Sento-me na beirada da cama, o peso do corpo inclinado para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, estudando minha esposa enquanto ela dorme. A respiração dela sobe e desce em um ritmo suave, quase hipnótico. Essa maré tranquila é o único conforto que encontro depois de tudo o que aconteceu. Saber que ela está aqui. Que está viva. Que está segura, ao menos por enquanto. Isso é tudo.
Agora eu entendo. Não há nada que Henrique não faça. Nada. Não existe alma que ele não sacrificaria para poupar a própria pele. As palavras falham quando tento nomear o terror que ainda me atravessa ao pensar no que aconteceu com Charlotte e com aquele bebê. O que poderia ter acontecido?
Poderia ter sido Rosália.
Poderia ter sido nosso filho.
Poderia ter sido Ruth.
O pensamento me corrói.
Mais do que nunca, sou confrontado com uma verdade incômoda. Eu não estava preparado para lidar com a avalanche de emoções que essa situação trouxe à tona. O fardo da responsabilidade pesa de um jeito que eu nunca i