A manhã desperta tímida, coberta por um manto espesso de nuvens. A chuva fina, persistente e constante, cai como uma prece silenciosa sobre o telhado da casa, enquanto o som das gotas contra o vidro cria um compasso quase hipnótico. A luz que entra pela janela é pálida, doentia, como se até o sol tivesse medo de atravessar aquelas paredes.
Já estou vestida há algum tempo quando ouço o leve ranger da porta. Ana entra carregando uma bandeja de prata polida, equilibrando com o mesmo cuidado de sempre meu café da manhã. Seu olhar é doce, mas a preocupação não disfarça a tensão que carrega.
Ela tem sido, nesses últimos dias, a única presença que me impede de enlouquecer. Perdi a noção das horas, das datas, do próprio tempo. Só sei quantos dias se passaram porque, desde o segundo dia, comecei a riscar um pedaço de papel escondido na escrivaninha. Três riscos. Três dias. E mesmo assim, parece que vivi uma eternidade dentro dessas paredes.
O confinamento cobra um preço cruel. A humilhação, qu