Mundo ficciónIniciar sesiónO jantar na Estância Barreto estava silencioso, pesado, como se cada móvel, cada quadro, cada prato de porcelana antiga guardasse dentro de si o peso de gerações de poder e de distância. Sentei-me à mesa grande, no lado oposto a ele, e segurei o garfo com tanta força que meus dedos ficaram brancos. Dona Marisa circulava pelo salão como uma sombra discreta, servindo cada prato com uma precisão irritante, lançando-me olhares rápidos e calculados de vez em quando - como se esperasse que eu errasse um movimento, que derrubasse algo, que provasse que eu não pertenço ali.
Otávio estava do outro lado, com a postura ereta, os ombros largos, cortando a carne devagar, sem pressa, sem dizer uma palavra. Desde a manhã, no curral, a tensão entre nós parecia ter crescido até ficar quase visível no ar. Ele tinha me deixado claro que ali quem mandava era ele, que as regras eram dele, que a estrutura da fazenda vinha acima de tudo. E eu tinha deixado claro que não ia me calar, que o meu conhecimento valia tanto quanto o dele, que eu não ia abaixar a cabeça só porque ele tinha comprado a minha dívida.
Comi em silêncio, sentindo o gosto da comida que não tinha sabor nenhum para mim, pensando na minha casa, na cozinha simples onde minha mãe cozinhava, onde o riso ecoava, onde tudo tinha cheiro de família. Aqui, tudo era frio, tudo era calculado, tudo parecia feito apenas para mostrar que ele era o dono de tudo.
Foi então que ele falou, sem levantar os olhos do prato, com a voz calma, grave, como se estivesse comentando sobre o tempo:
- Os pedreiros terminaram o trabalho hoje.
Parei com o garfo no ar, confusa.
- Que trabalho?
Ele ergueu os olhos devagar, e por um segundo, eu não soube decifrar o que havia neles. Algo que não era dureza, nem raiva, nem indiferença. Algo mais profundo, que ele escondia bem atrás daquela máscara de homem de pedra.
- A casa da Fazenda Albuquerque. Mandei reformar. Telhado novo, madeira trocada onde estava podre, as paredes rebocadas, o chão arrumado. Os jardins ao redor, as árvores que o seu pai plantou, tudo foi limpo e cuidado. Nenhuma mudança no jeito que era, só o que precisava para não cair.
Senti o ar fugir dos meus pulmões. Deixei os talheres sobre a mesa, devagar, com as mãos tremendo um pouco. Não esperava aquilo. Não esperava que ele tivesse feito qualquer coisa que não fosse aumentar o seu próprio império, que ele tivesse gastado tempo, dinheiro e cuidado com o lugar que era a minha vida, o lugar que representava tudo o que eu tinha salvo, tudo o que eu amava.
Lembrei-me da última vez que estive lá, antes de vir para cá: as goteiras no telhado da sala, as rachaduras na parede do quarto do meu pai, as roseiras que minha mãe plantara e que estavam quase secas por falta de quem cuidasse. Eu tinha saído de lá com o coração partido, achando que aquele lugar iria se deteriorar aos poucos, abandonado, só mais uma propriedade dentro das terras dos Barreto.
E ele tinha mandado consertar. Tinha mantido cada detalhe como era, tinha preservado o legado da minha família, como se aquilo também fosse importante para ele.
Por um segundo, só por um segundo, a minha armadura caiu. O ódio, a desconfiança, a raiva que eu carregava comigo desde o dia em que ele apareceu com a proposta do casamento, tudo isso ficou em segundo plano. Senti os olhos se encherem de lágrimas, senti uma gratidão que eu não queria sentir, mas que era maior do que a minha vontade de continuar odiando ele.
- Por quê? - perguntei, a voz baixa, quase um sussurro. - Você não precisava fazer isso. Agora é tudo seu, de certa forma. Poderia ter deixado cair, ou mudado tudo para ficar igual a essa casa.
Ele deu um gole de água, devagar, e quando voltou a me olhar, a expressão já tinha mudado. O brilho diferente tinha desaparecido, substituído pela mesma frieza de antes, a mesma distância que ele usava como escudo.
- Porque terra não é só madeira e pedra - disse ele, seco, cortante. - História dá valor à propriedade. Se eu quero manter tudo o que eu unifiquei forte e respeitado, eu mantenho o que tem importância. A casa da sua família é parte da história dessa terra agora. E história não se j**a fora.
Aquelas palavras caíram sobre mim como um balde de água fria.







