Mundo de ficçãoIniciar sessãoPedro Kirklan:
— Vamos brincar, meninas. Estou muito generoso hoje. — Com gritinhos, elas se deixaram ser levadas.
Eu já estava no meio do caminho, pronto para a festa que aconteceria no andar de cima, no enorme quarto daquele Lounge, quando ouvi um infeliz chamando o meu nome.
— Pedro, não vá ainda. Aconteceu uma coisa...
Ainda de costas, soltei as meninas. Levei algum tempo para me virar na direção da voz que falara comigo, por mais que quisesse mandar qualquer um tomar no cu. Sinceramente? A pessoa não tivera um momento melhor para falar comigo? Eu estava com o pau duro dentro da calça, a caminho de um quarto com duas meninas lindas, cheias de fogo, no meu aniversário. Nada poderia ser tão urgente quanto aquilo.
— O que foi? — Virei-me e me deparei com um dos meus capos. Seu rosto estava pálido, o que me fez ficar um pouco mais sério.
O assunto não podia ser uma bobeira, levando em consideração o quão assustado ele estava.
— Fala logo, homem! Para de enrolar! — fui mais rude do que deveria, e minha voz soou pesada, forte, como um rugido.
— A Srta. Bellarno... sua noiva...
Meus ombros imediatamente tensionaram.
— O que tem Nerina?
— Ela sofreu um acidente, senhor. Morreu na hora; ela e os dois seguranças que a acompanhavam.
— Um acidente? — Dei um passo à frente, deixando as duas meninas para trás, porque já nem me lembrava delas. — Que tipo de acidente?
— O carro em que ela estava voltando de viagem, de um evento beneficente, perdeu o controle e caiu numa ribanceira. Os irmãos reconheceram o corpo há mais ou menos uma hora.
Puta merda!
Então o assunto era, realmente, mais urgente do que qualquer outra coisa. Assenti, sentindo um nó na garganta.
— Peça que preparem o meu jatinho. Vou partir para Miami imediatamente.
Eu estaria com eles. Não era mais a noite do meu aniversário; era uma noite de luto. Teria que lidar com isso...
Com as mãos unidas na frente do meu corpo, cabeça baixa, deixei que meus ouvidos ficassem apurados para ouvir o sermão do padre, mas ignorei os soluços dos choros ao meu redor. Não que fosse muito religioso, pelo contrário, só não sabia lidar com aquele tipo de coisa: a tristeza, a melancolia de se perder alguém. Nunca amei uma pessoa daquele jeito ao ponto de sofrer com uma ausência. Minha mãe morrera quando eu era apenas um bebê, e meu pai... Só não comemorei sua partida, porque queria manter um pouco do respeito, já que sempre aprendi que a família vem em primeiro lugar.
Olhava para Kael Bellarno, que era o filho do meio do chefe de Miami, e o via destroçado, debruçado no caixão da irmã, com uma das mãos no rosto dela, coberto de maquiagem para esconder os ferimentos, chorando como um menino. Orion, o mais velho, mantinha-se composto, ao lado do pai, em uma postura ereta, muito sério como sempre. Até mesmo Cassiel, pai da moça, não parecia o mesmo. Havia olheiras e rugas novas em seu rosto. Aquela atmosfera era estranha para mim. Eu chegava a me sentir deslocado.
— Pedro? — Uma mão delicada pousou no meu braço, e eu olhei para o lado, encontrando um rostinho de boneca que eu conhecia desde criança. Odessa, minha prima, estava presente, também muito emocionada, porque sempre fora amiga de Nerina. Não me lembrava de elas terem um relacionamento tão próximo, mas sabia que se gostavam, se respeitavam e participavam de alguns eventos juntas.
— Sinto muito — ela falou para mim, apertando meu punho com carinho, como a irmã que era para mim.
Aceitei seu cumprimento com um meneio de cabeça silencioso, sabendo muito bem que, talvez, eu devesse oferecer minhas condolências a ela, porque nunca tive tanto contato com minha futura noiva. Nosso casamento tinha sido acertado meses antes, durante uma decisão entre mim e Cassiel, para conter um problema que vinha acontecendo há um bom tempo.
Grupos inimigos sempre tentaram criar pequenas guerras entre nós. Havia cinco famílias, dentro da La Cupola nos Estados Unidos, que regiam toda a organização. Os Brigman, que eram responsáveis por Filadélfia. Kirkland – a minha família, no caso –, que cuidava de Boston; os Bellarno, em Miami; os Lombardi, na Geórgia; e os Russell, no Tennessee. Esta era uma regra que durava há gerações. Nossos pais e avós faziam as coisas funcionarem desse jeito, e nós tínhamos negócios prósperos, organizados e bem gerenciados. Algumas vezes colhíamos cebolas podres nos nossos meios, com traidores que acabavam em nossos galpões, sendo torturados até a morte, mas tudo era estabelecido e corria perfeitamente. E eu nem era um cara que não gostava de novidades, pelo contrário. Não era arcaico e entendia que, para obter resultados melhores, precisávamos fazer coisas diferentes. Mas uma delas não era mudar algo que estava dando certo.
Dentro do estado da Florida, havia grupos extremistas que tinham o interesse de pegar o poder do estado e centralizá-lo em outro lugar, arrancando-o das mãos dos Bellarno. Isso não era nem um pouco interessante para mim, que tinha quase todos os meus negócios com eles há anos. Sem contar que tínhamos uma lealdade forte. Porém, nós sabíamos que a aliança se tornaria ainda mais forte por meio do casamento. Eu era um homem jovem, um chefe que herdara o cargo razoavelmente cedo, e isso despertava a ira dos mais tradicionais. Sabia que também havia gente querendo me destronar e não demoraria a dar as caras. Uma ligação entre Kirkland e Bellarno seria tão poderosa e tão respeitada por todos os outros estados que eram leais à La Cupola, que faria qualquer ato rebelde perder a força. E Cassiel tinha uma filha solteira... Não era a coisa mais simples a se fazer? Se eu tivesse uma irmã, poderia casá-la com Orion ou Kael, mas não era o caso.
Não era apenas a morte de Nerina. Viver e morrer no meio da máfia também tinha suas questões políticas. Naquele momento, eu estava preocupado.
Acompanhamos o cortejo, depois das palavras bonitas do padre, e assistimos ao caixão ser baixado à cova. Mais uma vez as lágrimas de Kael me comoveram, porque ele era o mais destruído de todos nós. Azriel e Odessa já tinham se afastado àquela altura, porque começara a chover, e minha prima estava grávida. Cuidadoso como era, seu marido a tirara de perto, levando-a para um local coberto. No exato momento em que fiquei sozinho, meu ex-futuro-sogro veio se aproximando devagar, colocando-se ao meu lado, parecendo ter algo a dizer, mas tornando o momento solene o suficiente para eu chegar a ficar impaciente.
— Já pensamos em tudo, Pedro. Gostaríamos que se reunisse a nós assim que sairmos daqui. É um assunto de extrema urgência — Cassiel começou a falar, e eu cheguei a franzir o cenho, completamente confuso.
— Do que está falando? Como assim pensaram em tudo?
— Sobre o casamento.
— Não estou entendendo. Não tenho mais noiva, aparentemente — foi uma coisa cruel a se dizer para um pai que acabara de perder sua filha, mas era a verdade.
— Confie em mim. Vamos conversar.
Não me restava alternativa a não ser concordar, embora estivesse achando tudo aquilo muito estranho. Poderia até perdoar, na verdade, já que se tratava de um homem tomado pelo luto. Por mais que ele não parecesse tão abalado pela morte da filha quanto preocupado com o casamento que fora perdido.







