O caminho até a cidade era longo, estrada de terra batida que sacudia o carro devagar, e eu mantinha as mãos firmes no volante, os olhos fixos na linha reta que se abria à frente. Ao meu lado, ela ia calada, com um vestido de tecido mais fino que eu tinha visto ela usar até hoje, cabelos bem puxados para trás, postura ereta como se estivesse pronta para uma batalha - e de certa forma, estava.Todos na região sabiam da nossa união. E quase todos comentavam, nas esquinas, nas vendas, nos bares: que eu tinha pago a dívida da família dela, que ela tinha vindo como parte do acordo, que não havia amor nem laço que não fosse de interesse. Ouvi cada palavra, cada sussurro, cada comentário maldoso. E hoje, na feira agropecuária, onde todo mundo se encontra, onde cada olhar vigia e cada história corre, eu ia deixar tudo bem claro: Helena era minha esposa, a senhora da Estância Barreto, e quem duvidasse, quem falasse mal, quem pensasse que ela estava aqui sem valor ou sem voz, ia ver que estava
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