha no ombro do irmão.
— Com licença, baby — diz ele para mim, beijando rápido minha testa. — Preciso resolver algo importante.
Ele se afasta com o irmão. Eu aproveito para me aproximar da janela da sala, olhando o movimento das folhas lá fora. O vento frio de dezembro faz as árvores balançarem suavemente, criando um cenário quase mágico. Minha mãe se junta a mim, colocando uma mão carinhosa no meu ombro.
— Vai sentir falta de casa, não vai? — pergunta ela, olhar compreensivo.
— Claro, mãe. Sempre vou sentir falta — respondo, segurando sua mão. — Mas estou animada para começar essa nova fase da minha vida.
Não. A que todos imaginam…
Ela sorri, cheia de amor e melancolia.
— Só quero que você seja feliz, minha filha.
— E serei, mãe. Prometo — retribuo o sorriso, tentando passar a segurança que ela precisa.
Nesse instante, Yakov retorna, expressão mais tranquila. Ele se aproxima de nós e coloca um braço ao redor da minha cintura.
— Pronto, tudo resolvido. Podemos ir?
Dou um último abraço em minha mãe e meu pai, sentindo o calor e o carinho deles me envolverem.
— Até breve — digo, tentando segurar as lágrimas.
— Até breve, minha querida — responde minha mãe, olhos brilhando.
Saímos de casa e entro no carro ao lado de Yakov. Enquanto nos afastamos, olho pela janela, vendo minha casa ficando cada vez menor no horizonte.
Minha vida mudou.
Mas meu plano não.
Eu vou sobreviver a isso.
E vou me libertar.







