Eu não durmo depois que ele sai. Não consigo. Meu corpo está exausto, mas minha mente parece ter sido acesa por dentro, queimando em um estado de alerta constante, incapaz de desligar. O breu do quarto, o silêncio pesado, o cheiro das paredes… tudo me lembra da mesma verdade: já se passaram quatro semanas desde o envenenamento. Quatro semanas desde que minha vida virou pó dentro de mim.
Eu só sei o tempo porque voltei a menstruar. É estranho descobrir isso como quem tropeça em um sinal de vida depois de ter certeza de que já estava morta por dentro. Não sei exatamente quanto tempo fiquei naquele porão escuro, úmido, sufocante, mas tenho quase certeza de que foram pelo menos duas semanas trancadas lá embaixo.
Sem janelas.
Sem voz.
Sem ninguém.
É ridículo, mas estou feliz por não ter que pedir absorventes. Eu tinha escondido alguns da última vez, dentro de uma caixa de lenços, como se já previsse que um dia me negariam até o básico. Sobreviver é isso: guardar pequenos segredos que po