Pádia tenta calçar as sandálias douradas, mas o pé não obedece. O inchaço denuncia a fadiga, a pressão nas pernas, o peso de quem carrega duas vidas: a dela e a que cresce sob a pele.
— Droga… Ela sussurra, sem rancor, mas com a honestidade de quem já chegou ao limite.
— Qual é o seu tamanho? Pergunto.
— Trinta e sete, normalmente. Hoje… trinta e oito.
Tiro, então, minhas sandálias baixas simples, discretas, quase invisíveis e as empurro para perto dela.
— Troque comigo. As minhas são trinta e oito. Não são bonitas, mas são confortáveis.
Ela ri, um riso que ilumina a capela mais do que qualquer lâmpada vermelha.
— Juro que as minhas foram desenhadas por alguém que odeia mulheres, Rosália.
— Pelo menos as minhas gostam de caminhar respondo, e só depois me dou conta de que acabei de oferecer mais do que conforto: ofereci um gesto de solidariedade num lugar onde gestos assim são quase crimes.
Olhamos uma para a outra como quem reconhece, sem palavras, a mesma prisão dourada. Ela calça